Quinta-feira, 17 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1406

Má notícia é não ter notícia

(Foto: Jakub Zerdzicki/Pexels)

A violência contra jornalistas e comunicadores tem muitos efeitos e consequências que se modificam ao longo do tempo. Os sucessivos episódios de violência contra a equipe do Tapajós de Fato, um veículo independente que reporta a partir de Santarém (PA) as violações sociais e ambientais no território, ajudam a contar a trajetória que a violência pode traçar no jornalismo e na sociedade.

O impacto imediato de uma ameaça muitas vezes é o medo que se instala no cotidiano. Jornalistas que deixam de fazer suas atividades rotineiras por medo de serem encontrados desprevenidos, não saem mais às ruas sem que o itinerário seja calculado e acompanhado à distância, como mostra reportagem publicada conjuntamente pela Agência Pública, Infoamazonia e Repórter Brasil nesta segunda (14). Marcos Wesley, fundador do Tapajós de Fato, precisou mudar-se de casa inúmeras vezes para zelar por sua segurança em detrimento da sua vida pessoal e teve que aprender a viver sem poder piscar os olhos.

A ameaça contra um jornalista nunca afeta uma única pessoa. Embora Marcos seja o principal alvo das ameaças, toda a redação se viu afetada. No auge da cobertura das eleições em 2022, um comunicador teve seu celular roubado, no dia seguinte, outra integrante sofreu uma tentativa de ataque a facas na rua da redação, e mais à noite, a equipe foi seguida por um carro quando deixava a sede do veículo. No caso de João Paulo, a intensificação das ameaças o impediu até de fazer visitas à família, por medo de que as represálias atingissem seus entes queridos.

Os ataques por vezes são mascarados de diferentes formas. É uma estratégia do agressor para se proteger de ser identificado e punido, mas que é alimentada pela estigmatização do trabalho da imprensa e pela normalização da violência. Marcos já recebeu, próximo de sua casa, uma cabeça de gato decepada com um bilhete com seu nome. Em junho deste ano, seu carro foi destruído por outro veículo quando estava estacionado durante a madrugada em frente à sua casa, logo depois de indivíduos circularem com bicicleta observando o local. A princípio, o próprio jornalista entendeu o caso como um acidente. No entanto, à luz do contexto e das imagens de câmeras de segurança, a situação parece ser mais uma ameaça.

Dos episódios mais explícitos à ameaça extremamente velada, a rotina da violência contra jornalistas é marcada pela impunidade. Apesar do acompanhamento jurídico, das sucessivas denúncias feitas à polícia e ao Ministério Público, nenhuma investigação dos episódios de ataques contra os integrantes do Tapajós de Fato teve sequer conclusão, muito menos a elucidação dos fatos e a responsabilização dos envolvidos. A situação de insegurança se agrava quando as políticas públicas de proteção não funcionam, não acolhem, tampouco protegem aqueles que mais precisam.

A precarização do trabalho de jornalistas e comunicadores é a outra face da violência que sofrem. Diante da falta de proteção oferecida pelo Estado, os profissionais devem eles mesmos arcarem com sua segurança. A redação do Tapajós de Fato, que chegou a contar com mais de 20 pessoas em 2022, foi reduzida a sete pessoas em 2026. A falta de recursos, resultado de problemas estruturais e cortes de financiamento, contribuem também para o aumento da vulnerabilidade dos meios de comunicação que não conseguem estruturar formas seguras para trabalhar.

Somada aos efeitos avassaladores que trazem às vítimas, a violência contra jornalistas causa autocensura. Embora o nome indique uma censura autocentrada, seu impacto vai muito além do indivíduo. O silenciamento pode começar quando a vítima deixa de cobrir seu agressor. Depois, outros veículos do entorno não se sentem seguros para cobrir a lacuna deixada pelos colegas. Como uma tragédia anunciada, não somente uma pessoa ou outra, mas o próprio exercício do jornalismo investigativo deixa de ser viável. É assim que recebemos o anúncio de que a redação do Tapajós de Fato não tem condições seguras de cobrir a corrida eleitoral de 2026.

Por fim, chegamos à última etapa da trajetória da violência contra jornalistas: o impacto na sociedade e na democracia. Deixar de receber informações sobre uma determinada cidade ou região não é banal. Durante o período eleitoral, a gravidade se multiplica. Quando a atenção de toda a sociedade está voltada para a política, para o escrutínio de políticos e candidatos, o silêncio pode dizer muita coisa. Quando este silêncio é provocado às custas de crimes impunes, sabemos que o mensageiro foi calado e assim temos a certeza de que a mensagem que nós, como sociedade, nunca recebemos era extremamente valiosa.

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Letícia Kleim, advogada e coordenadora jurídica da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).