Quinta-feira, 22 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

A imprensa sob suspeita: jornalismo, poder e democracia nas eleições de 2026

(Foto: Tahir Xəlfəquliyev/Unsplash)

A democracia não sobrevive apenas da existência de eleições, partidos e instituições formalmente constituídas. Sua vitalidade depende da liberdade de pensamento, do acesso à informação confiável e da capacidade dos cidadãos de fiscalizar aqueles que exercem o poder. Nesse contexto, o jornalismo possui uma importância extraordinária: é uma das principais ferramentas pelas quais a sociedade conhece os fatos, denuncia abusos, confronta discursos oficiais e exige responsabilidade dos governantes. Quando essa função é exercida com independência, fortalece a República. Quando se submete a interesses políticos, econômicos ou ideológicos, pode contribuir para deformar a percepção da realidade e enfraquecer os fundamentos da vida democrática.

Nas eleições presidenciais brasileiras de 2026, essa responsabilidade torna-se ainda mais evidente. O segundo turno, em 25 de outubro, coloca frente a frente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, em uma disputa que expressa profundas divergências sobre os rumos políticos, econômicos e institucionais do país. Nesse cenário, a imprensa não pode ser tratada como simples espectadora. A maneira como seleciona os acontecimentos, formula as manchetes, entrevista os candidatos e contextualiza suas declarações influencia a compreensão pública das alternativas em disputa.

É legítimo, portanto, questionar se parcelas da grande imprensa brasileira vêm dispensando tratamento desleal ou excessivamente benevolente à ultradireita bolsonarista. Essa crítica merece investigação rigorosa, especialmente quando se suspeita de critérios diferentes para avaliar comportamentos semelhantes. Não seria correto, entretanto, transformar essa suspeita em condenação indistinta de todos os veículos. A imprensa brasileira é heterogênea, e uma avaliação consistente exige examinar reportagens, editoriais, entrevistas, omissões e padrões de cobertura concretos.

O problema central é que a parcialidade nem sempre aparece sob a forma de uma mentira evidente. Pode manifestar-se na escolha seletiva dos fatos, na importância atribuída a determinados episódios, na ausência de perguntas incômodas ou na maneira como uma declaração é apresentada ao público. A informação publicada pode ser verdadeira e, ainda assim, produzir uma percepção distorcida quando elementos essenciais são sistematicamente omitidos ou quando a gravidade de determinados acontecimentos é minimizada.

Nas campanhas eleitorais, essa distorção pode ter consequências profundas. Um candidato que apresenta uma proposta econômica deve ser questionado sobre seus custos, suas fontes de financiamento e seus possíveis efeitos sociais. Um candidato que formula acusações precisa apresentar evidências. E qualquer declaração que coloque em dúvida a legitimidade das instituições eleitorais deve ser examinada com base em provas verificáveis, não apenas reproduzida como mais uma peça da disputa política.

Imparcialidade não significa atribuir o mesmo peso a fatos diferentes, nem dividir mecanicamente o espaço jornalístico entre os concorrentes. Significa aplicar critérios consistentes de apuração, relevância e comprovação. A falsa equivalência entre uma informação sustentada por evidências e uma alegação sem fundamento não constitui equilíbrio: enfraquece a capacidade do cidadão de distinguir realidade, propaganda e desinformação.

A cobertura da ultradireita bolsonarista merece especial atenção por causa dos conflitos políticos e institucionais associados ao movimento nos últimos anos. O histórico de ataques de Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral e de confrontos com instituições republicanas integra o contexto necessário para compreender a continuidade e as transformações do bolsonarismo. A campanha de 2026 deve, por isso, ser examinada não apenas pelas promessas de seus candidatos, mas também por suas posições sobre a Constituição, a alternância de poder, a liberdade de imprensa e a independência das instituições. Isso não dispensa o exame igualmente rigoroso das ações, contradições e responsabilidades do governo Lula.

A questão não é proteger um campo ideológico contra o outro. É exigir que o jornalismo não transforme a competição eleitoral em um espetáculo no qual a audiência se sobreponha à verdade. Quando ataques institucionais são tratados apenas como provocações de campanha, corre-se o risco de banalizar comportamentos que merecem análise pública. Quando acusações sem provas recebem destaque sem a devida contextualização, o jornalismo pode ampliar sua circulação sem oferecer ao leitor instrumentos para avaliá-las.

É nesse ponto que o pensamento de Umberto Eco adquire particular relevância. Em seu ensaio O fascismo eterno, publicado originalmente em 1995, o escritor e semiólogo italiano advertiu que o autoritarismo não precisa reproduzir exatamente as formas históricas do fascismo europeu para representar uma ameaça. Ele pode reaparecer sob diferentes linguagens e circunstâncias, alimentando o medo, construindo inimigos e rejeitando o pluralismo. Eco examinou também a tendência de subordinar a complexidade do pensamento a slogans, certezas absolutas e palavras de ordem.

A contribuição de Eco não consiste em oferecer uma classificação automática para cada movimento político contemporâneo, tampouco em fornecer um julgamento específico sobre o bolsonarismo. Sua obra oferece instrumentos para identificar sinais de intolerância e compreender como determinadas formas de discurso podem enfraquecer o pensamento crítico. Aplicar essa reflexão à realidade brasileira exige examinar declarações, ações e propostas documentadas, distinguindo análise fundamentada de simples rotulação ideológica.

A imprensa possui uma função decisiva nessa tarefa. Deve investigar a linguagem política, confrontar alegações, recuperar antecedentes e explicar as consequências institucionais dos acontecimentos. Quando se limita a reproduzir frases de efeito, pode converter a provocação em espetáculo. Quando deixa de contextualizar ataques a adversários ou instituições, contribui para que a repetição os torne aparentemente normais. Quando trata a verificação como detalhe secundário, abandona uma das razões fundamentais de sua existência.

Um jornalismo tendencioso também prejudica a sociedade de maneira concreta. Pode desviar a atenção de questões essenciais, como pobreza, educação, saúde, emprego, segurança pública e preservação ambiental. Pode favorecer a desconfiança indiscriminada na Justiça e no processo eleitoral, dificultando a construção de consensos mínimos. E pode atingir sobretudo os cidadãos que dispõem de menos recursos e tempo para confrontar informações, verificar documentos e identificar manipulações.

Há, ainda, uma dimensão econômica. Grandes empresas de comunicação enfrentam pressões comerciais, disputas por audiência e relações complexas com grupos políticos e empresariais. Isso não significa que sua atuação seja necessariamente determinada por esses interesses, mas torna indispensáveis a transparência editorial, a correção pública de erros, a separação entre notícia e opinião e a disposição de investigar aliados e adversários com o mesmo rigor.

A resposta à parcialidade não pode ser a censura nem a intimidação de jornalistas. Deve ser mais liberdade, maior diversidade de fontes, fortalecimento do jornalismo investigativo e educação crítica para o consumo de informações. Uma imprensa livre precisa também aceitar a crítica pública, explicar seus critérios e reconhecer seus erros.

A advertência de Umberto Eco permanece atual: a liberdade não se conserva automaticamente. Depende da vigilância cotidiana, da defesa do pluralismo e da disposição de questionar discursos que pretendem substituir os fatos por certezas ideológicas.

Nas eleições de 2026, a responsabilidade da imprensa não é escolher vencedores nem proteger candidatos. É oferecer aos cidadãos condições para decidir conscientemente, com acesso a informações verificadas e contextualizadas. Se o jornalismo se submete a interesses particulares, a democracia perde um instrumento essencial de fiscalização e o povo perde parte de sua capacidade de compreender e transformar a realidade. A imprensa não precisa ser infalível, mas precisa ser independente, responsável e intelectualmente honesta. Afinal, quando a informação deixa de servir ao público e passa a servir ao poder, não é apenas o jornalismo que entra em crise: é a própria democracia que se torna mais vulnerável.

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Laercio Damasceno é jornalista e Diretor Responsável do Site MaisConhecer.com.