Domingo, 7 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1391

O guardião da memória que se esquece

(Foto: Constanze Sophia/Pexels)

Existe uma formulação que circula com relativa naturalidade nos discursos de legitimação do jornalismo, a de que ele seria o “guardião da memória”, a imagem, porém, é sedutora em sua simplicidade, uma vez que sugere neutralidade, permanência, responsabilidade custodial, apelando a um imaginário arquivístico no qual o jornalismo compareceria como instância de preservação, registro fiel e transmissão confiável dos acontecimentos que compõem o tecido da vida pública. O problema é que essa formulação, quanto mais se a examina, mais se revela como uma operação de encobrimento epistemológico, uma vez que pressupõe precisamente o que deveria demonstrar e suprime o que há de mais constitutivo tanto na memória quanto no jornalismo, e, ao fazê-lo, cumpre uma função ideológica precisa, a de naturalizar a autoridade do campo midiático sobre o passado coletivo, obscurecendo o caráter construído, parcial e politicamente situado dessa autoridade.

Para tensionar adequadamente essa metáfora, é necessário, antes de tudo, deslocar o problema de sua formulação normativa para seu plano analítico. Essa reformulação impõe um retorno às ciências da memória, cuja contribuição teórica ao longo do século XX foi precisamente a de demonstrar que a memória, individual ou coletiva, não é um arquivo, não preserva e não recupera, ela reconstrói. Maurice Halbwachs estabeleceu as bases dessa compreensão ao demonstrar que toda memória é social antes de ser individual, o ato de lembrar é sempre mediado por quadros coletivos de referência – instituições, grupos, linguagens, práticas – que determinam o que é memorável em função das demandas e das hierarquias de sentido do presente. Lembrar, nessa perspectiva, não é recuperar um passado intacto depositado em algum espaço mental ou documental, é produzi-lo retroativamente segundo as condições que organizam a experiência presente de quem lembra. O esquecimento, longe de ser uma falha ou uma lacuna acidental, é um mecanismo constitutivo dessa produção, é o que torna possível que certos conteúdos emerjam enquanto outros permanecem submersos, não por ausência de rastros, mas por ausência das condições sociais que tornariam esses rastros ativáveis e significativos.

Paul Ricœur aprofundou essa problemática em direção a uma fenomenologia da memória que articula as relações entre lembrança, esquecimento e narratividade. O esquecimento opera em pelo menos três modalidades distintas: o esquecimento por apagamento de rastros, o esquecimento por impedimento e o esquecimento de reserva. Não existe, portanto, memória plena, mas seleção orientada, e toda seleção implica uma exclusão que não é meramente técnica, mas estruturalmente determinada pelas relações de poder, filiações identitárias e projetos políticos que organizam cada comunidade de memória. O que essa tradição de pensamento oferece ao debate sobre o jornalismo é, assim, um instrumental teórico que desmonta a ilusão de qualquer instância que se apresente como guardiã total do passado, pois a guarda é sempre parcial, e a parcialidade não é um defeito corrigível por maior rigor técnico ou deontológico, é a condição de funcionamento do próprio sistema.

Essa compreensão se articula com a distinção proposta por Pierre Nora entre memória e história, haja vista que a memória é vivida, afetiva, sempre atual, um elo com o presente eterno, enquanto a história é uma representação do passado, operação intelectual que demanda análise e discurso crítico. O jornalismo ocupa uma posição singular e instável nessa distinção, já que ele não é exatamente memória, pois opera sob o signo da distância técnica e da mediação institucional; tampouco é história, pois sua temporalidade é a do imediato, a do acontecimento ainda quente. Ele habita a fronteira entre os dois regimes, e é precisamente essa posição liminar que o torna um agente privilegiado, e perigoso, na constituição da memória pública. Perigoso não no sentido moral, mas no sentido analítico, porque ocupa esse lugar liminar sem o reconhecer, frequentemente apresentando como registro neutro aquilo que é, em sua estrutura mais profunda, uma operação de enquadramento politicamente carregada.

Transferida para o campo específico do jornalismo, a lógica da seletividade constitutiva assume contornos ainda mais precisos. A teoria do newsmaking demonstrou que a produção jornalística opera mediante um conjunto articulado de critérios de noticiabilidade, os news values, que funcionam como filtros institucionalizados de acesso ao espaço público informativo. Esses critérios não são universais nem neutros, mas historicamente situados, socialmente hierarquizados e organicamente vinculados às estruturas de poder que condicionam o campo midiático em cada formação social específica. Nelson Traquina os distingue em dois conjuntos operacionais interdependentes: os valores-notícia de seleção e os valores-notícia de construção. Em ambos os momentos, a seletividade não é residual, mas central, pois o que o jornalismo “lembra” não é uma amostragem representativa do real, mas o resultado de uma triagem produtiva que tende sistematicamente a privilegiar o espetacular em detrimento do estrutural, o evento em detrimento do processo histórico que o gerou, o conflito personalizado em detrimento das contradições sistêmicas que o fundamentam.

As implicações dessa dinâmica para a constituição da memória coletiva são substanciais, visto que o “arquivo jornalístico” da memória pública é menos um repositório e mais um campo de disputas em que certas versões do passado adquirem legitimidade, circulam e se sedimentam, enquanto outras permanecem no limiar do não-dizível. O que permanece fora de pauta, não enquadrado, invisibilizado pelos critérios produtivos do campo jornalístico, é tão determinante para a constituição da memória pública quanto aquilo que é tematizado e narrado. Esse esquecimento estrutural não é, via de regra, o produto de intenções deliberadas de supressão, embora também o seja em contextos de censura ou captura editorial, mas o resultado das rotinas produtivas normalizadas de um campo que opera segundo lógicas de seleção internalizadas e raramente submetidas à reflexão crítica sistemática.

É nesse ponto que a análise de Michel-Rolph Trouillot se torna indispensável para o argumento, porquanto demonstra que os silêncios históricos não são lacunas acidentais na narrativa do passado, mas são ativamente produzidos em momentos específicos da cadeia de construção narrativa, na criação dos fatos, na constituição dos arquivos, na elaboração das narrativas e na produção da retrospecção, quando se consolida uma versão do passado como a versão legítima. O jornalismo, enquanto prática discursiva inserida nessa cadeia, intervém de forma determinante, posto que não apenas registra acontecimentos, mas participa ativamente de sua definição como acontecimentos, e, portanto, da definição daquilo que não conta como acontecimento, que não merece registro, que não será arquivado e que, por isso mesmo, não integrará a memória pública de uma época.

Stuart Hall oferece uma análise desse mecanismo ao examinar como a mídia britânica não apenas reporta um fenômeno de pânico moral, mas participa ativamente de sua construção e de sua inscrição na memória social como ameaça real. O conceito de primary definition, que emergiu do estudo, descreve o processo pelo qual determinados agentes institucionais (policiais, juízes, porta-vozes governamentais) estabelecem o enquadramento inicial a partir do qual os eventos serão midiaticamente processados, e através do qual o jornalismo tende a reproduzir e a amplificar visões de mundo já constituídas como legítimas. A memória coletiva que resulta desse processo é, portanto, uma memória duplamente enquadrada, seja pelas relações de poder que determinam quem tem acesso à definição dos acontecimentos, seja pelas rotinas produtivas que normalizam e reproduzem essa hierarquia de acesso.

Pierre Bourdieu pontua que a lógica interna do campo jornalístico – com suas pressões pela audiência, urgência temporal, dramatização do real e busca de consenso entre pares – produz um “efeito de ocultação” que, ao privilegiar sistematicamente o acontecimento extraordinário em detrimento da normalidade estrutural que o torna possível, e a exceção em detrimento da regra que ela confirma, tende a produzir uma memória dos efeitos sem memória das causas e uma memória das superfícies sem memória das profundezas históricas que as sustentam. Essa é uma forma de esquecimento particularmente eficaz precisamente porque opera sob o signo da visibilidade, ela não silencia por ausência, mas por excesso, preenche o espaço simbólico com imagens, narrativas e interpretações que deslocam, pela saturação informativa, a possibilidade de outros enquadramentos, outras memórias, outras versões do que aconteceu e por que aconteceu. O resultado é o que o autor identifica como uma das formas mais sofisticadas de violência simbólica, aquela que se exerce não pela negação explícita, mas pela presentificação permanente de um recorte da realidade apresentado como a própria realidade.

A dimensão decolonial desse problema merece atenção específica, sobretudo em contextos como o brasileiro, em que as estruturas do campo midiático foram historicamente constituídas segundo padrões de representação que sistematicamente invisibilizaram experiências, vozes e memórias de sujeitos situados fora dos centros de poder econômico, político e cultural. A colonialidade do poder, conceito desenvolvido por Walter Mignolo, fornece o instrumental teórico para compreender que a seletividade do jornalismo não é apenas uma questão de rotinas produtivas ou de pressões de mercado, é também uma questão de epistemologia colonial, pois o que é considerado noticiável tende a reproduzir hierarquias raciais, de gênero e de classe que estruturam profundamente o que pode ser lembrado e o que deve ser esquecido. A memória jornalística de uma sociedade como a brasileira é, nesse sentido, não apenas seletiva, mas seletiva segundo padrões historicamente específicos de exclusão que remetem a processos coloniais de longa duração.

Essa não é uma peculiaridade do caso brasileiro, mas uma tendência estrutural de campos jornalísticos que operam segundo a lógica da dependência econômica frente a anunciantes e proprietários cujos interesses raramente coincidem com os dos segmentos subalternizados da sociedade. O que resulta desse processo é uma memória pública profundamente assimétrica, na qual as experiências de determinados grupos sociais adquirem espessura histórica e legibilidade narrativa, enquanto as de outros permanecem dispersas, fragmentadas e desprovidas da consistência discursiva necessária para se constituir como memória coletiva reconhecida.

A crítica à metáfora do “guardião da memória” não nega a relevância social e política do jornalismo como prática de produção de conhecimento sobre o presente, denuncia, contudo, a insuficiência teórica de quem a mobiliza sem considerar que toda custódia é, ela mesma, uma forma de seleção e de esquecimento. Reconhecer a seletividade como condição estrutural do trabalho jornalístico não é um convite ao ceticismo paralisante, mas o ponto de partida para uma prática reflexiva que, ao invés de naturalizar seus próprios enquadramentos, os submeta permanentemente à interrogação crítica sobre o que escolheu lembrar, e, sobretudo, sobre o que, ao fazê-lo, decidiu esquecer.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

HALL, Stuart et al. Policing the crisis. London: Macmillan, 1978.

MIGNOLO, Walter. Colonialidade. RBCS, v. 32, n. 94, jun. 2017, p. 1-18.

NORA, Pierre. Entre memória e história. Projeto História, São Paulo, n. 10, 1993, p. 7-28.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da UNICAMP, 2007.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo. Florianópolis: Insular, 2005.

TROUILLOT, Michel-Rolph. Silencing the past. Boston: Beacon Press, 1995.

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Ramsés Albertoni é Professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutor em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador dos Grupos de Pesquisa: Arte & Democracia e Comunicação, Arte e Literacia Midiática.