
(Foto: Beyzanur K./Pexels)
O debate sobre as liberdades de imprensa e de expressão, infelizmente, não costuma movimentar grande audiência, engajamento, interação, cliques ou compartilhamentos. Aliás, conteúdos jornalísticos, alguns deles produzidos com custo elevado e comprometidos com aquilo que chamamos de jornalismo profissional, baseado em método e técnicas muito específicas, capazes de oferecer fatos e histórias o mais perto possível da realidade concreta dos acontecimentos, costumam gerar menos envolvimento do público do que materiais fraudulentos produzidos justamente para imitar a realidade e enganar as pessoas.
Publicações carregadas de ódio, impulsionadas pelo famigerado viés de confirmação, também quase sempre agitam as redes sociais, hoje a principal praça pública do planeta, muito mais do que textos, vídeos, áudios e imagens produzidos com esmero por jornalistas e veículos que, às vezes, passam meses em árduos processos de pesquisa, entrevistas, checagem e rechecagem de informações.
Ocorre que essa audiência toda é justamente aquilo de que nós, jornalistas e veículos de informação noticiosa, precisamos em um ambiente digital marcado, ao mesmo tempo, por hiperinformação, desinformação, golpes e tentativas permanentes de manipulação da opinião pública.
Há uma disputa diária, minuto a minuto, pela atenção e pela confiança das pessoas. E o que oferecemos em troca dessa audiência fiel é algo socialmente muito mais relevante do que todo esse lixo, expressão que me parece bem adequada para o conteúdo tóxico que circula nas redes.
O que nós ofertamos é informação confiável, análises criteriosas, histórias reais e conteúdos produzidos a partir do dever de escrutinar tudo aquilo que é realizado com dinheiro público e por detentores de poder. Isso resulta em conhecimento para que as pessoas possam construir, de forma livre, suas próprias leituras, interpretações e percepções da realidade, além de desenvolver pensamento crítico e fazer escolhas mais conscientes.
Nós, jornalistas e veículos, não estamos livres do erro, claro. No entanto, quando isso acontece, nossa reação costuma ser de indignação com a falha, constrangimento, cobranças internas — as redações são altamente competitivas nesse sentido — e responsabilidade pública. A obrigação do jornalismo profissional é corrigir o erro, reparar danos e restabelecer a verdade com ainda mais visibilidade do que aquela dada ao conteúdo original.
Nessa disputa desigual por atenção, confiança e sustentabilidade econômica, os algoritmos das grandes plataformas digitais têm forte protagonismo.
Desde a criação do Orkut, em 2004, as redes sociais passaram a alterar profundamente o modo de produção, distribuição e consumo de conteúdo. De lá para cá, essas “sequências lógicas de regras predefinidas” e, mais recentemente, os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs), base da Inteligência Artificial (IA) generativa, passaram a ser ajustados pelas poucas empresas que dominam o mercado digital para ampliar receitas, retenção de usuários e coleta de dados.
Hoje, os principais sistemas de recomendação usados por plataformas como TikTok, Instagram, Facebook e YouTube priorizam métricas de engajamento, retenção e tempo de permanência. Isso mantém as pessoas conectadas por mais tempo, amplia a exposição publicitária e fortalece um modelo econômico baseado em atenção contínua. Também gera dados detalhados sobre comportamento, commodity cada vez mais valiosa.
As grandes empresas de tecnologia alegam que, desde o escândalo da Cambridge Analytica, revelado pelos jornais The New York Times e The Guardian em 2018, passaram a adotar medidas para reduzir a circulação de conteúdos nocivos, teorias conspiratórias, desinformação e comportamentos violentos.
Ocorre que materiais carregados de indignação e raiva, por exemplo, continuam impulsionando curtidas, compartilhamentos e comentários em escala muito superior aos conteúdos produzidos a partir de critérios técnicos, verificação e responsabilidade editorial.
Ao mesmo tempo, em vários países, essas empresas passaram a enfrentar regulações voltadas à proteção de usuários, especialmente crianças e adolescentes, à redução do vício em telas, ao aumento da transparência no uso de dados e à criação de mecanismos de remuneração para conteúdos jornalísticos, científicos e autorais utilizados por sistemas de busca e Inteligência Artificial. E há sólidos sinais de que essas medidas têm dado bom resultado, melhorando a integridade da informação nessas regiões.
Essas iniciativas fazem muito sentido. Afinal, se o jornalismo profissional perde capacidade financeira de produzir informação confiável, todo o ambiente digital também se deteriora. Plataformas, buscadores e sistemas de IA dependem diretamente da existência de conteúdo produzido com investigação, responsabilidade e compromisso factual. Isso não é uma ilusão.
Sem jornalismo profissional, produção científica, pesquisa acadêmica e criação artística autoral, as próprias plataformas digitais e os sistemas de IA tendem a empobrecer. Motores de busca, algoritmos de recomendação e modelos generativos dependem diretamente de conteúdos produzidos por seres humanos, com investigação cuidadosa, ética, criatividade e compromisso factual.
Sem isso, o ambiente digital passa a ser alimentado por materiais manipulados, repetitivos, falsos ou produzidos artificialmente a partir de distorções anteriores. É uma espécie de contaminação progressiva do ecossistema informacional.
Isso não pode terminar bem: na ausência do jornalismo, autocratas de plantão tomam conta, isso é certo. E aí as empresas de tecnologia vão depender das relações construídas a partir dos interesses de um “regime”, que certamente não são os mesmos da população.
Foi justamente nesse contexto de transformação radical do ambiente informacional, crescimento global da lógica autocrática, aumento da pressão sobre o jornalismo e incertezas sobre a saúde das democracias, que a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) me convidou para participar da edição do Café com ANER da última terça-feira (12), dedicada ao debate sobre liberdades de imprensa e de expressão, Justiça e impactos sociais, econômicos e políticos da era digital.
Ao longo da conversa, procurei mostrar como o livre exercício do jornalismo profissional, independente e plural é condição essencial para desenvolvimento sustentável, fortalecimento democrático, proteção de direitos civis e combate ao avanço do autoritarismo.
Em determinado momento da apresentação, fui tomado por muito desconforto, mesmo acostumado a lidar com essas informações. Na medida em que listava pesquisas nacionais e internacionais, decisões judiciais (positivas e negativas, além de temas em julgamento), indicadores sobre violência contra jornalistas, censura, assédio digital e deterioração democrática, senti um nó na garganta.
Trabalho há anos acompanhando esses dados para assessorar a ANJ, entidade cuja missão inclui defender a liberdade de expressão, o funcionamento sem restrições da imprensa, os direitos humanos, a democracia representativa e a livre iniciativa. Ainda assim, impressiona perceber como práticas autoritárias passaram a se espalhar com naturalidade, inclusive em democracias historicamente sólidas.
Não há dúvida: vivemos um período de crescimento da intolerância política, enfraquecimento institucional e aumento da hostilidade contra imprensa independente, circulação de informação e produção de conhecimento. Dentro do ambiente digital, marcado pela lógica econômica das gigantes de tecnologia, a polarização parece embaralhar ainda mais esse cenário.
Essa polarização não é um embate saudável entre ideias, projetos e visões de mundo. Passa pelo entendimento de que o adversário é um inimigo a ser desmoralizado, eliminado do debate público ou reduzido a uma caricatura moral.
Gosto de interpretar parte da obra do filósofo Jürgen Habermas como uma defesa da democracia baseada no diálogo racional, na circulação livre de argumentos e na construção coletiva de consensos legítimos a partir de divergências. Pactos que exigem maturidade política, pois passam pela necessária concessão e renúncia.
É nesse ambiente que sociedades conseguem avançar com mais estabilidade institucional e mais chances de justiça social.
Talvez seja ingênuo. Pode ser. Ainda assim, continuo acreditando que, quando desaparece a possibilidade de diálogo construtivo, respeitoso e responsável, perdemos a capacidade de avanço social, econômico e político.
E a principal ponte para esse diálogo continua sendo o jornalismo profissional, necessariamente livre, independente, plural e responsável.
À ANER, também procurei demonstrar como ataques à imprensa produzem efeitos além dos profissionais diretamente atingidos. Censura, violência, intimidação judicial, campanhas digitais de desinformação, perseguição política e fragilidade econômica dos veículos afetam diretamente transparência pública, fiscalização social, circulação de conhecimento, inovação, combate à corrupção e proteção de direitos fundamentais.
O jornalismo profissional funciona como uma infraestrutura democrática. Isso não é uma frase de efeito. Sem informação confiável, não existe participação social qualificada, controle público nem desenvolvimento sustentável.
Se a atividade jornalística é tão fundamental, por que, como revela a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), a liberdade de imprensa mundial vive seu pior momento em 25 anos? Porque governos autoritários, mesmo em democracias, não querem que a verdade chegue às pessoas.
Nas Américas, segundo a Sociedade Interamericana de Imprensa, há “deterioração sustentada e uma preocupante normalização da hostilidade contra a imprensa”. A organização aponta práticas antidemocráticas em regimes autoritários, como Nicarágua, Cuba e Venezuela, e também em países governados por lideranças eleitas democraticamente, mas que adotaram posição permanente de confronto com a imprensa, como Estados Unidos, Argentina, El Salvador, Bolívia, Costa Rica, Colômbia, Guiana, Honduras e Paraguai.
Em outros continentes, o cenário se repete. Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), países como China, Mianmar, Rússia, Belarus e Azerbaijão seguem entre os que mais prendem jornalistas no mundo. Líderes autoritários também se refestelam em países como Hungria, Sérvia, Itália e Índia.
No mais recente ranking da RSF, o Brasil subiu algumas posições, e isso é muito relevante, mas a situação segue alarmante. Há vários pontos de preocupação, e o que parece pior são as ações organizadas — campanhas de estigmatização — para desacreditar, desmoralizar e intimidar jornalistas nas redes sociais e até mesmo de forma presencial. É a tal naturalização sobre a qual alerta a SIP.
Para ficar no factual dessa semana, foi exatamente o que ocorreu nesta quarta-feira (13), quando o senador Flávio Bolsonaro atacou o jornalista Thalys Alcântara, do Intercept Brasil, após ser questionado sobre o furo de reportagem do veículo, que mostrou gravações do pré-candidato à Presidência pedindo, em tom de intimidade, milhões de reais a Daniel Vorcaro, pivô do maior escândalo financeiro do Brasil contemporâneo, para financiar um filme sobre o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em vez de responder objetivamente às informações reveladas pelo veículo, o senador chamou o jornalista de “mentiroso” e “militante”, em tentativa evidente de constrangimento público.
Posteriormente, as informações foram confirmadas e aprofundadas por outros veículos jornalísticos, muitos deles associados da ANJ, dentro de uma dinâmica saudável de concorrência e fiscalização cruzada, típica da imprensa profissional.
Tenho quase 40 anos de carreira e já presenciei muitas tentativas de intimidação contra jornalistas, vindas de diferentes campos ideológicos. No passado, isso ocorria por telefone, cartas ou pressões políticas mais discretas. E as mulheres já eram as mais atacadas naquela época.
Tive muita sorte. Trabalhei com alguns dos jornalistas mais respeitados dos anos 1990 e 2000, em redações como as de O Estado de S. Paulo, Agência Estado e Gazeta Mercantil. E meus chefes jamais se curvaram a esse tipo de assédio.
Mas afinal: o que a sustentabilidade financeira do jornalismo tem a ver com esse ambiente tão hostil à imprensa?
Acontece que modelos econômicos frágeis, sufocados pela lógica de receita das big techs, a falta de remuneração pelo uso de conteúdo jornalístico e um sistema assimétrico, que não cobra das empresas de tecnologia as mesmas responsabilidades exigidas aos editores, agravam a vulnerabilidade de veículos independentes diante de pressões políticas e campanhas organizadas de manipulação informacional.
Se conteúdos desinformativos, fraudulentos, agressivos e manipuladores recebem hoje mais atenção do que o jornalismo profissional, isso não significa que sejam mais importantes para a sociedade. No entanto, a maior parte da população só tem essa percepção quando as reportagens, serviços e análises dos veículos fazem real diferença em suas vidas cotidianas.
Por isso, grandes matérias, investigações profundas, furos “cavados” pela insistência diária de jornalistas — gastando sapatos, como nos “velhos tempos” —, a narrativa acessível, em vários formatos, canais e plataformas, e coberturas hiperlocais, locais e regionais são iniciativas que precisam receber investimento constante.
O desafio democrático do nosso tempo é garantir as liberdades, o aperfeiçoamento permanente da democracia e a sustentabilidade do jornalismo. Isso certamente vai resultar em mais bem-estar e desenvolvimento social e econômico.
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Hélio Gama Neto é jornalista com quase 40 anos de atuação em imprensa, comunicação institucional e consultoria. Passou por redações como Agência Estado, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil, atuou como consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT), coordenador de comunicação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) do Rio Grande do Sul e coordenador de comunicação e educação ambiental do Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre (DMAE). Liderou projetos editoriais como o jornal OI — em versões impressa, digital e televisiva — e a revista ANÁLI$E, com coberturas voltadas a desenvolvimento sustentável e responsabilidade social da Grande Porto Alegre e do RS. Desde 2015, responde pela comunicação da Associação Nacional de Jornais (ANJ).
