Sexta-feira, 14 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1401

A escuta como método: o que a sensibilidade de Bianka Carvalho ensina ao telejornalismo

(Foto: cottonbro studio?pexels)

Na rotina da rua, a dinâmica é quase sempre a mesma: o repórter chega com a pergunta, posiciona o microfone, grava uma resposta de 15 segundos e corre para entregar o material antes da abertura do jornal. O cronômetro da transmissão dita o ritmo e, nessa busca apressada por declarações rápidas, as entrevistas acabam virando um mero recolhimento de falas. O jornalista pergunta com pressa e raramente para ouvir efetivamente. A engrenagem do telejornalismo nem sempre dá conta da complexidade dos contextos, das histórias e das pessoas.

Foi na contramão desse “modo automático” que Bianka Carvalho nos deu, há poucos dias, uma das cenas mais bonitas e pedagógicas da televisão brasileira recente. Durante uma entrada ao vivo no NE1, na cobertura da Festa de Nossa Senhora do Carmo, no Recife, Bianka abordou a pequena Antonela, de 8 anos. O que seria uma entrada corriqueira sobre a devoção popular virou um momento de sensibilidade pura. A menina falou do luto recente pela mãe e da saudade cotidiana.

Diante de um relato forte e inesperado, Bianka aplicou a melhor técnica jornalística possível: parou e escutou. Não interrompeu para ajustar o roteiro do ao vivo, não apressou a conversa e nem buscou o choro fácil. Ela se abaixou, ficou da altura de Antonela, olhou nos olhos e acolheu aquela criança em um abraço. Naquele momento, a escuta deixou de ser apenas a espera pela fala do outro e virou um ato ativo de presença e amparo.

Rapidamente essa cena, com muito simbolismo, circulou por todo o país. E é inevitável não querer puxar uma reflexão sobre o nosso próprio ofício. Em um meio que vive obcecado pelo tempo, pela fala rápida e pelo improviso performático, a atitude de Bianka resgata pilares da profissão que a correria das redações acaba por inviabilizar.

O primeiro ponto é entender que escutar de verdade começa quando o repórter para de olhar o entrevistado como um mero fornecedor de aspas e se aproxima para ouvir o relato com atenção e sem uma postura de frieza técnica. Nessa situação, Bianka mostra que a empatia não estraga a técnica, mas qualifica o relato. E assim, ao dar espaço para a dor de uma criança sem transformar aquilo em espetáculo para ganhar audiência fácil, a reportagem ganha uma verdade que nenhum texto ensaiado entrega.

E essa escuta só existe se houver também a coragem de aceitar o silêncio. A televisão costuma preencher cada segundo com sequências de falas, sem possibilidades para alguns “vazios” cheios de significados. O grande mérito de Bianka foi entender que, naquele minuto, o tempo era da menina, não da transmissão. Saber calar, esperar e devolver uma resposta afetuosa, é o que diferencia a coleta fria de declarações do jornalismo humano.

Mesmo que seja uma experiência pouco comum no telejornalismo, não é uma novidade. Essa capacidade de ouvir o outro sem atropelar é fruto de décadas de reportagem, de vivência nas ruas e de conversa olho no olho com a população pernambucana. Assistir a Bianka Carvalho é entender que a rua não é só o cenário de fundo da transmissão ou de uma reportagem, mas o lugar onde as pessoas vivem e contam suas histórias. É essa bagagem que dá a maturidade necessária para saber a hora exata em que o microfone precisa virar um instrumento de acolhimento.

Esse episódio nos lembra que o jornalismo feito de gente para gente só funciona quando existe a disposição real de ouvir. Em uma época em que a informação é consumida de forma cada vez mais rasa e mecânica, ver uma repórter praticar a escuta com tamanha delicadeza devolve o sentido à notícia.

Uma autenticidade construída ao longo de décadas

Acolher o inesperado e transformar o improviso em narrativa faz parte da trajetória de Bianka Carvalho há mais de 25 anos. Antonela não foi uma exceção. Foi apenas o episódio mais recente de um modo de fazer jornalismo que o público pernambucano conhece há décadas.

Foi assim, por exemplo, na histórica entrevista com Ruth Lemos, que acabou se tornando um dos primeiros grandes memes da internet brasileira. Apesar dos contornos de humor que a entrevista ganhou, com a repercussão, tira-se uma outra lição do profissionalismo. Enquanto a entrevistada enfrentava dificuldades provocadas pelo retorno do áudio, Bianka não reforçou o constrangimento nem transformou a situação em motivo de espetáculo. Ao contrário, tentou ajudá-la a desenvolver o raciocínio, reformulou perguntas e conduziu a conversa com respeito. Buscou preservar a dignidade de sua fonte, mesmo diante das imprevisibilidades de uma transmissão ao vivo.

Em 2022, durante a cobertura das enchentes que atingiram Pernambuco, Bianka chamou atenção pela maneira como se aproximava das famílias atingidas. Em um cenário de perdas materiais, sofrimento e desalento, suas entrevistas não buscavam explorar a dor como elemento dramático. O interesse permanecia voltado para as pessoas.

Essa autenticidade também aparece em situações muito diferentes da cobertura de grandes acontecimentos. Em janeiro deste ano, durante uma entrada ao vivo em frente ao Cinema São Luiz sobre a indicação do filme O Agente Secreto ao Oscar, deixou transparecer, sem qualquer artificialidade, o orgulho de falar de Pernambuco para todo o país. Dias depois, durante outra participação ao vivo, desta vez no Hora 1, enquanto explicava como as locações do filme estavam atraindo turistas para Recife, foi surpreendida pela chegada de um cachorro que pulou em busca de carinho. “Oi, meu amor. Coisa linda”, respondeu enquanto afagava o animal, antes de retomar naturalmente a informação.

Mais recentemente, no Globo Repórter, Bianka voltou a emocionar o público ao apresentar a história do médico Luiz Henrique. Antes mesmo da exibição da reportagem, apareceu diante das câmeras confessando estar emocionada depois de conhecer a trajetória de quem saiu da periferia de Jaboatão dos Guararapes para construir uma carreira na medicina na Paraíba.

Esses episódios revelam um aspecto importante do telejornalismo que raramente recebe atenção. Em um momento em que emissoras investem cada vez mais na padronização de linguagem, de comportamento diante das câmeras e até mesmo de sotaques, Bianka Carvalho percorre um caminho diferente, mantendo sua identidade.

Aproximar o público da notícia não exige transformar o telejornalismo em espetáculo, nem disputar atenção por meio de performances caricatas, bordões ou exageros diante da câmera. Essa espontaneidade, como a mesma já disse em entrevistas, nasce da experiência, da escuta e do domínio da técnica.

Talvez essa seja uma das maiores lições de sua trajetória profissional. Não por acaso, em Pernambuco, costuma-se dizer com todo o orgulho que Bianka Carvalho é um patrimônio do estado. Que os amigos pernambucanos nos deem licença, mas Bianka é, na verdade, um patrimônio indiscutível do telejornalismo brasileiro.

***

Vitor Belém é Jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador Pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia. Foi repórter e produtor de TV e atua como pesquisador na área de jornalismo audiovisual. Lidera o grupo de pesquisa Jornau e integrante do GJol.

Lívia Cirne é jornalista, pesquisadora, doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco. Líder do Grupo de Pesquisa em Convergência e Narrativas Audiovisuais. Professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atualmente está cedida para o Ministério da Cultura, atuando no Escritório Estadual do Rio Grande do Norte.