terça, 18 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Sim, orgânico é mais saudável

(Foto: CPRA)


Navegamos por um tempestuoso mar de desinformação quando o assunto é agricultura orgânica. O Instituto Questão de Ciência (IQC) publicou recentemente, nas páginas do UOL, um artigo que já seduz os incautos pelo atraente título: “Mais saudáveis? Sem pesticidas? O mito da superioridade dos orgânicos”.
Interessante notar: o texto vem na sequência de outras publicações similares do mesmo instituto. No artigo “Quem tem medo do glifosato”, a autora faz uma defesa apaixonada e quase corporativa do agrotóxico mais usado no mundo. Benzido por uma aura de autoridade intelectual, o artigo é de fazer inveja ao departamento de marketing da Bayer, fabricante do pesticida classificado como cancerígeno por diversas agências regulatórias no mundo todo.
O IQC já havia divulgado outra confissão de fé nos dogmas do agronegócio: o texto “Ideologia e ciência na questão dos transgênicos” é uma elegante aposta na inocência do leitor. A peça, quase publicitária, rotula como irracional e anticientífica qualquer manifestação crítica ou reflexiva quanto ao uso de sementes geneticamente modificadas na agricultura moderna.
Com esse breve currículo de publicações, não surpreende que o IQC venha agora lançar, com as bênçãos do UOL, um ataque singelo contra os alimentos orgânicos. Fica claro, no entanto, que a autora desconhece o universo da agricultura. Desconhece também o trabalho sério de renomados cientistas que, há décadas, estudam essa complexa área de conhecimento que é a agroecologia e a produção orgânica, bem como suas diversas variantes e interfaces.
Leitores e leitoras não perdoaram. Quase todos os comentários ao texto são duras críticas à sua parcialidade. “Propaganda enganosa que brinca com a saúde alheia”, “desserviço à sociedade”, “artigo escrito de forma bem desonesta: não houve o contraditório”, comentam. Alguns foram mais mordazes: “Texto pseudocientífico e cheio de informações falaciosas”, ou o clássico “espero que a autora tenha sido bem paga para assinar esse lixo de matéria”. No Facebook, o biólogo Rafael Altenhofen fez coro aos insatisfeitos: “Artigo muito suspeito. Utiliza de estudos pontuais para fazer conclusões generalistas”.
A arte de ignorar os dados
Em 2016, a revista Nature Plants publicou um dos estudos mais influentes dos últimos tempos acerca do tema. No artigo “Organic agriculture in the 21st century”, os pesquisadores John Reganold e Jonathan Wachter, do Departamento de Agronomia e Ciências do Solo da Washington State University, compilam num belíssimo diagrama – no formato de uma flor – anos de estudos comparativos entre o manejo convencional e o manejo orgânico. Os dados incluem elementos agronômicos, ecológicos, sociais, comerciais e ocupacionais. Conclusão: muito além da produtividade e da qualidade nutricional, a agricultura orgânica geralmente apresenta desempenho bastante superior nos quesitos qualidade do solo, otimização energética, biodiversidade, redução da poluição hídrica, lucratividade, redução de custos, promoção de serviços ecossistêmicos, geração de emprego, redução de riscos ocupacionais decorrentes do uso de pesticidas e, é claro, redução do uso de pesticidas. Em outras palavras: os dados divulgados na Nature Plants transformam o artigo do IQC numa lamentável peça de relações públicas, com pouco ou nenhum compromisso com a complexidade científica que o tema requer. Abaixo, segue o diagrama. Fica como tarefa de casa aos críticos apressados e aos leitores que buscam mais profundidade na discussão.

(Crédito: Nature Plants – John P. Reganold e Jonathan M. Wachter)


Já no quesito políticas públicas, também surpreende que a autora tenha ignorado completamente um importante relatório das Nações Unidas (ONU). Trata-se do “Report of the Special Rapporteur on the right to food”. Publicado em 2017, o trabalho faz severas críticas ao modelo hegemônico da agricultura convencional. Seus temerosos impactos socioambientais, assim como a viabilidade e sucesso das práticas agroecológicas, são detalhados com fartos dados ao longo das vinte páginas da publicação. No quinto capítulo, lê-se o seguinte: “A disseminação das práticas de agricultura orgânica demonstra que uma agricultura isenta de pesticidas é viável; estudos indicam que a agroecologia é capaz de produzir alimento suficiente para alimentar a população mundial, garantindo a todos uma nutrição adequada; a afirmação promovida pela indústria agroquímica, segundo a qual pesticidas são necessários para atingirmos a segurança alimentar, é não somente imprecisa, mas perigosamente enganosa”. O relatório é enfático ao sugerir a adoção de práticas agroecológicas – por exemplo, a agricultura orgânica – como estratégia a ser perseguida por produtores rurais e gestores públicos em nível global. A leitura completa da publicação é um antídoto oficial contra o discurso falacioso propagado pela indústria agroquímica e, curiosamente, por determinados cientistas e institutos.
Sobre clichês e argumentos
É um falso maniqueísmo: uns defendem a radical conversão de todos os cultivos convencionais em sistemas agroecológicos. E outros dizem que produção orgânica é conversa para boi dormir. Ambos pecam pela ingenuidade. Seja qual for o seu lado, é desonesto usar um ou poucos trabalhos científicos – meticulosamente pinçados do imenso universo de publicações acadêmicas – para generalizar um argumento de natureza ideológica. Sim, todos nós somos guiados por valores ideológicos. Problemático é fantasiar a ideologia e vendê-la como insuspeita ciência.
Ganhamos nesse episódio três valiosas lições: (a) uma publicação que se pretende honesta e imparcial não pode ignorar o sagrado princípio do contraditório; (b) subestimar o senso crítico dos leitores e leitoras é erro grave; e (c) desinformação é um alimento (não orgânico) que se come cru.
Perde a imprensa. Perdem os profissionais de comunicação. Perdem os cientistas sérios e comprometidos com o interesse público. Do ponto de vista corporativo, não se pode usar como escudo mágico a frase “Este texto não reflete a opinião do veículo”. A ressalva não pode ser usada como bilhete de camarote para um vale-tudo editorial. Editores e jornalistas profissionais continuam responsáveis pelos filtros de qualidade exigidos na profissão – e, no caso dos frequentes clichês publicados acerca do tema, quase sempre acompanhados de perigosas meias-verdades, as redações têm o dever de separar o joio do trigo. Vejamos:
Alimentos orgânicos são mais caros. Depende. A resposta pode ser “sim” para quem os compra nas grandes redes de varejo ou em espaços elitizados. Em tais ambientes, as exorbitantes margens de lucro de intermediários dizem mais sobre a moralidade de suas práticas do que sobre os reais custos de produção vinculados ao árduo trabalho dos agricultores familiares dedicados à lida da terra. Mas o que dizer das experiências de CSAs (Comunidades que Sustentam a Agricultura) ou do projeto Cestas Solidárias, no Paraná, através dos quais, por meio do contato direto entre consumidores e agricultores, é possível adquirir cestas semanais de produtos agroecológicos por preços que muitas vezes ficam abaixo dos encontrados nos mercados e mesmo nas feiras? O preço de um alimento não é definido unicamente pelos custos de produção. Ele é quase sempre vinculado a isenções ou subsídios governamentais. Exemplo: os agrotóxicos comercializados no Brasil, hoje, têm redução de 60% na base de cálculo do ICMS. Sem falar na isenção total do IPI. Não fossem essas benesses quase maternais, que preço pagaríamos pelos produtos oriundos da agricultura convencional, altamente dependente desses insumos? Com mais equilíbrio na lei da oferta e demanda e mais equilíbrio nas relações fiscais entre a agricultura familiar e o agronegócio refém das commodities, é plenamente possível desenvolver uma política de segurança alimentar na qual alimentos orgânicos e agroecológicos sejam acessíveis a todos os brasileiros. Mas o Estado tem promovido, de maneira recorrente, o desmantelamento de políticas e programas de apoio à agricultura familiar ecológica.
Alimentos orgânicos podem conter pesticidas mais tóxicos e prejudiciais ao meio-ambiente. Críticos da agricultura ecológica arvoram-se em torno da chamada calda bordalesa – um fungicida à base de sulfato de cobre por vezes utilizado no manejo orgânico. O sulfato de cobre pode ser tóxico se usado em larga escala, situação que não se verifica quando a agricultura orgânica é praticada de modo responsável e em conformidade com seus preceitos e normas. A propósito, mesmo a calda bordalesa já é considerada antiquada entre agricultores orgânicos. Atualmente, opta-se pela calda cúprica. Ela tem o mesmo efeito, porém traz uma quantidade muito menor de cobre em sua composição. De todo modo, comparar o uso controlado do cobre à pulverização de centenas de milhares de litros de agrotóxicos comerciais no Brasil – muitos, aliás, já banidos na União Europeia, na América do Norte e mesmo na China – é um exercício de estelionato intelectual. A contaminação por agrotóxicos é um drama de saúde pública no Brasil e no mundo. Ao longo da cadeia produtiva dos alimentos convencionais, agricultores e demais trabalhadores do segmento vivem em constante risco de contaminação por pesticidas sintéticos cuja toxicidade pode ser letal. É estimado em 200 mil o número de pessoas que morrem, todos os anos, em decorrência da contaminação por agrotóxicos, segundo relatório das Nações Unidas. A maioria dos casos acontece nos países em desenvolvimento – onde fiscalização e normativas regulatórias são frágeis. Entre os grupos populacionais mais vulneráveis, segundo recente relatório da Unicef, estão infelizmente as crianças. No Brasil, informações do Ministério da Saúde revelam que, entre 2007 e 2014, aconteceram 17.669 casos de intoxicação por agrotóxicos. O cenário piorou nos anos seguintes: entre 2015 e 2017, foram 34.073 casos notificados. São, entretanto, dados subestimados. Estudos da Fundação Oswaldo Cruz indicam que, para cada caso notificado, existem pelo menos cinquenta outros não registrados nas estatísticas oficiais. Os dados mais recentes estão compilados no último dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), intitulado Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde, e no atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, publicado pela geógrafa Larissa Bombardi, da Universidade de São Paulo (USP). Isso não significa que a agricultura orgânica seja isenta de problemas e desafios. Produzir sem veneno é um grande desafio tecnológico e ainda precisamos de muito trabalho e pesquisa para consolidar e disseminar técnicas de manejo mais eficientes do ponto de vista ecológico.
Alimentos orgânicos não são mais nutritivos. Para alimentos de origem vegetal, segundo uma ampla revisão bibliográfica elaborada por pesquisadores britânicos em 2009, realmente não há grande diferença quanto ao valor nutricional entre orgânicos e convencionais. Nem é esperado que haja, quando falamos no teor de macronutrientes – carboidratos, proteínas e lipídios. É o que mostra também estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition. Acerca da quantidade de vitaminas e minerais, porém, ainda há controvérsias entre estudiosos da área. Mas algumas pesquisas sugerem que alimentos orgânicos podem conter maior quantidade de metabólitos secundários. É o caso, por exemplo, de um estudo publicado por pesquisadores do Instituto Dinamarquês de Ciências Agrárias e de outro trabalho publicado por cientistas da Universidade da Califórnia. Segundo relatório encomendado pelo Parlamento Europeu, divulgado em 2016, “o leite orgânico e, provavelmente, também a carne, trazem maiores quantidades de ômega-3 e ácidos graxos quando comparados a produtos convencionais”. No caso do leite orgânico, também os teores de vitamina E são maiores. De acordo com a publicação, “há indicações segundo as quais os alimentos orgânicos têm menor teor de cádmio do que os convencionais”. Os autores do relatório escrevem que tal diferença é de alta relevância para a saúde humana, pois o cádmio é um metal tóxico com possíveis efeitos deletérios em nosso metabolismo. A mesma informação também foi apontada em outra pesquisa bibliográfica publicada no British Journal of Nutrition. Além do menor teor de cádmio, os autores identificaram maior concentração de antioxidantes nos alimentos orgânicos. Adiante: maior quantidade de antioxidantes e micronutrientes, maior quantidade de ferro e magnésio e teor significativamente menor de nitratos… Foram também as conclusões do estudo Nutritional quality and safety of organic food, publicado em 2010 por encomenda da Agence française de sécurité sanitaire des aliments (AFSSA). Mesmo com tantas evidências, porém, ainda é cedo para conclusões definitivas. Em termos metodológicos, não é nada fácil planejar estudos comparativos para avaliar alimentos produzidos nos dois sistemas. De todo modo, embasar o conceito de qualidade alimentar apenas no teor de nutrientes é uma tendência obsoleta na nutrição. O conceito contemporâneo de alimento saudável vai muito além disso: em uma abordagem sistêmica, é preciso entender as dimensões ambientais, sociais e culturais dos agroecossistemas onde nosso alimento é cultivado. Nessa percepção ampliada, a superioridade dos produtos orgânicos ou agroecológicos é inegável.
Alimentos orgânicos não são mais saudáveis. Aos defensores desse argumento cínico, sugere-se a leitura de um recente artigo científico publicado por pesquisadores norte-americanos no periódico Environmental Research. Uma dieta baseada em alimentos orgânicos ocasionou redução significativa dos níveis de agrotóxico detectados em amostras na urina de adultos e crianças. O trabalho ganhou grande repercussão internacional. Mas a real natureza do argumento sugere reflexão: quão limitada é nossa definição de “saúde”? Enquanto a agricultura convencional promove a dispersão intensiva de produtos comprovadamente danosos à saúde humana e ao equilíbrio dos ecossistemas, as práticas orgânicas e agroecológicas promovem o equilíbrio químico e biológico das áreas em que são implementadas. Portanto, a agroecologia trabalha com o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama de “saúde ambiental”. O prestigioso periódico The Lancet, uma das maiores autoridades acadêmicas para questões de saúde pública, mantém uma publicação exclusivamente dedicada ao conceito de planetary health, ou saúde planetária. São conceitos relacionados aos determinantes ambientais, econômicos, sociais e políticos que influenciam a saúde humana. Assim, discutir saúde, hoje, é também grande desafio conceitual que os especialistas não mais podem ignorar. Ao comprar alimentos orgânicos, o consumidor apoia um processo de transição ecológica relacionado não apenas à menor exposição ocupacional de agricultores a pesticidas sintéticos, mas também à desintoxicação gradual do solo, das águas, do ar e dos alimentos que ingerimos.
Alimentos orgânicos estiveram relacionados à contaminação de três mil pessoas na Alemanha, em 2011, das quais 53 morreram. A contaminação por E. colli é resultante da falta de higiene. Se não forem bem lavados, praticamente todos os tipos de alimento estão sujeitos a contaminação. Em certos casos, a própria água usada na irrigação de culturas pode estar contaminada por fezes de animais. E qualquer sistema produtivo, de fato, pode ser mal executado e resultar em processos bacteriológicos danosos à saúde de produtores e consumidores. Sim, um caso de contaminação de alimentos orgânicos aconteceu na Alemanha, em 2011. E milhares de casos similares já aconteceram, e ainda acontecem, no mundo todo, relacionados a surtos de E. colli em alimentos convencionais. Usar esse episódio como questionamento à qualidade dos produtos orgânicos parece ser uma argumentação deveras obtusa – no mínimo tendenciosa, imparcial e alheia a interesses científicos. “Não há evidências de que alimentos orgânicos sejam mais suscetíveis à contaminação microbiológica do que alimentos convencionais”, afirmam pesquisadores neozelandeses em estudo publicado no periódico Critical reviews in food science and nutrition. Mas há um outro tipo de contaminação que os críticos da agricultura orgânica normalmente esquecem de mencionar: a contaminação por agrotóxicos, alguns dos quais classificados pela FAO e pela OMS como altamente perigosos.
Alimentos orgânicos trazem muitas dúvidas quanto aos sistemas de rotulagem e certificação. Qualquer sistema de certificação, em qualquer setor produtivo, é vulnerável a fraudes. Determinados selos podem se transformar, inclusive, em ferramentas de uso político; interesses escusos podem estar em jogo. Isso não significa, de maneira alguma, que as entidades certificadoras de alimentos orgânicos no Brasil não realizem um trabalho extremamente sério. O Brasil, aliás, tem inovado nesse segmento. A Lei 10.831/2003 prevê, além de certificação por auditoria, mecanismos de certificação participativa. O procedimento adotado pela Rede de Agroecologia Ecovida é o exemplo mais conhecido no país: grupos de agricultores e mesmo consumidores podem realizar vistorias nas propriedades rurais com o objetivo de atestar a conformidade à legislação, de acordo com as regras previstas em lei. Trata-se de um modelo ainda emergente e, sem dúvida, existem pontos que requerem aperfeiçoamento. De todo modo, eventuais irregularidades no sistema de certificação orgânica devem ser severamente punidas. O mesmo deve valer para as gravíssimas e criminosas fraudes praticadas na cadeia produtiva do agronegócio brasileiro. Em 2017, por exemplo, operações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apreenderam agrotóxicos contrabandeados, fraudados ou irregulares em doze estados e 79 municípios. O Rio Grande do Sul liderou a lista de ocorrências, com 67 autuações, seguido por Mato Grosso do Sul, com 29, e São Paulo, com 26. Os produtos contrabandeados incluem substâncias sem autorização no país, agrotóxicos armazenados irregularmente e com data de validade vencida. Ao todo, foram 178 autuações conduzidas pelo Ibama. O valor total em multas atingiu R$ 33,3 milhões. Mas esses números são apenas a ponta do iceberg. Afinal, eles não contabilizam apreensões conduzidas por órgãos como Polícia Federal, Receita Federal e secretarias estaduais. Nas contas do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), foram apreendidas 654 toneladas de agrotóxicos entre 2001 e 2016. Fraudes também foram identificadas pela própria Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a quem cabe fiscalizar aeronaves agrícolas usadas na pulverização de agrotóxicos. Das 132 aeronaves agrícolas fiscalizadas pela Anac em 2017, 93 tinham algum tipo de irregularidade. A mais comum delas, detectada por fiscais da agência, foi a instalação irregular do dispersor – equipamento usado para pulverizar agrotóxico nas plantações. Por isso, é importante ficarmos de olhos abertos para as rotineiras e criminosas fraudes praticadas na agricultura convencional. Comércio irregular de agrotóxicos, legalização de substâncias sem estudos toxicológicos conclusivos, pulverização descontrolada de pesticidas e uso de mão de obra análoga à escravidão são apenas alguns exemplos.
Alimentos orgânicos são parte de uma grande e poderosa indústria e, assim, privilegiam grandes cadeias comerciais enquanto prejudicam pequenos agricultores. Dados do Research Institute of Organic Agriculture (FiBL), sediado na Suíça, mostram que em 2018 as áreas destinadas à agricultura orgânica no mundo todo somavam apenas 57,8 milhões de hectares. Isso corresponde a somente 1,2% das áreas cultivadas atualmente. Dizer que o mercado de orgânicos é um “gigante global”, portanto, é delírio. No Brasil, cultivos orgânicos são desenvolvidos em apenas 0,3% de nossas terras agrícolas, segundo a Embrapa. Assim, a tal “máfia dos orgânicos”, como dizem por aí os críticos desinformados, não é mais que uma formulação retórica sem qualquer sentido. Felizmente, o percentual de produtores agroecológicos ou orgânicos no Brasil vem crescendo substancialmente. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o número de produtores orgânicos cadastrados no país triplicou entre 2010 e 2018.
Alimentos orgânicos, por não serem cultivados a partir de sementes transgênicas, representam um atraso tecnológico. Plantar, colher e guardar as sementes da safra para o ano seguinte é um ciclo perpetuado há milênios por nossos antepassados. Assim, desenvolvemos uma imensa variedade de espécies vegetais adaptadas a diferentes condições ambientais. Esse processo, que remonta a séculos de evolução biológica e cultural, pode ser ameaçado pela adoção de sementes geneticamente modificadas – não mais de propriedade dos agricultores, suas famílias e suas comunidades, mas sim das empresas que as produzem e, em geral, costumam transformar pequenos agricultores e agricultoras em reféns de suas práticas comerciais. Muitas vezes, profissionais vinculados à indústria agroquímica invisibilizam ou desqualificam a valorização, disseminação e troca das sementes nativas, também conhecidas como sementes crioulas. Mas essas sementes, resultantes de milhares de anos de coevolução, são um verdadeiro patrimônio genético! Elas guardam em si a possibilidade de diversificar nossa matriz alimentar e, assim, garantir mais segurança e soberania às futuras gerações – independentemente dos humores imprevisíveis do comércio internacional de insumos agrícolas. Preservar, disseminar e cultivar sementes nativas ou crioulas é enriquecer a diversidade de nossos agroecossistemas. Portanto, é uma prática incentivada pela agroecologia, pela produção orgânica e por suas variantes. É exatamente o contrário do que se pratica na agricultura convencional, que pode cair na armadilha de se tornar cada vez mais dependente de sementes patenteadas por entidades privadas, sem contar que esse processo de homogeneização biológica caminha na direção contrária ao discurso da valorização da biodiversidade. É claro que, do ponto de vista tecnológico, devemos celebrar os avanços da ciência. As técnicas de transgenia têm-se refletido em imensos ganhos civilizatórios em vários ramos da pesquisa clínica, por exemplo. Entretanto, quando aplicadas ao campo da agricultura, a adoção de sementes transgênicas produzidas e monopolizadas por grandes corporações tem se revelado uma grave ameaça à independência e à soberania de agricultores e agricultoras. No Brasil, segundo dados da consultoria Céleres para o ano de 2017, as sementes transgênicas estavam em 93,4% da área total onde são produzidos soja, milho e algodão. Não deixa de ser irônico: tais sementes estão na terra, mas nos rótulos dos alimentos sua menção é ainda considerada tabu pela indústria agroquímica, que, por alguma razão, empreende grandes esforços no sentido de esconder essa informação do consumidor.
Alimentos orgânicos não podem garantir a segurança alimentar da população mundial. E por acaso os alimentos produzidos em sistemas convencionais garantem tal segurança? Não. Hoje, qualquer estudioso sabe que o problema alimentar do mundo não está neste ou naquele método produtivo, e sim nas variáveis políticas e econômicas entranhadas nas dinâmicas internas dos sistemas agroalimentares. Testemunhamos dois paradoxos. Enquanto já produzimos calorias suficientes para alimentar uma população global de 10 bilhões de pessoas, ainda falamos em fome e desperdício. E, ainda que a agricultura moderna tenha atingido patamares invejáveis de produtividade, os extremos simbolizados pela desnutrição e pela obesidade jamais foram tão alarmantes. Para os estudiosos da agroecologia, portanto, compreender as mazelas do sistema agroalimentar contemporâneo é uma tarefa que transcende a mera comparação entre índices de produtividade de diferentes sistemas. Repensar nosso modelo de produção agropecuária é um atraente convite para repensarmos múltiplas dimensões de nosso modelo civilizatório.
Alimentos orgânicos exigem maiores áreas de plantio para produzir as mesmas quantidades observadas na agricultura convencional, resultando, portanto, em maiores taxas de desmatamento em cenários de conversão agroecológica de grandes áreas. Trata-se de uma meia-verdade que esconde uma forma de cegueira voluntária. A agricultura convencional, hoje, é altamente produtiva. Para chegarmos a esse patamar, foram necessárias décadas de estudos, pesquisas científicas, investimentos por parte de grandes corporações, incentivos fiscais e arranjos políticos desde os primórdios da chamada Revolução Verde, na década de 1960. Pergunta: e se o mesmo entusiasmo político, econômico, corporativo e científico fosse destinado ao desenvolvimento de tecnologias para a produção agroecológica, será que esse argumento ainda faria sentido? A resposta é, provavelmente, um sonoro “não”. Ainda assim, mesmo diante de um contexto desfavorável em termos de políticas públicas e investimentos, a agricultura de base ecológica mostra incontestáveis sinais de que, sim, ela é provavelmente capaz de suprir demandas locais e globais de alimentos de modo muito mais equilibrado do ponto de vista socioambiental. Um conhecido estudo liderado pelo biólogo David Pimentel, da Cornell University, já demonstrou há mais de uma década que a produtividade de sistemas orgânicos é apenas ligeiramente menor ou, em certas condições, pode ser muito similar à observada em sistemas convencionais. Em 2017, dados publicados na Nature Communications trouxeram novas perspectivas a esse debate. Foram analisados cenários climáticos e populacionais para o ano de 2050. E o artigo conclui que a agricultura orgânica pode suprir a demanda mundial por alimentos – desde que integrada a um sistema agroalimentar eficiente e bem elaborado. Em outras palavras, isso será possível se reavaliarmos nossos padrões de consumo de carne e demais produtos de origem animal (o que, em termos éticos e climáticos, seria um grande avanço). Outra ponderação: se, por um lado, a agricultura orgânica pode demandar maiores áreas de plantio em certos casos, também é verdade que as práticas agroecológicas podem de fato recuperar áreas já degradadas pela agricultura convencional. Portanto, é deveras simplista argumentar que cultivos orgânicos demandam mais território – sem considerar a capacidade regenerativa dos sistemas agroecológicos, especialmente quando vinculados ao manejo agroflorestal. Além disso, novamente citando o estudo da Nature Plants, produtividade por hectare é apenas um entre tantos critérios se queremos entender a eficiência de um determinado sistema produtivo. E se considerarmos variáveis sistêmicas como qualidade do solo, otimização energética, manutenção da biodiversidade, promoção de serviços ecossistêmicos, redução da poluição hídrica e atmosférica ou redução de riscos ocupacionais e ambientais oriundos do uso de agrotóxicos? Nesse caso, os métodos produtivos de base orgânica ou agroecológica são evidentemente mais adequados às demandas sociais e ambientais de nosso tempo.
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Elaine de Azevedo é nutricionista e doutora em sociologia política. Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo e autora do livro Alimentos orgânicos: ampliando conceitos de saúde humana, social e ambiental, pela editora Senac.
Afonso Takao Murata é engenheiro agrônomo, mestre em entomologia agrícola pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e doutor em biologia comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Leciona no Departamento de Fitotecnia e Fitossanitarismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Henrique Kugler é jornalista de ciência formado pela Universidade Federal do Paraná, mestre em meio ambiente e desenvolvimento pela Universidade de Edimburgo (Reino Unido).