PROTESTOS URBANOS

O que querem os manifestantes

Por Luciano Martins Costa em 11/06/2013 na edição 750

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 11/6/2013

Os jornais repercutem a apreensão de autoridades de algumas das principais cidades do país com a repetição de manifestações pela gratuidade do transporte público. Na terça-feira (11/6), a Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo exibem fotografias impactantes do confronto entre ativistas e as forças de segurança no Rio, com imagens de policiais protegidos por armaduras e cenários com muita fumaça e correria. O Globo traz reportagem detalhando a ocorrência de tumultos em vários pontos da capital fluminense.

As cenas transmitidas pela televisão e o relato linear dos jornais refletem situações caóticas, com muita confusão, bombas de efeito moral, trânsito paralisado e uma constatação intrigante: o caos provocado pelos manifestantes leva enorme vantagem sobre a ordem da ação policial. A razão parece simples: os ativistas querem paralisar a cidade, irritar a população e demonstrar a ineficiência dos agentes oficiais, enquanto os policiais recebem ordem para apenas acompanhar a movimentação, agindo somente quando alguns atos mais agressivos ameaçam o patrimônio privado ou equipamentos públicos.

A tática dos manifestantes é parecida com o que acontece nos protestos em outras partes do mundo: eles saem caminhando em relativa ordem, gritando slogans e exibindo seus cartazes; eventualmente, pequenos grupos se deslocam lateralmente e provocam um distúrbio, incendiando sacos de lixo, quebrando vitrinas ou atirando pedras em ônibus. Quando a polícia age, eles retornam ao grupo principal que caminha pacificamente. Aparentemente, a tática está bem assimilada e aquilo que parece confusão é claramente uma forma planejada de dispersar a capacidade de intervenção da polícia.

De certa maneira, o modelo repete aspectos das mobilizações de estudantes contra a ditadura, nos anos 1970, quando um pequeno grupo definia os trajetos mais adequados das passeatas e preparava ações para reduzir a eficiência da cavalaria, por exemplo, juntando rolhas e bolinhas de vidro que derrubavam os cavalos nas ruas. As correrias que desarticulam os planos da polícia não são sempre espontâneas: quase sempre são uma forma de levar a tropa para longe do núcleo principal da manifestação.

Sinais de ruptura

Se a tática dos manifestantes está relativamente clara, sua estratégia ainda desafia os analistas. Pode-se dizer muita coisa sobre a principal reivindicação que mobiliza os jovens ativistas, inclusive que é impraticável. Mas a imprensa ainda não foi buscar as planilhas que demonstrem se o transporte gratuito é factível ou se os ativistas fazem muito barulho por nada.

Alguns repetem bordões que já foram enterrados por novas expressões do capitalismo, como a frase segundo a qual “não existe almoço grátis”. Outros tentam ressuscitar velhas ilusões sobre a sociedade solidária, que a História enterrou há décadas.

Certamente, no núcleo organizador das passeatas há uma inteligência dedicada a fins muito claros. Um deles pode ser a conquista de eleitores, outro pode ser o contrário, ou seja, o desmanche da democracia representativa.

A repetição da tática de perturbar a vida urbana pode produzir resultados inesperados, como a ascensão de dirigentes ainda mais conservadores e oportunistas, sem compromisso com projetos urbanos e de transporte mais adequados às grandes cidades. Não terá sido a primeira vez em que o protagonismo de muitos se transformaria em massa manipulável, e aqueles que hoje depredam o patrimônio comum podem estar agindo contra seus próprios interesses.

O que se pode observar é que a juventude – pelo menos parte dela – parece sair do marasmo que dominou a geração de seus pais, que nos anos 1980 se entregaram gostosamente ao triunfo do capitalismo e se iludiram com a possibilidade de uma vida sem conflitos. Seguiram-se depois as afirmações aleivosas sobre o fim da História e o advento do que muitos chamam de pós-modernidade.

Os “pós-modernos” também envelhecem, seus filhos se revoltam contra o conformismo e querem ser protagonistas.

Nesse período, consolidou-se a sociedade do prazer e do consumo, o interesse coletivo saiu de moda e a indústria da mídia colocou nas telas a promessa da felicidade individual à revelia do bem-estar comum.

Apesar de serem poucos e parecerem confusos, os manifestantes refletem claramente uma ruptura com o conformismo dos últimos trinta anos. As cidades cheiram a gás lacrimogêneo e a imprensa corre atrás dos fatos, mas não dá sinais de entender o significado mais profundo das tensões naturais do mundo contemporâneo.

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 Erick Vizoki
 Enviado em: 11/06/2013 11:10:35
Outra coisa que é fato, é que esses manifestantes são sempre ligados a pequenos grupos políticos radicais, uma espécie de "tropa de choque", ou mesmo "facções". O Luciano Martins está certíssimo quando fala sobre os verdadeiros objetivos dessas manifestações, que são a busca de eleitores ou o desmanche da democracia representativa. Os discursos são sempre arcaicos e caóticos e se mantém distante de qualquer debate razoável.Veja-se os protestos realizados contra a cubana Yoani Sánchez quando de sua visita ao Brasil. Sou totalmente a favor de protestos e manifestações, quando justificados de maneira clara à sociedade. Mas até mesmo a própria imprensa parece militar, ora de um lado, ora de outro, colaborando ainda mais para a confusão. É prática comum manifestantes partirem para o vandalismo com o intuito de desacreditar e irritar a polícia e a sociedade. É exatamente como descrito neste artigo, eu sei, já participei. Ontem mesmo, no CQC, houve uma matéria em meio às manifestações na Av. Paulista (SP) contra o aumento da tarifa do transporte público. Não fiquei nem um pouco surpreso ao ver que alguns manifestantes entrevistados (sempre muito jovens) sequer faziam ideia do porquê estavam lá. Enfim, é como escreveu o roteirista de HQ e escritor inglês Neil Gaiman: não existe melhor capitalista do que um ex-comunista!
 Dante Caleffi
 Enviado em: 11/06/2013 16:54:31
Mocotó é que não é. Anacrônico e de paladar defasado.Concordo que São Paulo, que já foi classificada como túmulo do samba, é tediosa. A menos que você pertença à classe que tem por hábito deslocar-se pelos ares ,presto e confortável. Quantos, alojados no PIG e siglas ditas oposicionistas, não torcem por uma "primavera tupiniquim"? E, se indagarem a esses neo manifestantes o que significa "primavera', responderão, vagamente,que não possuem parentes com esse nome. Outros, mais "antenados",dirão que se trata de uma das estações,talvez , quatro, do ano.E, segue o alegre arremesso de objetos e inflamáveis...
 Ibsen Marques
 Enviado em: 11/06/2013 21:21:16
A abordagem que tenho visto na grande mídia é, no mínimo, ridícula. Uma turba de depredadores geraria um prejuízo de apenas setenta e tantos mil reais? Ora, façam-me um favor. É óbvio que entre os protestantes há um número mínimo de baderneiros, mas isso é normal e não invalida a reivindicação de não alteração dos valores das passagens, afinal, a qualidade dos serviços é péssima e não há nenhuma perspectiva de melhora, além disso, não se pode utilizar índices inflacionários cheios para justificar como aceitável esse reajuste ter sido inferior à inflação do período. Absolutamente ridícula essa abordagem elitista da questão. A imprensa quer colocar a sociedade contra as manifestações, mas não se deram conta que sua reivindicação atinge os anseios da maioria da população, isto é, a que se utiliza do transporte público. Se há prejudicados a curto prazo, não é a "sociedade", senão uma elite nada responsável que não depreda, mas desvia dinheiro do patrimônio público. Mas infelizmente a esses protestos não fazem coro os jovens interioranos. Em minha cidade, por exemplo, os usuários do péssimo transporte público acataram, sem mais, a alteração da tarifa de ônibus de R$2,70 para R$3,00, bem acima dos índices praticados em SP e RIO. Qual a força de um protesto que não prejudica ninguém? Para que o governo se mexa é preciso c
 Haroldo Lago
 Enviado em: 12/06/2013 16:19:08
Em 32, o Brasil não tinha Constituição, nem Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais. Os estudantes fizeram manifestações contra Getúlio, num clima de crescente revolta. Invadiram a Liga Revolucionária, favorável ao regime. Houve confronto. Quatro foram mortos: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Eram os 'vândalos' e 'baderneiros' da época. M.M.D.C. é o acrônimo pelo qual se tornou conhecido a revolução paulista, que antecedeu e originou a Revolução Constitucionalista de 1932. O Brasil de hoje é governado por uma quadrilha. Grassa a corrupção, a criminalidade virou pandemia, e a impunidade se tornou banal. Temos um monte de 'vândalos' e 'baderneiros' promovendo manifestações por todo o país. "Quem não assimila os ensinamentos da história, está condenado a cometer os mesmos erros!" ainda não temos constituição. Temos um 'papelzinho' ao qual alguns recorrem para defender um congresso apodrecido. Sim. Eram diferentes as circunstâncias, mas MMDC também foram chamados de baderneiros, e morreram por isso. Os fatos seguintes mostram que eles estavam certos. Há momentos em que, ou se enfrenta a ruptura, ou se perpetua a opressão. Os movimentos que vemos pela TV também tem sua realidade local. Também lá há os que chamam os que protestam de vândalos. Vejo tantos clamando pela revolução e pela volta dos militares. O que
 Aristóteles Lima Santana
 Enviado em: 12/06/2013 21:08:50
"Ilusões sobre a sociedade solidária"? Ilusão para você.
 Luciano Costa
 Enviado em: 17/06/2013 09:57:53
Aristóteles, que tal pensar na possibilidade de uma "sociedade compreensiva"? Ou sobre a diferença entre ilusão e utopia? Por quantas décadas ainda os humanistas, progressistas e a esquerda em geral vão repetir bordões sem procurar entender a natureza humana, enquanto os reacionários confiscam direitos duramente conquistados?
 Kiril Araujo
 Enviado em: 21/06/2013 16:50:10
Luciano, como devemos interpretar "velhas ilusões sobre a sociedade solidária, que a História enterrou há décadas"? Então, você já tem bem mapeada a "natureza humana"? É muito comum opiniões serem publicadas como se fossem fatos, e daí se propaga toda uma linha de raciocínio. Gostaria de ver sugestões de leitura que sustentassem sua visão.

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

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