Segunda-feira, 15 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1392

A tomada de decisão no jornalismo político

(Foto: Jonathan Borba/Pexels)

Tomar decisões é uma das atividades mais centrais do jornalismo, embora o tema raramente seja tratado como objeto de estudo na formação dos profissionais. Sem uma disciplina específica sobre o assunto nas universidades, jornalistas aprendem a decidir na prática, no ritmo das redações. E isso não é um detalhe: em todas as funções do jornalismo, decidir faz parte do trabalho.

Com o avanço da tecnologia, o tempo disponível para essas decisões tornou-se cada vez mais curto. Se antes, na Era dos Jornais, havia ao menos 24 horas para que repórteres e editores definissem o que publicar, como publicar e quando publicar, hoje, na Era Digital, essas escolhas precisam ser feitas em minutos. Ou até em segundos.

Por isso, estudar tomada de decisão torna-se cada vez mais relevante. No campo do Direito, por exemplo, trata-se de um tema bastante debatido, já que magistrados precisam decidir constantemente. Em regra, contam com mais tempo e estrutura para reflexão do que os profissionais do jornalismo. No exercício da atividade jornalística, as decisões também são contínuas e carregam impacto direto sobre a sociedade, muitas vezes sob pressão e em condições de tempo mais restritas.

No jornalismo político, quando decidimos dar espaço a um parlamentar e não a outro, estamos, na prática, ampliando a visibilidade de um em detrimento do outro. Tornamos suas ações mais conhecidas e influenciamos sua presença pública. O mesmo ocorre quando optamos por publicar o release de um agente político e não de outro, ou quando definimos o enquadramento de uma reportagem. Cada escolha produz efeitos.

Grande parte dos atores políticos ainda é pouco conhecida pela sociedade, especialmente aqueles que ocupam cadeiras no Legislativo. Em geral, sobretudo nos cargos legislativos, muitos desses nomes são conhecidos apenas em círculos restritos, como comunidades, bairros ou municípios. Quando um agente político passa a ser notícia, o público e o eleitorado ampliam seu conhecimento sobre ele e, consequentemente, seu capital político e seu potencial eleitoral.

Quando a imprensa decide divulgar um escândalo envolvendo um político – a depender, evidentemente, da gravidade e da natureza do caso –, também interfere na disputa por poder ao afetar a imagem pública desse ator e, em tese, reduzir seu potencial eleitoral. E, quando um agente perde espaço ou força, outro tende, inevitavelmente, a ampliar suas possibilidades de crescimento e fortalecimento político.

Evidentemente, esse poder de interferência da mídia no jogo político está longe de ser algo novo. Há cerca de 200 anos, Balzac já escrevia que, para impedir a nomeação de um concorrente a determinado cargo, bastava fazer sua candidatura badalar nos jornais por meio de elogios. Diante da repercussão pública, o responsável pela escolha acabaria desistindo da nomeação do adversário.

Na história política brasileira, não faltam casos de escândalos que enfraqueceram determinados atores e acabaram beneficiando adversários. No fim de 2001, o PFL lançou a candidatura da então governadora do Maranhão, Roseana Sarney, à Presidência da República. Filha do ex-presidente José Sarney, ela deslanchou nas pesquisas, sobretudo após uma propaganda inspirada em uma campanha bastante popular da Brahma. Rapidamente, alcançou 23% das intenções de voto e chegou a ultrapassar José Serra.

Uma operação da Polícia Federal, porém, realizada em um escritório de seu marido, Jorge Murad, em São Luís, acabou abalando a candidatura da governadora do Maranhão. Na ação, foram apreendidos R$ 1,3 milhão que, segundo as investigações, abasteceriam o caixa dois da campanha presidencial.

A notícia teve ampla repercussão na imprensa, afinal, Roseana já aparecia empatada na liderança com o petista Luiz Inácio Lula da Silva.  O episódio provocou uma queda brusca no desempenho da postulante do PFL nas pesquisas. Posteriormente, atribuiu-se a Serra, então ministro da Saúde do governo Fernando Henrique Cardoso, a responsabilidade política pela operação que abalou sua candidatura.

No livro Notícias do Planalto, o jornalista Mário Sérgio Conti, diretor da revista Veja entre 1991 e 1997, relata decisões tomadas durante o escândalo que atingiu o então presidente Fernando Collor. Em uma delas, ele optou por não publicar uma carta do irmão de Collor, Pedro Collor, nem outra do empresário Paulo César Farias, nas quais tentavam desmentir uma reportagem de Eduardo Oinegue publicada pela revista. O texto tratava de declarações segundo as quais negócios de PC Farias poderiam derrubar Collor da Presidência. O argumento de Conti era de que a reportagem estava bem apurada, era verdadeira e suficientemente embasada.

Ao longo da carreira, também vivi dilemas que exigiram escolhas difíceis. Uma delas aconteceu em 2019, quando uma secretária me relatou que faria um plano de políticas públicas voltado para a comunidade LGBT por meio de decreto, e não de projeto de lei. Dessa forma, evitaria que a proposta tramitasse no Legislativo e fosse barrada por parlamentares evangélicos.

Não sei se, ao me relatar aquilo, ela tinha plena dimensão das implicações da informação. Eu, porém, sabia que sua divulgação poderia comprometer o avanço da proposta. Ao mesmo tempo, me questionava se cabia a mim ocultar que lideranças políticas recorrem a determinadas estratégias para viabilizar medidas, mesmo quando voltadas à ampliação de direitos de minorias. Ora, que tipo de sociedade é essa em que projetos de garantia de direitos precisam avançar de forma silenciosa para escapar da resistência política?

Até hoje não tenho plena convicção se agi corretamente naquela escolha. Decidi publicar a informação, e a secretária me enviou mensagens demonstrando incômodo e preocupação com a repercussão negativa.

Em momentos de ameaça à democracia, há quem defenda que notícias capazes de desgastar atores comprometidos com o jogo democrático deveriam ser omitidas, para evitar o fortalecimento de grupos autoritários ou golpistas. Trata-se, evidentemente, de uma visão cercada de controvérsias.

Na obra 1461 dias na trincheira, o então editor de política da Folha de S. Paulo, Eduardo Scolese, rememora a pressão sofrida pelo jornal para que, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, abandonasse a imparcialidade e assumisse uma postura mais militante. Segundo ele, alguns defendiam que os profissionais tivessem “sinal verde para atacar sem critérios o novo presidente sem nenhuma preocupação ou compromisso com o equilíbrio e contrapontos”. “As sugestões foram descartadas”, afirma.

Scolese também registra a preocupação que já surgia durante a cobertura da eleição presidencial de 2018, vencida por Bolsonaro. Segundo ele, a orientação do jornal era dar espaço ao então candidato, já que ele representava uma parcela relevante do pensamento da sociedade brasileira, mas, ao mesmo tempo, expor suas contradições.

Na Era Digital, em que o tempo é ainda mais exíguo, surgem novos fatores que tornam o estudo da tomada de decisão ainda mais relevante. Hoje, o Google e as plataformas de redes sociais passaram a definir, em grande medida, quem terá acesso ao conteúdo jornalístico.

Na Era dos Jornais, as próprias empresas definiam onde os impressos circulariam: ruas, bairros ou cidades. Agora, na Era Digital, a distribuição depende das plataformas digitais. E, muitas vezes, o alcance da reportagem varia de acordo com o título escolhido. Surge então um novo dilema: optar por um título com maior potencial de audiência ou por um título mais fiel e preciso aos fatos, ainda que com menor alcance.

O título, aliás, costuma ser apontado como o elemento mais relevante de uma reportagem. Não por acaso, diz-se frequentemente que ele deve ser definido pelo profissional mais experiente da redação. Diante da redução do tempo disponível para leitura e compreensão das notícias, muitos leitores acabam consumindo apenas os títulos. Nesse contexto, a escolha das palavras ganha peso ainda maior: um título pode induzir interpretações equivocadas, moldar percepções e favorecer, direta ou indiretamente, determinado ator político ou posicionamento ideológico.

A tomada de decisão, como podemos ver, atravessa todas as etapas do fazer jornalístico. Começa na definição da pauta: o que será notícia? Passa pela abordagem: como essa história será contada? Qual será o tom da matéria? Mais crítico ou mais favorável a determinado personagem? E o título, como será construído?

Diferentemente da visão de alguns teóricos do jornalismo, compreendemos o jornalismo como um ator político que impacta intensamente o debate público, ainda que, com o surgimento das plataformas digitais, tenha perdido parte dessa capacidade de influência. Hoje, os veículos de imprensa já não são os únicos capazes de pautar discussões na sociedade.

O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff é um caso interessante para compreender o poder de influência da mídia. Como ressalta o cientista político Fernando Limongi, autor do livro Operação impeachment: Dilma Rousseff e o Brasil da Lava Jato, a imprensa teve papel “imenso” no processo de impedimento da petista ao criar um “clima ou opinião generalizada de que era justificável e necessário fazer o impeachment”.

As escolhas feitas no jornalismo político impactam, em maior ou menor medida, a sociedade e a própria democracia. A experiência profissional pode contribuir para reduzir erros, mas está longe de eliminá-los. Isso porque, à medida que a trajetória profissional avança, também cresce a tendência de ocupar posições que exigem decisões mais desafiadoras e a enfrentar desafios distintos daqueles já vividos anteriormente.

O conhecimento acumulado e o estudo de situações anteriores ampliam as chances de escolhas mais qualificadas. Arrisco dizer, inclusive, que a análise de casos do jornalismo está entre as formas mais eficazes de aperfeiçoar a tomada de decisão na profissão. Nesse contexto, os relatos compartilhados por Conti e Scolese ajudam a lançar luz sobre os dilemas e as complexidades que cercam as decisões jornalísticas.

Referências

BALZAC, Honoré de. Os jornalistas. Tradução: João Domenech. – [Ed. especial] – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. 

CONTI, Mario Sergio. Notícias do Planalto: A imprensa e o poder nos anos Collor. 2ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

MORAIS, Fernando. Lula: Biografia: volume 2. 1º ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.

SCOLESE, Eduardo. 1461 dias na trincheira: o dia a dia sob Bolsonaro no relato do editor de Política da Folha de S. Paulo. 1º ed. – Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2025.

SILVA, Rodrigo Daniel. Entrevista com Fernando Limongi. Repórteres do Poder, 19 fev. 2024. Podcast. Disponível em: <https://open.spotify.com/episode/0biVQjHzfOvND2JisoWEYE?si=nHZthWwXSz-WnVcZYxSLmg >. Acesso em: 11 maio 2026.

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Rodrigo Daniel Silva é jornalista e mestre em Comunicação Política pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). É editor de política do jornal Correio.