
(Foto: Aaron Kittredge/Pexels)
Ray Ventura, cantor francês de sucesso na década de 1950, cantarolava em todos os tons, de Salvador da Bahia aos bares populares às margens do Sena: “Em meados de agosto, todos os corações estão voltados para um piquenique. É muito mais econômico”. Econômico, talvez, mas para quem?
Ottawa, Cidade do México, Berna, Bruxelas, sem esquecer Brasília e Taipé, todos – amigos tradicionais e aliados dos Estados Unidos, assim como adversários e rivais – foram convidados para um banquete “agostino” pré-eleitoral ao estilo norte-americano: impossível justificar ausência no piquenique, impossível participar sem “pagar o dízimo”, entendido aqui como uma coleta destinada a cobrir os déficits norte-americanos.
Tudo passou a ser negociável nesse leilão orquestrado pela “Casa Trump”, ou seja, apenas se podia modular o valor do pedágio pago a Washington, etapa obrigatória desse jogo de Banco Imobiliário manipulado. O mestre de cerimônias desse circo financeiro, Donald Trump, fez os números dançarem para cima e para baixo com uma virtuosidade perversa, de campo de golfe em campo de golfe, ao longo de julho. Zero por cento de tarifas sobre bens norte-americanos vendidos ao exterior, e +10% de sobretaxa em todas as exportações para os Estados Unidos. A negociação se limitou a ajustar o nível da tarifa sobre os produtos exportados para os EUA, mais ou menos elevada conforme a capacidade de cada país de moderar o blefe trumpista.
Muitos sentiram o golpe e rapidamente baixaram a guarda. O Japão e os europeus declararam-se satisfeitos com tarifas de +15% sobre seus produtos exportados, já que Trump ameaçava elevá-las para +30%. A Índia ignorou as exigências e acabou punida: seus produtos passaram a ser taxados em +25% para entrar no mercado norte-americano. Os latino-americanos foram tratados de maneira diferenciada. Os “bodes expiatórios” das administrações anteriores, democratas ou republicanas – como Nicarágua e Venezuela – foram poupados. A Nicarágua recebeu uma tarifa um pouco menor, de +18%, e a Venezuela, de +15%, igualando-se a parceiros ideológicos históricos como Costa Rica e Equador na América Latina, Coreia e Japão na Ásia, além de Alemanha, França e Itália na Europa.
Dois países latino-americanos e o Canadá, parceiros de Washington no G20, sofreram, no entanto, “tarifas cavalares”. O México, participante de um acordo comercial com Canadá e EUA, parecia protegido – mas não foi o caso. Ottawa teve de engolir um aumento de +35%. A Cidade do México também foi punida com +25% e até +50% para o aço, alumínio e cobre vendidos ao seu vizinho do norte. O mais prejudicado, porém, se encontra na América do Sul, o Brasil, condenado a um aumento de +50% nas exportações, acompanhado de ameaças. “O governo do Brasil”, segundo comunicado da presidência norte-americana de 30 de julho de 2025, “tomou decisões que ameaçam a segurança nacional, a política externa e a economia dos Estados Unidos”[1].
Essa redistribuição de riqueza em benefício de um só – os Estados Unidos – foi acompanhada de pressões e chantagens diplomáticas múltiplas, sem qualquer relação com o comércio internacional. O atual ocupante da Casa Branca exigiu, além do dinheiro, dividendos políticos. Usando a chantagem das tarifas alfandegárias, conseguiu que a ajuda militar dos EUA à Ucrânia fosse financiada pelos europeus membros da OTAN. Em julho, a Alemanha entregou a Kiev cinco baterias de mísseis norte-americanos Patriot. Os europeus aceitaram dobrar seus orçamentos militares para comprar armas fabricadas pelo “Tio Donald”. O Canadá foi advertido de que, se quisesse um imposto de importação mais baixo, deveria pensar duas vezes antes de reconhecer um Estado palestino. O México foi convidado a fechar rapidamente suas fronteiras para impedir fluxos migratórios rumo ao norte – e, assim como outros países latino-americanos, foi forçado a enviar seus criminosos para os Estados Unidos, onde seriam julgados, condenados e presos.
Brasil e Colômbia foram repreendidos e sancionados de forma particular por “desrespeito aos direitos humanos”, segundo a interpretação de Donald Trump. A Justiça de ambos os países condenou dois ex-presidentes, aliados complacentes de Trump. Álvaro Uribe foi condenado na Colômbia em 1º de agosto por financiar grupos paramilitares responsáveis por crimes e incentivar o uso de assassinatos por forças de segurança mediante pagamento de bônus. Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, comentou imediatamente que Uribe “foi vítima de uma instrumentalização do poder judicial colombiano por juízes radicais (…) sendo que seu único crime foi lutar incansavelmente para defender sua pátria”.
Jair Bolsonaro, no Brasil, foi indiciado sob suspeita de ter patrocinado uma tentativa de golpe de Estado. No dia 18 de julho, foi-lhe colocada uma tornozeleira eletrônica para evitar uma possível fuga para os Estados Unidos, onde já se encontra um de seus filhos, Eduardo Bolsonaro. Donald Trump saiu em sua defesa. Nos Estados Unidos, foram tomadas medidas judiciais contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, responsável pela instrução do processo contra Bolsonaro e que, em 2024, havia imposto um código de conduta, respeitando a ética democrática brasileira, às plataformas Trump Media & Technology Group, Rumble Inc. e X, de Elon Musk.
Seja no comércio, na economia ou na diplomacia, a unilateralidade é o padrão que os Estados Unidos trumpistas tentam impor com certo sucesso. O mundo, segundo uma doutrina compartilhada por seus seguidores e aceita por espíritos colaboracionistas, é suspeito de ter “roubado” o povo norte-americano. Pagar tarifas alfandegárias, mais ou menos elevadas, é, para Donald Trump, um gesto de reparação e o reconhecimento de uma culpa. A recusa do Brasil em aceitar esse gesto – caro, mas considerado necessário por países como Alemanha, Austrália, Espanha, França ou Japão – rendeu ao governo brasileiro um telegrama oficial com ameaças, de uso diplomático incomum. Já o governo bolivariano da Venezuela, tendo tomado decisões alinhadas com as expectativas da Casa Branca no controle dos fluxos migratórios e na libertação de cidadãos norte-americanos, não sofre qualquer exigência democrática. Pelo contrário, integra o “clube privilegiado” dos países taxados em 15%, ao lado de nações asiáticas e europeias. É verdade, no entanto, que Caracas paga caro por isso: a petroleira norte-americana Chevron continua suas atividades de extração sem pagar qualquer tipo de royalty às autoridades locais.
A maioria dos convidados de Donald Trump para esse “banquete de tolos” obedeceu. Seja por medo de uma taxação mais pesada ou por espírito de servidão, asiáticos, europeus e africanos atenderam ao chamado de Washington. Alguns se orgulham de ter evitado o pior. Outros se preparam com entusiasmo, como as empresas francesas de obras públicas, prontas para investir e criar empregos nos Estados Unidos. Ainda assim, há “boas” e “más” cabeças, segundo os observadores. Apesar das ameaças, o Canadá anunciou sua decisão de reconhecer o Estado palestino e confirmou a recusa em se integrar aos Estados Unidos. O Brasil abriu um processo contra os EUA na OMC (Organização Mundial do Comércio), defendendo seu sistema de pagamento eletrônico, o Pix, que reduziu a posição dominante dos meios de pagamento concorrentes norte-americanos. “O governo brasileiro”, declarou publicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 30 de julho, “considera injustificável a utilização de argumentos políticos para validar as medidas comerciais anunciadas pelo governo norte-americano contra as exportações brasileiras (…). O Brasil é um país soberano e democrático, que respeita os direitos humanos e a independência entre os Poderes. (…) A interferência do governo norte-americano na justiça brasileira é inaceitável”.
Essa postura de resistência foi elogiada pela agência de notícias norte-americana Bloomberg, que percebeu que as tarifas unilaterais impostas estão repletas de exceções. O ex-diretor do Banco Mundial e prêmio Nobel de Economia norte-americano, Joseph Stiglitz, elogiou a postura do presidente brasileiro: “Lula”, disse ele, “defendeu a soberania de seu país não apenas no comércio, mas também na regulação das plataformas tecnológicas controladas pelos Estados Unidos (…) para maximizar seus lucros (…). Reafirmou seu compromisso com o Estado de Direito, enquanto os Estados Unidos parecem ter renunciado à sua própria Constituição”. Para bom entendedor…
Texto publicado originalmente em francês, em 02 de agosto de 2025 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Mi-Août 2025, banquet international à la Maison Blanche : Addition salée, prix des sauces à discuter”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/128802. Tradução de Paul Fernand da Cunha Leite e Andrei Cezar da Silva.
Notas
[1] Disponível em: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/07/addressing-threats-to-the-us/
[2] Consulte Les Échos, 1º de agosto de 2025, p. 18.
[3] Texto completo da declaração do Presidente brasileiro no Jornal do Brasil, 31 de julho de 2025: https://www.jb.com.br/brasil/politica/2025/07/10563373-lula-brasil-e-soberano-e-interferencia-dos-eua-e-inaceitavel.html
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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
