Quinta-feira, 2 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1395

Os silêncios da história no programa Globo Rural

(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A televisão brasileira, enquanto dispositivo de produção e circulação de sentidos sobre o país, nunca foi neutra diante das disputas que atravessam a memória nacional. O Globo Rural, programa dominical da Rede Globo exibido ininterruptamente desde 1980, constitui um dos vetores mais duradouros e de maior alcance na construção do imaginário sobre o campo brasileiro. Com uma audiência historicamente fidelizada e um formato que combina reportagem, prestação de serviço agrícola e valorização de identidades culturais rurais, o programa ocupa uma posição singular no ecossistema midiático nacional. É precisamente essa centralidade que justifica, e exige, uma leitura crítica de suas escolhas editoriais, especialmente no que concerne à representação das comunidades que formaram e continuam a formar o Brasil rural. A hipótese que orienta este artigo é a de que o Globo Rural, ao privilegiar sistematicamente narrativas associadas à imigração europeia e asiática, opera uma seletividade mnemônica que, sem necessariamente traduzir uma intencionalidade ideológica explícita, reproduz estruturas mais amplas de apagamento da centralidade da escravidão e do protagonismo afro-brasileiro na formação do país.

Antes de qualquer análise do produto midiático, é indispensável situar o debate historiográfico que lhe serve de contexto. A historiografia brasileira foi, por décadas, capturada pelo paradigma da democracia racial, formulação que encontrou em Gilberto Freyre seu mais influente sistematizador. Freyre propôs uma interpretação da colonização portuguesa no Brasil marcada pela plasticidade cultural e pela convivência relativamente harmoniosa entre diferentes grupos étnicos. Embora inovadora em alguns aspectos ao reconhecer contribuições africanas e indígenas para a cultura brasileira, essa perspectiva produziu consequências analíticas profundamente problemáticas, haja vista que minimizou a violência estrutural da escravidão, naturalizou hierarquias raciais sob o eufemismo da miscigenação e ofereceu ao Estado brasileiro um instrumento ideológico para recusar o reconhecimento do racismo como fenômeno sistêmico.

A ruptura com esse paradigma, empreendida de forma mais consistente a partir dos trabalhos de Florestan Fernandes, e aprofundada por pesquisadores como Lélia Gonzalez, Nego Bispo, Lilia Moritz Schwarcz, Clóvis Moura e, mais recentemente, pelos estudos do racismo estrutural sistematizados por Silvio de Almeida, demonstrou que a abolição formal da escravidão, consumada pela Lei Áurea de 1888, não produziu qualquer mecanismo efetivo de inclusão social da população negra. Ao contrário, o pós-abolição foi marcado pela exclusão deliberada dos ex-escravizados do mercado de trabalho formal, pela ausência de políticas de reparação ou redistribuição fundiária e pela substituição da mão de obra negra por trabalhadores imigrantes, processo este ativamente incentivado pelo Estado brasileiro sob orientações ideológicas explicitamente racistas de “branqueamento” da população.

É neste ponto que a questão da imigração, reportada pelo Globo Rural, adquire uma dimensão política que o jornalismo raramente mobiliza, uma vez que a imigração de europeus, asiáticos e outros grupos entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX não foi um fenômeno espontâneo nem desvinculado do projeto de reconfiguração racial que as elites brasileiras da época explicitamente perseguiam. Estudos como os de Schwarcz documentam com precisão como intelectuais, médicos e juristas brasileiros do período operavam dentro de matrizes eugenistas e poligenistas que prescreviam a imigração europeia como solução para o que chamavam de “problema racial” do Brasil. A política imigratória do Estado brasileiro foi, portanto, indissociável da exclusão sistemática da população negra, pois ao mesmo tempo em que imigrantes europeus recebiam incentivos, terras e acesso ao crédito, ex-escravizados eram empurrados para a marginalidade econômica e social. Ignorar este vínculo estrutural ao narrar as histórias de comunidades imigrantes não é apenas uma omissão acadêmica, é uma operação com consequências políticas concretas sobre como a sociedade compreende as origens das desigualdades que a caracterizam.

O Globo Rural, evidentemente, não é um programa de divulgação científica nem um veículo de revisão historiográfica. Seus formatos – a reportagem de vida rural, o perfil de comunidade, o registro de festas e técnicas agrícolas tradicionais – pressupõem uma gramática narrativa orientada pelo humanismo do cotidiano, pela valorização da identidade cultural e pelo apelo afetivo à tradição. Essa opção de formato não é em si mesma ilegítima, ela responde a demandas reais de um público que encontra no programa o reconhecimento de sua existência e de suas práticas. O problema emerge quando se observa a distribuição diferencial dessas escolhas, visto que comunidades descendentes de imigrantes italianos no Sul e Sudeste, alemães no Sul, japoneses em São Paulo e no Paraná recebem cobertura sistemática, com tratamento que sublinha a preservação cultural, a capacidade de adaptação e o desenvolvimento agrícola. Enquanto isso, comunidades quilombolas – que são, elas mesmas, expressões de resistência e organização coletiva diante da violência da escravidão – recebem, historicamente, atenção consideravelmente menor e, quando aparecem, tendem a ser enquadradas sob registros que priorizam o exótico ou o folclórico em detrimento do político e do histórico.

Essa assimetria não pode ser lida como acidente ou como reflexo de uma simples preferência estética, pois se inscreve em uma lógica mais ampla que os estudos de comunicação têm nomeado como “agendamento diferencial” ou “silenciamento midiático estrutural”. Stuart Hall, em sua análise da produção noticiosa como prática ideológica, demonstrou que os meios de comunicação não apenas reportam a realidade, mas constroem representações que estabilizam certas versões do social como naturais e legítimas, enquanto outras permanecem no limiar da invisibilidade. No caso brasileiro, a tendência midiática de celebrar a imigração europeia e asiática como narrativa fundante do desenvolvimento rural, especialmente do Sul e Sudeste, enquanto relega a contribuição africana e afro-brasileira a um plano secundário, articula-se com o que Achille Mbembe descreve como as formas contemporâneas pelas quais o racismo se perpetua menos por meio de enunciados explícitos do que pela administração de visibilidades e ausências, pois o silêncio também é uma forma de discurso.

A aprovação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todos os estabelecimentos de ensino, representou um avanço normativo significativo no combate a esse tipo de apagamento no ambiente escolar. A lei expressa um reconhecimento institucional de que a sub-representação e a distorção da história africana e afro-brasileira produzem danos concretos à autoimagem e às possibilidades de identificação das populações negras, além de perpetuar estereótipos entre os demais grupos. A esfera midiática, no entanto, não está sujeita a regulação equivalente, e o debate sobre responsabilidade social dos meios de comunicação na representação equânime da diversidade histórica e cultural do Brasil permanece, no âmbito da mídia comercial de grande escala, predominantemente sem consequências práticas.

Importa, contudo, não reduzir a análise a uma acusação simplificada de má-fé editorial, já que a naturalização da imigração europeia e asiática como narrativa hegemônica sobre o desenvolvimento rural brasileiro é um fenômeno que atravessa o campo midiático, o acadêmico, o escolar e o político de forma difusa e historicamente sedimentada. O Globo Rural não produz essa narrativa do zero, ele a reproduz, amplifica e legitima, o que é suficientemente problemático para demandar análise, mas insuficiente para sustentar uma leitura conspiracionista. O que está em jogo é aquilo que Pierre Bourdieu chamaria de doxa, a saber, o conjunto de pressupostos que uma determinada produção cultural mobiliza sem submetê-los à interrogação, precisamente porque eles aparecem como óbvios, como naturais, como o simples registro do que existe.

Para o Globo Rural, a história das comunidades imigrantes e suas técnicas agrícolas é uma boa história, no sentido jornalístico do termo, pois tem personagens identificáveis, continuidade temporal, elementos afetivos, identidade preservada contra o tempo. A história das comunidades quilombolas e do legado da escravidão na conformação do campo brasileiro é também uma boa história, entretanto, exige outro tipo de enquadramento, um que implique a confrontação com conflitos fundiários, com o racismo estrutural e institucional, com a violência histórica do Estado. Esse tipo de narrativa é mais incômodo, mais dissonante, mais difícil de encaixar no registro celebratório que caracteriza o programa.

A questão que o debate sobre o programa Globo Rural coloca, em última instância, é sobre o que o jornalismo de cotidiano e cultura tem como obrigação mínima diante da complexidade histórica do país que narra. Não se trata de transformar um programa rural em um seminário acadêmico de historiografia, trata-se, antes de tudo, de reconhecer que as escolhas de pauta, enquadramento e ênfase nunca são inocentes, e que, num país cuja formação está tão profundamente marcada pela violência da escravidão e por seus prolongamentos estruturais e institucionais no presente, ignorar sistematicamente essa dimensão ao retratar o campo brasileiro não é uma posição neutra, é uma posição que, por omissão, contribui para a manutenção de uma memória coletiva seletiva, na qual certas histórias são contadas com orgulho e outras permanecem à margem.

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Ramsés Albertoni é Professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutor em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).