Quinta-feira, 22 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1410

As muitas vidas do cardeal

Você pode começar a ler O Cardeal da Resistência – as muitas vidas de dom Paulo Evaristo Arns pelo capítulo que quiser. Esta é uma das novidades do livro de autoria do jornalista Ricardo Carvalho que o Instituto Vladimir Herzog estará lançando no dia 23 de outubro.

São 65 capítulos e 359 ilustrações que contam, na forma de reportagens, a trajetória de um dos mais importantes brasileiros do século 20. Um homem que, de 1966, quando chegou a São Paulo para ser bispo-auxiliar da zona norte da capital e até 1998, quando se aposentou como cardeal-arcebispo, se tornou um dos mais fortes símbolos de resistência à ditadura militar e aos desmandos de um capitalismo opressor e sufocante.

Em qualquer capítulo, você vai encontrar uma ação de dom Paulo em defesa dos oprimidos e dos Direitos Humanos, contra a censura, a favor da liberdade, incentivando a organização do povo em comunidades, apoiando os movimentos sociais, denunciando a tortura, enfrentando militares – independente da patente – oferecendo a Catedral da Sé para missas e cultos ecumênicos de repúdio à ditadura militar.

Tem muita informação inédita, como as crônicas que foram escritas durante 28 anos sobre o dia a dia da arquidiocese, guardadas desde 1998 nos arquivos da Igreja Católica e só agora reveladas, com exclusividade. Tem fatos curiosos, quando, por exemplo, Fidel Castro encontrou como saída política para encerrar, em Cuba, um seminário internacional sobre dívida externa, a leitura da carta que dom Paulo havia a ele enviado pelo Frei Betto. O livro mostra a íntegra desta carta.

Testemunhos preciosos

Ao mesmo tempo, Leonardo Boff conta, em detalhes, o tenso encontro em pleno Vaticano quando, em 1984, se defrontaram dom Paulo e o então todo poderoso cardeal Ratzinger, que se tornaria anos depois o papa Bento XVI. Boff foi condenado ao silêncio, o cardeal Ratzinger escutou poucas e boas e, representando o que tem de mais conservador na Igreja Católica, continuou a perseguir a Teologia da Libertação.

Especialistas, como o respeitado teólogo José Oscar Beozzo, tentam decifrar os bastidores do Vaticano para responder a uma pergunta sempre inquietante: afinal, quem manda na Cúria Romana? Estas reflexões nascem para se tentar entender a perseguição implacável da Cúria Romana a dom Paulo que culminou, mesmo contra a vontade do papa João Paulo II, com o a divisão da arquidiocese em dioceses autônomas. Este fato provocou uma das poucas frases explicitadas por dom Paulo contra a Cúria Romana: “Fui traído”, afirmou ele na época.

Lembrando que foi dom Paulo, com sua voz firme e serena, que primeiro denunciou ao mundo: “O jornalista Vladimir Herzog foi assassinado!” (E não se suicidou, como queria o regime militar).

Você vai encontrar também depoimentos de muita gente que viveu passagens memoráveis ao lado do cardeal ou com ele conviveu, como Clarice Herzog, Ricardo Kotscho, Frei Betto, Fernando Morais, Clovis Rossi, Leonardo Boff, Juca Kfouri, José Gregori, José Carlos Dias, Dalmo Dallari, Luis Eduardo Greenhalgh, José de Souza Martins, Fabio Comparato…