Sexta-feira, 16 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1410

As sabatinas do Jornal Nacional

(Foto: Mokhtar Med/Pexels)

A cobertura eleitoral de 2026 produziu, nas sabatinas do Jornal Nacional com os candidatos à Presidência da República, um episódio que expõe as fissuras metodológicas do próprio conceito de equilíbrio jornalístico. As seis sabatinas com os presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas foram realizadas entre 24 e 29 de agosto e tiveram um elemento comum fundamental, já que todas foram conduzidas pela mesma dupla de jornalistas, Renata Vasconcellos e César Tralli. Romeu Zema foi entrevistado no dia 24, Ronaldo Caiado no dia 25, Renan Santos no dia 26, Luiz Inácio Lula da Silva no dia 27, Flávio Bolsonaro no dia 28 e Augusto Cury no dia 29. A manutenção dos mesmos entrevistadores ao longo da série é especialmente relevante para uma análise comparativa, pois permite avaliar com maior exatidão se houve diferenças no tom, na formulação das perguntas, no grau de insistência, nas interrupções e na proporção de tempo dedicada a propostas, investigações e controvérsias de cada candidato, sem que a mudança de jornalistas possa ser utilizada como explicação para eventuais diferenças de tratamento.

Entretanto, quando a entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dedicou parte substancial de sua abertura a investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, uma reação foi desencadeada por ex-jornalistas da emissora. Neide Duarte e Leila Cordeiro se manifestaram publicamente, questionando o tom adotado pelos entrevistadores. Porém, tratar essa reação como veredito definitivo sobre a conduta editorial do jornalismo da Rede Globo seria tão precipitado quanto descartá-la como mero ruído de bastidores. O que se coloca, na verdade, é um problema que a crítica de mídia brasileira raramente enfrenta com o rigor que ele exige, a saber, como se mede, empiricamente, o grau de “adversarialismo” de uma entrevista política, e o que significa dizer que um candidato foi tratado de forma “diferente” de outro?

Seis entrevistas foram realizadas e abordagens distintas emergiram delas. Zema enfrentou perguntas sobre sua gestão em Minas Gerais, segurança pública, vacinação e compromisso democrático; suas afirmações foram posteriormente submetidas a checagem, e algumas se revelaram exageradas ou incorretas. Caiado foi pressionado insistentemente sobre a viabilidade fiscal de suas propostas – Previdência, ajuste de gastos, prioridades orçamentárias –, numa cobrança que os entrevistadores conduziram com foco quase exclusivo na consistência técnica do programa de governo. Santos precisou responder por posições controversas em segurança pública e clima, e suas declarações também foram checadas posteriormente. Cury teve sua sabatina orientada à análise de propostas em economia, inteligência artificial e estrutura administrativa, com cobrança recorrente por detalhamento. Até aqui, um padrão de heterogeneidade se impõe, nenhuma fórmula idêntica foi aplicada mecanicamente a candidatos que carregam históricos, propostas e vulnerabilidades tão diferentes entre si.

É na entrevista de Lula, contudo, que a controvérsia se instalou com mais força, posto que uma parcela relevante de sua sabatina foi consumida por perguntas a respeito de inquéritos envolvendo o filho do presidente e sobre as relações do presidente com pessoas citadas nessas investigações, antes que a conversa avançasse para segurança pública, economia, dívida pública e educação. Essa concentração inicial é o que produziu a sensação, entre parte do público e da própria categoria jornalística, de que o presidente foi submetido a um escrutínio qualitativamente distinto do reservado aos demais. A pergunta que se impõe não é simplesmente se o tema era legítimo, evidentemente, questões de interesse público relacionadas a pessoas próximas ao poder devem ser investigadas e formuladas, e nenhuma linha editorial minimamente republicana poderia sustentar o contrário. O que está em disputa é a proporção, quanto tempo, quantas perguntas, qual insistência foram dedicados a esse assunto específico em comparação com o que foi dispensado a outros candidatos em situação análoga.

Essa comparação é onde a análise se complica, e é justamente aqui que a tentação do relato binário, houve ou não perseguição, precisa sofrer maior resistência. Flávio também foi submetido a uma sabatina fortemente adversarial. Democracia, eleições, controvérsias envolvendo seu pai, financiamento de produção audiovisual, tudo isso ocupou espaço relevante em sua entrevista, e uma análise publicada pela CNN chegou a identificar o peso das perguntas como um dos elementos centrais do encontro. Declarações falsas ou enganosas atribuídas ao candidato foram, posteriormente, identificadas por veículos de checagem. Meios de comunicação distintos, portanto, reservaram tratamento intensamente questionador tanto a Lula quanto a Flávio, o que desmonta, ao menos parcialmente, a leitura de que o presidente teria sido o único alvo de uma cobrança especialmente dura. Mas a diferença qualitativa entre os dois casos não pode ser apagada por essa constatação, pois enquanto Lula foi questionado sobre a conduta de terceiros, seu filho, pessoas de seu entorno, Flávio respondeu por sua própria trajetória política, suas próprias posições, suas próprias controvérsias diretamente atribuíveis. Responsabilização por vínculo familiar e responsabilidade pessoal direta não operam no mesmo registro moral nem produzem o mesmo tipo de desgaste retórico, e essa distinção é frequentemente obscurecida quando o debate público se organiza em torno de quem “sofreu mais”.

Pesquisas acadêmicas sobre entrevistas políticas oferecem instrumental para tratar esse problema com menos impressionismo. Gnisci; Van Dalen; Di Conza (2014) e Marques; Miola; Kniess; Comel (2025) sugerem que o adversarialismo entrevistador pode, e deve, ser mensurado por critérios operacionalizáveis como número de perguntas por tema, tempo dedicado a cada assunto, quantidade de interrupções, grau de insistência diante de respostas evasivas, proporção entre perguntas sobre propostas e perguntas sobre controvérsias. É esse tipo de metodologia, e não a impressão subjetiva de quem assistiu às sabatinas com expectativas já formadas, que permitiria transformar uma suspeita difusa em uma afirmação sustentável. Sem essa cronometragem sistemática das seis sabatinas, qualquer afirmação categórica sobre metade da entrevista de Lula ter sido consumida pelo caso do filho, ou sobre ter existido uma operação editorial coordenada para desgastar o presidente, permanece no terreno da interpretação política. Um terreno legítimo, mas epistemologicamente mais frágil do que o debate público costuma reconhecer quando se apressa a decretar veredictos.

Essa fragilidade metodológica não deveria, nada obstante, ser usada como escudo retórico para neutralizar toda crítica à condução jornalística. Um argumento é frequentemente mobilizado pelas redações quando confrontadas com acusações de viés. A exigência de prova quantitativa rigorosa antes de qualquer questionamento legítimo pode funcionar, na prática, como uma armadilha que protege a prática editorial de qualquer escrutínio genuíno, já que dificilmente um leitor comum, ou mesmo um pesquisador sem acesso a gravações completas e recursos de análise de conteúdo, dispõe de condições para produzir essa cronometragem exigida. Exigir rigor metodológico da crítica e ao mesmo tempo não submeter a própria produção jornalística a esse mesmo rigor de forma sistemática e pública cria uma assimetria incômoda, dado que a emissora se beneficia da opacidade sobre seus próprios critérios editoriais de seleção de perguntas, ao passo que impõe ao público o ônus de provar, com dados que só a própria emissora poderia fornecer integralmente, que houve tratamento desigual.

Reconhecer essa assimetria não equivale a afirmar que houve conluio ou intenção deliberada de prejudicar um candidato específico. A intencionalidade editorial é uma categoria distinta da desigualdade de tratamento factualmente observável, e confundir as duas, supor que toda disparidade de abordagem decorre necessariamente de uma decisão consciente e hostil, empobrece a análise tanto quanto a recusa de examinar a disparidade. É possível, e talvez mais plausível, que a concentração de perguntas sobre Lulinha resulte de uma lógica editorial mais ampla e menos conspiratória, a de que escândalos envolvendo familiares de figuras públicas operam, na gramática do telejornalismo comercial, como material de alto valor de atenção, independentemente de qualquer cálculo político-partidário consciente por parte de quem redige as perguntas. Essa hipótese não exime a emissora de responsabilidade, ao contrário, desloca a responsabilidade para um terreno estrutural, ligado à economia da atenção e aos incentivos comerciais que orientam o telejornalismo de horário nobre, e não apenas para a intenção subjetiva de um editor ou apresentador específico.

O jornalismo eleitoral brasileiro é atravessado, neste episódio, por uma tensão que nenhuma das partes em disputa consegue resolver sozinha. De um lado, insiste-se em que perguntas sobre investigações envolvendo pessoas próximas ao poder são não apenas legítimas, mas obrigatórias num regime democrático que preza pela accountability; de outro, reconhece-se que a proporção e a ênfase dadas a esse tipo de pergunta, em comparação com o espaço dedicado a propostas de governo e políticas públicas, constituem uma escolha editorial que merece ser explicitada, questionada e, na medida do possível, mensurada. Essas duas posições não são incompatíveis, mas sua coexistência produtiva depende de uma disposição, atualmente escassa nas redações brasileiras, de tornar públicos os critérios de seleção de pauta e o tempo efetivamente dedicado a cada bloco temático em entrevistas dessa envergadura. Enquanto essa transparência não for institucionalizada como prática, a controvérsia sobre a sabatina de Lula continuará sendo travada no terreno movediço da percepção, onde os apoiadores políticos do presidente encontrarão prova de perseguição midiática e seus adversários encontrarão prova de vitimismo instrumentalizado, e ambos os lados, nessa disputa, estarão parcialmente certos e parcialmente equivocados, não porque a realidade seja ambígua por natureza, mas porque ninguém, até aqui, produziu os dados capazes de dissolver a ambiguidade.

Referências

GNISCI, A.; VAN DALEN, A.; DI CONZA, A. Interviews in a polarized television market: the anglo-american watchdog model put to the test. Political Communication, 31(1), 2014, p. 112-130. https://doi.org/10.1080/10584609.2012.747190.

MARQUES, F. P. J.; MIOLA, E.; KNIESS, A. B.; COMEL, N. Between adversarialism and cooperation: rhetorical strategies of interviewers and interviewees in presidential elections. Journalism Practice, 19(2), 2025, p. 357-378. https://doi.org/10.1080/17512786.2023.2191864.

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Ramsés Albertoni é Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).