
(Arte feita por IA com prompts fornecidos pelo autor do texto)
Definido por Juliano Spyer na Folha de S.Paulo como um “músico competente”, Renan Santos decidiu voar mais alto. Em uma convenção que vendia ingressos de até R$ 7 mil para dar acesso a um lounge exclusivo, open bar e um meet and greet com lideranças partidárias, ele lançou sua candidatura presidencial e apresentou o chamado Livro Amarelo, com propostas que, sem novidade alguma, prometem levar para o Palácio do Planalto uma gestão ao estilo de startup, com metas agressivas e controle rigoroso das finanças.
Com infinitas ressalvas, talvez esse discurso caia bem na boca do trilionário Elon Musk, mas soa estranho quando confrontado com o histórico empresarial de Renan Santos e de sua família. Ainda em 2016, quando o Movimento Brasil Livre, que deu origem ao partido Missão, se gabava de ter provocado o impeachment de Dilma Rousseff, o UOL traçou um perfil de gestor que dificilmente faria o atual político prosperar no Vale do Silício.
Na época, o portal informou que Renan era réu em pelo menos 16 ações cíveis e mais 45 processos trabalhistas, incluindo aqueles que tramitavam em seu nome e os das empresas das quais era sócio. Algumas delas ao lado de parentes.
Dona da conta bancária utilizada na época pelo MBL para receber doações, sua irmã Stephanie figurava como ré em dois processos de execução por dívidas, que totalizavam cerca de R$ 10 mil, referentes à empresa Nórdica Indústria e Tecnologia. O irmão Alexandre era réu em sete processos, sendo seis deles de execuções por dívida.
Aliás, a conta administrada por Stephanie não era exatamente do Movimento Brasil Livre, e sim do Movimento de Renovação Liberal, uma associação privada criada em março de 2015, cuja atividade principal aparecia como “serviços de feiras, congressos, exposições e festas”, de acordo com reportagem do El País publicada em 2017.
Se a inspiração para transformar em empresa, produto e megaevento a própria militância política for os bilionários das big techs, a notícia triste é que Renan parece distante do badalado primeiro bilhão. A leitura atenta do texto do jornal espanhol mostra que a Justiça encontrou apenas nove reais no banco onde guardava seus rendimentos como pessoa física. Muitos empreendedores se orgulham de ir do zero ao milhão. Mas do nove ao bilhão parece bem mais complicado.
Até porque a habilidade do candidato para lidar com dinheiro parece ter piorado com o tempo. Em 2022, o Metrópoles informou que, alegando sérias dificuldades, ele solicitou o benefício da gratuidade da Justiça e declarou não possuir contas bancárias. Certamente não seria o melhor nome para dar aula nos cursos de educação financeira da Nathália Arcuri.
Dez anos depois do impeachment, tudo indica que Renan ainda tem tido dores de cabeça por conta de negócios do passado. Em junho de 2026, o Jota informou que o líder do Missão ingressou na Justiça para suspender a publicidade dos apontamentos de débitos tributários registrados contra ele na plataforma Regularize, da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
Os débitos se referem à empresa Martin Artefatos de Metais S.A., da qual Santos foi sócio-administrador entre 2010 e 2020. Sediada em Jundiaí, a empresa ainda conta com seu pai, Mário Jorge Ferreira dos Santos, como diretor.
Mas é preciso levar em consideração que o ramo de atuação da família traz riscos embutidos: ele e o pai dedicaram alguns anos à compra de empresas em dificuldades financeiras com a proposta de recuperá-las. As reportagens e os processos judiciais disponíveis, porém, não sugerem que a atuação da família Santos tenha mudado para melhor o cenário de algumas das firmas adquiridas que estavam no vermelho.
Sem problema. Renan não aparenta se incomodar muito em deixar tudo como está. Antes das manifestações pelo impeachment, ele surgiu em 2014 no movimento Renova Vinhedo (sic), que contava com o apoio do prefeito eleito em 2012, do vice que assumiu em seu lugar, da Câmara de Vereadores e de empresários locais. É digno de nota um projeto de renovação apoiado justamente por quem já está no poder.
Colega de movimento em Vinhedo, Rubinho Nunes disputou a prefeitura em 2016 pelo MDB, partido com o maior número de réus na Operação Lava Jato.
A justificativa para a filiação a um partido com problemas na Justiça foi a de mudar a política por dentro, mas reportagem da Folha sobre a candidatura afirmava também que integrantes do MBL eram proibidos de se filiar ao PT. Não havia interesse em tentar influenciar a política interna do partido mais cobrado nas manifestações organizadas pelo Movimento Brasil Livre?
No Brasil, tudo muda para continuar como está.
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Rafael Simi é jornalista formado pela PUC-Rio, com passagens por assessoria de imprensa e pelas redações do Grupo Globo.
