Quinta-feira, 17 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1406

Eleição brasileira: “uma aparente normalidade, abalada pelo monopólio trumpista”

(Foto: Ricardo Stuckert/PR)

A campanha eleitoral brasileira de 2026 se apresenta como as anteriores: polarizada, acirrada e centrada nas questões sociais e de segurança do país. Será que o Brasil vai confirmar a opção Lula, o caminho do reformismo? Ou será que vai retomar o bolsonarismo, encarnado por um dos filhos, Flávio, do ex-presidente de extrema direita?

As águas desse rio, que pareciam tranquilas, foram perturbadas de forma inusitada por Donald Trump. Assim como em outras partes das Américas, Trump multiplicou os gestos hostis e, por vezes, agressivos em relação ao governo brasileiro e ao presidente Lula.  A votação geral de 3 de outubro no Brasil segue o cronograma e os procedimentos legais habituais. O Tribunal Superior Eleitoral liberou 4,9 bilhões de reais para os trinta partidos devidamente registrados para participar da votação de outubro.  Os candidatos estão em campanha. Como sempre nessas circunstâncias, eles geram polêmicas nas redes sociais, reúnem seus apoiadores em diversos locais públicos, apertam mãos e concedem entrevistas. Isso vale para os candidatos à presidência: Lula da Silva, da esquerda, e Flávio Bolsonaro, da extrema direita. A única novidade é um grupo de candidatos independentes de direita que, segundo as pesquisas, poderia vir a complicar o cenário. A observação se aplica igualmente aos candidatos a deputado, senador ou governador estadual.

No entanto, desta vez, em outubro de 2026, a eleição não é como as outras. Outras regras, de origem norte-americana, interferem de forma significativa no bom andamento da votação. Logo ao assumir a Casa Branca, em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump restabeleceu o corolário de Roosevelt (Theodore) à doutrina de Monroe: “o hemisfério ocidental”, denominação norte-americana para o continente americano, é, segundo Donald Trump, “nosso quintal” histórico. Esquecida por meus antecessores, disse ele, ela ficou sob a influência de outros, que devemos afastar. Essa pretensão foi posteriormente teorizada sob a marca criada pelo presidente Trump, ex-magnata do setor imobiliário, como “doutrina Donroe”. Publicado no site da Casa Branca em novembro de 2025, esse roteiro imperial tem sido, desde então, objeto de insistentes lembretes oficiais. Em 11 de agosto de 2026, o Departamento de Estado apresentou sua essência em formato de vídeo. O embaixador de Trump na Cidade do Panamá, Kevin Marino Cabrera, fez uma explicação pública do texto, no mesmo dia, dirigida àqueles que teimassem em se fazer de surdos. Essa regra do jogo tem como objetivo se aplicar do Canadá à Terra do Fogo, incluindo, portanto, o Brasil.

Em termos claros, o Brasil, assim como Honduras, Panamá, Argentina e Colômbia, está sujeito à doutrina Donroe. É verdade que o Brasil é um peso pesado, devido à sua extensão, população, renda nacional, recursos energéticos, agrícolas e terras raras. Mas é justamente por isso que Donald Trump e sua equipe buscam sua conversão. Além disso, o Brasil usa seu peso, com Lula, para conduzir uma política independente capaz de influenciar seus vizinhos. Uma perspectiva incompatível com a doutrina Donroe. Em pouco mais de um ano, os Estados Unidos transformaram em vassalos a Argentina, a Bolívia, o Chile, a Colômbia, a Costa Rica, o Equador, o Panamá, o Paraguai, o Peru e a Venezuela. O Brasil está, assim, cercado por países alinhados a Washington, no âmbito de uma suposta aliança, formalizada em 7 de março de 2026 em um hotel do Grupo Trump, o “Escudo das Américas”. A Venezuela, sob um protetorado de fato, está sujeita a outra forma de subordinação.

A insatisfação dos Estados Unidos em relação ao Brasil assume diversas formas. Ele remonta a vários meses. Em setembro de 2026, continua atual e está presente na campanha eleitoral. Trata-se de um rompimento estrutural, que deve ser compreendido em Brasília como tal. O Brasil, assim como a Argentina, Honduras ou a Venezuela, é convidado a exercer uma soberania limitada pelos interesses dos Estados Unidos. Em termos claros, as regras do jogo interamericano hoje se regem pelo direito definido pelo mais forte. O direito internacional, baseado na igualdade reconhecida a todo Estado, grande ou pequeno, teria se tornado obsoleto.

Os sinais negativos e agressivos dirigidos às autoridades e instituições brasileiras são constantes e recorrentes desde 2025. Em 18 de julho de 2025, Marco Rubio, secretário de Estado (ministro das Relações Exteriores de Donald Trump), anunciou a suspensão do visto de entrada nos Estados Unidos de um juiz do Supremo Tribunal Federal brasileiro, Alexandre de Moraes. O juiz é acusado de perseguição judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. No dia 30 de julho do mesmo ano, a Casa Branca anunciou a imposição de uma tarifa alfandegária de 50% sobre os produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. Em 13 de agosto, os Estados Unidos suspenderam os vistos dos cidadãos brasileiros participantes do programa “Mais Médicos”, baseado em uma cooperação na área da saúde com Cuba. Em 15 de agosto, Alexandre Padilha, ministro da Saúde, teve seu visto de entrada nos Estados Unidos revogado. Em 13 de março de 2026, um assessor de Donald Trump, Darren Beattle, que pretendia visitar Jair Bolsonaro, foi impedido de entrar no território brasileiro. Em 27 de maio de 2026, Marco Rubio recebeu Flavio Bolsonaro. Em 28 de maio, o Departamento de Estado incluiu em sua lista de organizações terroristas dois grupos criminosos brasileiros, o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital). Em 16 de julho, os Estados Unidos decretaram uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros importados. Em 21 de julho, os Estados Unidos concederam um visto de residência permanente (Green Card) ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, condenado pela Suprema Corte do Brasil a quatro anos e dois meses de prisão por conluio com um país estrangeiro. Em 24 de julho, foi imposta uma nova tarifa de 12,5% sobre outra gama de produtos brasileiros importados. No mesmo dia, o Brasil recusou-se a conceder visto a dois altos funcionários do Departamento de Estado que alegavam querer realizar uma auditoria no sistema eleitoral brasileiro. Em 4 de agosto, os Estados Unidos revogaram o visto permanente da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Após um ano e meio sem embaixador no Brasil, Donald Trump nomeou um parlamentar de origem cubana, Daniel Perez, sem ter previamente solicitado a aprovação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Sua posse no Brasil foi adiada pelas autoridades brasileiras. Em 8 de agosto, houve uma redução de 35,9% na cota de açúcar concedida aos produtores brasileiros no mercado dos Estados Unidos.

A pressão vem acompanhada de um apelo aos aliados ideológicos de Washington. Em 16 de julho de 2026, o Departamento de Estado e seu titular, Marco Rubio, organizaram uma Cúpula com o objetivo de combater “o terrorismo de extrema esquerda, em todo o mundo”, portanto, também na América Latina e no Brasil. 66 delegações participaram dessa festa ideológica. A Fundação Disenso, braço do Vox, partido de extrema direita espanhol, em conluio com José Antonio Kast, recém-eleito presidente do Chile, repetiu a iniciativa nos dias 3 e 4 de setembro, em Santiago. A pouco mais de um mês das eleições presidenciais brasileiras, os representantes da extrema direita da Europa e das Américas comemoraram as vitórias eleitorais de seu campo em Honduras, na Colômbia e no Peru. Por conta própria, o presidente argentino Javier Milei participou do comício de lançamento da campanha de Flavio Bolsonaro em São Paulo, em 25 de julho. Na ocasião, ele criticou duramente seu “homólogo” Lula.

Lula não ficou de braços cruzados. O embaixador do Brasil em Buenos Aires foi chamado de volta. Lula visitou Donald Trump em Washington em maio. Eles voltaram a conversar, por telefone, no início de agosto. Milei continuou mobilizado contra Lula e todos aqueles que defendem os bens comuns. Donald Trump continua seu trabalho de sabotagem contra o Brasil. Com base em sua experiência diplomática positiva adquirida durante seus dois mandatos presidenciais, Lula buscou alianças equilibradoras, com a Coreia do Sul, por exemplo. Ao mesmo tempo, confirmou os laços estabelecidos com a China, que se tornou, além de compradora de matérias-primas minerais e agrícolas, um parceiro tecnológico. Em 29 de julho, o Brasil aderiu à Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, criada por Pequim, ao lado da Indonésia, do Paquistão e da Rússia. Brasília firmou um acordo petrolífero com a outra potência econômica latino-americana, o México. O Brasil normalizou suas relações com a Ucrânia e tentou mediar entre Kiev e Moscou, parceira do Brasil no BRICS. Sem grandes ilusões. Lula, pela primeira vez, não compareceu a uma cúpula do BRICS, a 18ª, organizada na Índia nos dias 12 e 13 de setembro.

Todo esse debate diplomático fazia sentido antes da presidência de Trump. Em um contexto oficialmente respeitoso das normas do direito internacional, o “não alinhamento ativo”, “multialinhamento”, abriam oportunidades de autonomia soberana para o Brasil, assim como para outros países, classificados sem muita análise como parte de um “Sul global” cujo denominador era mal definido ou inexistente. Donald Trump ampliou a brecha que contestava a legitimidade superior do direito, aberta na Crimeia e na Ucrânia por Vladimir Putin. A recente publicação de uma revista levanta uma questão perturbadora: “O direito internacional tornou-se impotente?”. No que diz respeito ao continente americano, a resposta é sim, cem por cento. Donald Trump virou a mesa do direito. Ele a substituiu pela mesa da força e do poder.

Ao retomar o caminho democrático, o Brasil renunciou à posse de armas nucleares. Apostou, no âmbito internacional, no direito, no diálogo e na influência cultural. Donald Trump apagou esse modo de agir com um simples traço de caneta, acompanhado de atos agressivos: sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro; multiplicação de ingerências nos países latino-americanos que aspiram à autonomia soberana; chantagens tarifárias; uso da força militar; pressões de diversas formas sobre o Brasil. É bem tarde para mudar de rumo, mas denunciantes lembraram que antes tarde do que nunca. Um colunista do semanário Carta Capital, de forma incomum no Brasil para um veículo de esquerda, convidou o Brasil a fortalecer imperativamente sua defesa. Ele apelou, em particular, para que se inspire na experiência dos iranianos, que, apesar de uma evidente assimetria militar e sem armamento nuclear, demonstraram possuir poder de dissuasão.  Celso Amorim, assessor diplomático do presidente e ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa, deu um alarme nesse sentido durante uma audiência na Comissão de Relações Exteriores do Congresso, em 12 de agosto.

Os eleitores brasileiros se preparam para votar em 2026, assim como em 2022 ou 2018. De acordo com um cenário centrado nas questões internas que, é verdade, são numerosas e polêmicas, como o futuro da democracia, as políticas econômicas e sociais e a luta pela segurança dos cidadãos. A sombra de Trump e de seus aliados regionais, no entanto, altera o alcance da votação. Seu resultado pode mudar o panorama continental. Seja confirmando a tendência de extrema direita na região dos últimos meses. Seja confirmando Lula, posicionando o Brasil como um polo de resistência regional a Trump e ao seu Monopoly diplomático.

Texto publicado originalmente em francês, em 03 de setembro de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Au Brésil en élections le 3 octobre prochain : « Une normalité apparente, bousculée par le monopoly trumpien »”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/134962. Tradução de Myllena Araújo do Nascimento e revisão de Andrei Cezar da Silva.

Notas

Carlos Fortin, Jorge Heine, Carlos Ominami, El No alineamento activo y América Latina, una doctrina para el nuevo siglo, Santiago de Chile, Editorial Catalonia, 2021.

Delphine Allès, «Multialignement», in Delphine Allès, Bertrand Badie, Stéphane Paquin, Les mots du nouveau monde, Paris, CNRS, 2026. 

In Sciences humaines, La géopolitique en 20 questions, «Entretien avec Samantha Besson, p. 66-69. 

Paulo Nogueira Batista Jr., Defesa nacional-um imperativo, Carta Capital, 12 août 2026, p. 3. 

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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).