Quinta-feira, 17 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1406

Quem ganha a corrida da atenção quando a informação é um produto fragmentado?

(Foto: Ocko Geserick/Pexels)

Observar os hábitos de consumo de informação das pessoas nos ajuda a entender boa parte dos desafios que enfrentamos como sociedade. Outro dia, em um trajeto de ônibus para uma consulta médica, prestava atenção em como os passageiros consumiam informação por caminhos distintos, o que me provocou a escrever este artigo. Ao meu lado, acompanhei uma discussão inflamada em um grupo no WhatsApp – que parecia de familiares – sobre uma imagem enviada ali que claramente era uma montagem. Eram stickers e xingamentos, tudo no silêncio do ônibus. Mas ao olhar para o restante do ônibus, muitos passageiros com fones, assistindo a eles: os vídeos curtos. Influenciadores, aulas online, cortes, memes… tinha de tudo. O ecossistema inteiro da informação fragmentada estava ali, compartilhando o mesmo espaço com destino à Consolação.

É absolutamente tentador transformar essa imagem em uma trincheira sobre como o acesso à informação se fragmentou. Mas sendo uma pessoa que se senta dos dois lados do balcão, a narrativa que discute se os criadores de conteúdo vieram para aposentar o jornalismo tradicional ou se as redações são a última barreira contra o caos digital me parece tão profunda quanto um pires. A disputa nunca foi entre pessoas. O verdadeiro desafio é habitarmos um ambiente profundamente fragmentado, no qual uma reportagem investigativa que levou meses para ser checada precisa disputar a mesma fração de segundo de atenção com uma corrente de WhatsApp ou uma opinião acalorada.

Nessa confusão de canais que se tornou a distribuição de informação, muitos esquecem que jornalistas e criadores operam em frequências distintas. O jornalismo funciona como uma malha invisível da democracia: o trabalho sistemático de apurar, checar, documentar e manter o compromisso com o interesse público. O criador de conteúdo, por sua vez, constrói uma ponte de tradução cultural, trazendo o contexto, o tom da conversa e a proximidade que fazem um fato ganhar significado para uma comunidade específica. Um constrói a base de dados do real; o outro ajuda a processar o impacto disso no cotidiano.

Quando vemos veículos adotando práticas de produção e distribuição ao lado de criadores, ou mesmo influenciadores estruturando suas próprias redações, estamos testemunhamos a busca por um ecossistema da distribuição de informação sustentável diante de tamanha fragmentação e desconfiança. As redações se oxigenam com a linguagem e o vínculo humano que os criadores dominam. Já os criadores, frequentemente exaustos no moinho diário dos algoritmos, encontram na estrutura jornalística o rigor e a institucionalidade que funcionam como um backbone de credibilidade.

Para além de discutir sobre quem vai vencer a corrida pela atenção – até porque, como disse, não é uma disputa sobre pessoas – o que precisamos dar a devida atenção como profissionais da comunicação é o que vai sobrar da qualidade da informação quando a poeira das plataformas baixar. E talvez o nosso papel seja o de proteger o espaço onde a verdade e o contexto consigam coexistir, garantindo que tanto um vídeo curto, um grupo no zap ou uma revista impressa sejam parte de um ecossistema que fortaleça a democracia e o acesso à informação de qualidade.

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Ana Paula Passarelli é mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professora na FAAP. É a primeira mulher a assumir a presidência do SINAPRO-SP (Sindicato das Agências de Propaganda do Estado de São Paulo) e CEO da Brunch. Reconhecida como uma das profissionais de marketing de influência mais admiradas do Brasil pelo estudo SCOPEN, Passa foi indicada ao Prêmio Caboré em 2025, na categoria Profissional de Inovação e homenageada como Profissional do Ano pelo Prêmio Share.