
(Foto: Tai Bui/Unsplash)
À medida que se aproximam as eleições presidenciais, torna-se cada vez mais evidente a instrumentalização política do noticiário pela imprensa. É um fenômeno antigo, mas que atualmente ganhou uma intensidade e profundidade nunca vistas na imprensa brasileira. A instrumentalização acontece quando uma notícia ou informação procura transmitir uma percepção enviesada ou distorcida dos dados, fatos, eventos ou ideias abordados.
A instrumentalização de notícias e informações procura induzir o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta a desenvolver, inconscientemente, uma determinada percepção da realidade política, econômica, social ou eleitoral. Representa também uma traição ao princípio jornalístico de somente oferecer ao público informações confiáveis, exatas, relevantes e atualizadas.
Apesar disto a instrumentalização, conhecida na imprensa anglo-saxã pela expressão news weaponization (uso da notícia como arma), é praticada sem maiores reservas nos três maiores jornais do país e em boa parte dos telejornais, tendo como principal desculpa oculta a teoria do copo meio cheio ou meio vazio. Esta metáfora ajuda a compreender a complexidade do problema ⁽¹⁾.
O enviesamento de notícias e informações tem como base a diversidade de percepções humanas sobre a realidade que nos cerca. Cada pessoa tem uma visão própria do ambiente material e imaterial no qual está inserida, segundo ensinam as modernas teorias da cognição. Esta diversidade de percepções foi tremendamente ampliada em quantidade e qualidade depois do surgimento da internet e da avalanche informativa.
Resistências à ‘desinstrumentalização’
O problema é o discurso adotado pela maioria esmagadora dos profissionais e das empresas jornalísticas que continuam se autodefinindo como objetivas, isentas e exatas apesar das pesquisas acadêmicas mostrarem que a realidade atual é cada vez mais diversificada, fluida e mutável. As mídias se apegam à cultura das certezas e resistem a produzir notícias a partir da complexidade da realidade.
Isto ajuda a explicar a enorme dificuldade das pessoas comuns em identificar quando uma informação está instrumentalizada e orientada para atingir um determinado objetivo. O caso dos três maiores jornais brasileiros mostra como eles escolhem manchetes, selecionam entrevistados e montam narrativas conforme seus interesses políticos e econômicos, bem como preferências eleitorais no pleito de outubro. As investigações do escândalo dos consignados no INSS sumiram da agenda da grande imprensa e foram substituídas pelo caso Lulinha que não tem relação direta com o roubo aos aposentados. Nem o próprio STF (Supremo Tribunal Federal) escapou da instrumentalização com o tratamento desigual ao relatar atos de ministros.
A instrumentalização de notícias tem um desdobramento ainda mais grave que é o chamado hacking cognitivo, o uso de informações para intervir na forma como as pessoas produzem conhecimento ⁽²⁾. O hacking praticado essencialmente através das plataformas digitais afeta apenas indivíduos ou grupos de indivíduos e tem como objetivo levá-los a alterar comportamentos de forma impulsiva, quase fanática, como aconteceu, por exemplo, na invasão da Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.
Descaracterizar a instrumentalização de notícias e informações é um trabalho difícil e demorado porque requer um nível de conhecimento dos fatos semelhante ao exigido para identificar uma fake news. É necessário virar uma notícia ao avesso para descobrir aquilo que não é perceptível de imediato. Principalmente analisar o contexto, identificar quem ganha, quem perde, causas e consequências. É um esforço absolutamente necessário porque ao enviesar uma notícia, o jornalismo não apenas ignora um dogma profissional (a imparcialidade), como também cria as bases para o descrédito do público em relação ao que é publicado, como mostram as pesquisas de opinião ⁽³⁾ e o fenômeno do negacionismo informativo ⁽⁴⁾.
Obviamente, a manipulação de informações não será eliminada por decreto e nem desaparecerá de uma hora para outra. Num período pré-eleitoral, como o que estamos vivendo, o enviesamento de notícias tende a aumentar diante da intensificação da luta por votos e simpatias. É um período de grande turbulência informativa que torna ainda mais necessária a preocupação de ‘desinstrumentalizar’ o noticiário para evitar que o eleitor seja induzido a escolhas sem a devida reflexão.
- Mais detalhes sobre o conceito de news weaponization aqui (em inglês).
- Mais detalhes sobre o hacking cognitivo aqui (em português) ou aqui (em inglês).
- Dados do Digital News Report 2026, produzido pelo Instituto Reuters, revelam que a média mundial de credibilidade na imprensa caiu para 37%, o mais baixo índice nos últimos 10 anos. No Brasil, o índice é de apenas 36% de confiança no noticiário.
- Ainda segundo o mesmo Digital News Report, 42% das pessoas entrevistadas em todo o mundo admitiram a perda de interesse no noticiário da imprensa. No Brasil, 47% dos consultados se identificaram como negacionistas informativos.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
