Domingo, 5 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1382

A imprensa anã contra a cidadania

RIO GRANDE DO NORTE

Paulo Augusto (*)

O fato de a imprensa do Rio Grande do Norte, na expressiva maioria de seus veículos, revelar-se amordaçada, como efeito de imperiosos compromissos com que lhe constrange a máquina política, escanchada nos cofres públicos e lubrificada para abusar da boa-fé da sociedade civil potiguar, escafedendo-se por isso de divulgar e assumir-se como interlocutora da cidadania, não anula nem diminui o impacto dos escândalos políticos que envolvem a nata da oligarquia.

Este ano foi particularmente exemplar. Serviu para escancarar à população do estado o fato de que ela não dispõe de um Quarto Poder – a imprensa ? à altura do título que ostenta. E pôs em evidência que este é tão ou mais ineficiente quanto os outros três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário -, que lograram conquistar triste notoriedade ao se constatar que, como instâncias constituídas com o apoio do eleitor e do contribuinte, funcionam unicamente para aviltá-los, os anestesiar e depravar. Os membros dessa irmandade em torno do poder obedecem a uma espécie de Omertà, o código de silêncio dos mafiosos, negando a existência da organização, e mantendo em segredo nomes de seus integrantes e atividades. Nem os correspondentes dos jornais do Sudeste, que teoricamente deveriam mostrar-se autônomos e independentes diante de seus patrões, sentem-se confortáveis para abrir o bico.

No momento, um escândalo envolvendo o secretário estadual da Segurança Pública, Anísio Marinho Neto, lembra em tudo os “reality shows” americanos que as televisões brasileiras copiam sofregamente em busca de audiência, do tipo No limite (Globo) e Casa dos Artistas (SBT). O caso possui todos os ingredientes – sexo, violência, deslumbramento, tráfico de influência, sem faltar uma débil mulher seduzida e abandonada ? para excitar a massa de leitores e telespectadores. Mas carrega também restrições próprias da cultura do cunhadismo e do compadrismo, um porém que deverá mantê-lo longe da atenção das folhas diárias e dos jornais das emissoras de TV do sistema.

Debaixo do tapete

Explica-se, mas não se justifica: o homem é gente grossa, ou seja, um cavalheiro da corte, uma criatura do partido e do cordão da oligarquia no poder e não iria ao ar assim, sem mais nem menos. Curiosamente, Anísio Marinho, antes de ocupar a Secretaria de Segurança Pública, era procurador geral de Justiça, e se orgulhava de denunciar os crimes de prefeitos que se locupletam à sombra do mesmo sistema a que agora passou a servir. O caso, contudo, ganhou as ruas, graças a modestos jornais alternativos, como a Folha Potiguar, em cuja última edição se publicou, pela segunda vez, com detalhes mais picantes, o caso como o caso foi. Está sendo. E da forma como certamente deverá desembocar no programa do Ratinho, no SBT. Na condição de informação devida à opinião pública nacional acerca de um servidor público, mantido às custas do dinheiro do contribuinte.

Segundo a Folha Potiguar, a empregada doméstica Francisca Saraiva da Silva, residente em Jardim de Piranhas (RN), que patrocina uma ação de investigação de paternidade no fórum judiciário de Brejo da Cruz (PB), teria recebido a oferta de R$ 20 mil, da parte de Anísio Marinho. O secretário se nega a fazer o exame de DNA que poderá comprovar se é o pai da adolescente A.I.S.O., de 11 anos, fruto das relações que manteve com Francisca Saraiva em Caicó, na região do Seridó potiguar, antes de fazer carreira no Ministério Público. “A apreciação do processo, a cargo do advogado Josedeo Saraiva, vem sendo sistematicamente adiada no fórum judiciário de Brejo da Cruz, cujos promotores alegaram-se suspeitos ? por pelo menos três vezes consecutivas – para conduzir a denúncia”, conta o jornal, que se dispôs a encarar sozinho o acompanhamento do caso da empregada doméstica.

Este ano, a omissão da imprensa potiguar também foi eloqüente no caso da Metasa (Metais do Seridó S/A), empresa da qual o empreiteiro e senador Fernando Bezerra foi sócio de 1989 a 1998. Negócios escusos da Metasa com recursos da Sudene levaram o então ministro da Integração Nacional Fernando Bezerra a conhecer o poder e a missão de uma verdadeira imprensa ? a nacional. Encarado com seriedade, o Caso Metasa não apenas destronou FB da função de ministro, como o invalidou como produto a ser oferecido à democracia numa sociedade efetivamente cidadã. O anúncio e o acompanhamento inicial do escândalo foi obra, contudo, de um modesto semanário de província, o Jornal de Natal, que apostou na luta em defesa dos direitos do contribuinte, antes que chegasse às páginas de revistas de circulação nacional. Desacreditado como homem público em nível nacional, Fernando Bezerra prossegue investindo, na província, em sua lucrativa carreira política. Disputa agora o governo do estado, como detentor de credenciais que o qualificam como candidato honorável ao Poder Executivo dos papa- jerimuns.

O caso do prefeito de Macau, o médico José Antônio Menezes, é eloqüente e escandaloso em todos os sentidos. Mas continua debaixo do tapete. Por ser do PMDB (partido-sede da oligarquia dominante) e assegurar proventos a páginas pagas de alguns jornais, não mereceu destaque o escândalo da exploração sexual de meninas carentes pelo secretário municipal de Lazer e Eventos do município de Macau, Joacir Oliveira, hoje foragido em Mossoró, indicado para o cargo pelo prefeito (reeleito) graças aos relevantes serviços prestados como eficiente cabo eleitoral.

Carência de princípios

Estampado inicialmente durante semanas unicamente nas páginas do Jornal de Natal, só iria merecer a atenção de parte da chamada grande imprensa graças à sessão especial promovida no dia 16 de maio, em Macau, pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana e da Cidadania, para apreciar o caso. A própria sessão permitiu ao Estado um "avanço de cem anos no campo do respeito aos direitos civis da população”, no dizer do representante do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Oscar Gattica, que já viera ao estado no levantamento do caso dos "Meninos de Ouro da Secretaria de Segurança Pública". Para ele, o crime praticado em Macau ficou por demais evidente diante das provas acumuladas, a partir das fotos e depoimentos.

Não se deve esquecer o acordo tácito entre os chamados “jornalistas de grife”. Longe de vigiar o estado e dissecar seus segredos, eles agem como braço auxiliar do governo e como força tarefa da consolidação da dominação da oligarquia. O mesmo tratamento será dado ao secretário da Segurança Pública. Evitarão trazer aos olhos da opinião pública aquilo que possa macular a imagem de homens públicos cujo comportamento não corresponde exatamente ao que se espera de legítimos representantes constituídos pela população.

Diante de uma imprensa que não é nanica, porque altamente subsidiada, mas anã por opção, pelo desenho do prejuízo vertical que agregou a si e à sociedade a que serve, em sua absoluta carência de princípios, a afrontar e ultrajar os preceitos básicos da cidadania, é de se recordar o velho Lima Barreto, o engajado escritor negro que vergastava sua revolta ainda no início do século passado, quando se verificava o mesmo tipo de cenário, que nos acompanha pestilentemente nesta República de Banana. Dizia Barreto: "Cabe aos homens de coração desejar e apelar para uma convulsão violenta que destrone e dissolva de vez essa societas sceleris de políticos, comerciantes, industriais, prostitutas e jornalistas ad hoc, que nos saqueiam, nos esfaimam, emboscados atrás das leis republicanas. É preciso, pois não há outro meio de exterminá-la.”