Sábado, 13 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1392

A falta de diploma de Virgínia não mancha a cobertura da Copa. Tigrinho e racismo sim

(Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

O anúncio de que Luciano Huck havia convocado a influenciadora Virgínia Fonseca para estrelar um quadro de seu programa durante a Copa do Mundo de 2026 desencadeou um debate em que, bizarramente, quase todo mundo usou argumentos ruins.

Começando pela FENAJ, uma entidade criada para defender o jornalismo. Em sua nota oficinal, ela viu riscos à nossa profissão pela atuação de uma figura das redes sociais na “cobertura” e lembrou da constrangedora transmissão de carnaval da TV Globo num ano em que trocou repórteres por influencers.

A retórica não para em pé. Em primeiro lugar porque a TV Globo levou o Casseta e Planeta para “cobrir” as Copas de 1994 a 2006, a Cazé TV tem o Diogo Defante e nada disso é responsável pela agonia da classe. Eu estava de plantão na redação do jornal Extra no fim de semana em que Bussunda morreu e a reação de todos foi de tristeza e carinho. Absolutamente ninguém enxergava o humorista como alguém que roubava vagas de repórteres.

Tampouco a transmissão carnavalesca atípica pode ser usada como testemunho contra a moça. Isso porque ela foi…atípica. Virgínia não vai efetivamente a convite do departamento de jornalismo da emissora e ninguém da equipe propôs trocar um time inteiro de profissionais experientes por gente que faz TikTok.

Misturar apuração real com entretenimento disfarçado de soft news sempre foi comum na Sapucaí, no Rock in Rio e em outros eventos que tiveram a presença de gente como Bruno de Luca e André Marques em frente às câmeras.

Apesar do erro no alvo dos críticos, Virgínia também não pode se gabar de contar com bons defensores. A colunista da Folha de S. Paulo Natália Beauty, centro de uma polêmica recente por admitir usar uma inteligência artificial para escrever seus textos, cravou em um texto que Virgínia não precisa de preparo, já que traz audiência.

Bom, aí vamos precisar fazer o que Natália não fez: analisar essa premissa em várias frentes. A primeira é a da própria transferência de público de uma mídia para outra. Glória Perez tentou isso ao convidar a blogueira Jade Picon para uma novela e o resultado foi duplamente negativo: o público não se engajou tanto assim e as críticas ao fraco desempenho da menina ofuscaram qualquer mínimo ganho.

E, bom, o programa da própria Virgínia no SBT dava 4 pontos. Um terço da massa de televisores ligados no Luciano Huck em um dia não muito inspirado.

Na mesma Folha, Michael França lembrou que a mão invisível do mercado está longe de ser tão boa assim para nortear decisões, já que a Bolsa quebrou em 1929 e 2008 e empresas guiadas unicamente por indicadores de mercado, como a Enel, prestam péssimos serviços.

Eu iria além, já que cobri televisão por alguns anos em um veículo popular: essa distinção entre sucesso e qualidade trata o povo como burro, como se não precisasse ser bom para cair no gosto da massa.

A história da TV Globo desmente isso, já que a emissora cresceu com o talento de gente como Janete Clair, Dias Gomes, Gilberto Braga, Fernanda Montenegro, Eduardo Coutinho, Marília Gabriela, Fernanda Young e muito mais. Quem sempre apostou na audiência pela audiência foi o SBT, conseguindo no máximo um segundo lugar com as seguidas reprises do Chaves.

No fim, quem acertou no alvo foi Marina Izidro, ao lembrar de fatos notórios, como a ligação de Virgínia Fonseca com as bets e o repulsivo ato de beijar um macaco logo após terminar o namoro com um jogador de futebol que frequentemente é vítima de racismo. Marina acertou no ponto com brilho e elegância. E acrescento a essas passagens o fato de que os negócios da influenciadora estão na mira da Polícia Federal.

São essas as graves questões que deveriam desencorajar Luciano Huck de levar Virgínia para a Copa. Mas, aparentemente, seus olhos críticos ao Bolsa Família não se mantêm abertos quando se trata de vidas destruídas por apostas e racismo.

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Rafael Simi é jornalista e autor do livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.