Sexta-feira, 22 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1389

Do especialista ao influenciador: a nova hierarquia da autoridade pública

(Foto: Szabo Viktor/Unsplash)

Os critérios que definem quem possui autoridade passam por uma mudança silenciosa. Durante muito tempo, a legitimidade de um especialista esteve associada ao conhecimento acumulado, à formação e à experiência. Hoje, esse critério convive e muitas vezes disputa espaço com outro: a visibilidade.

Nesse contexto, a autoridade deixa de depender apenas da competência e passa a ser influenciada pela capacidade de gerar atenção. Número de seguidores, alcance e engajamento tornam-se fatores que ajudam a definir quem fala e, principalmente, quem é ouvido. Em programas, debates e conteúdos digitais, criadores de conteúdo passaram a ocupar espaços antes reservados majoritariamente a especialistas, muitas vezes sem distinção clara entre os critérios que legitimam cada participação.

Essa transformação não ocorre fora do jornalismo, em muitos casos, é incorporada por ele. Pressionados por métricas de audiência e pela dinâmica das plataformas digitais, veículos passaram a incluir influenciadores em coberturas e debates sobre temas complexos. Em pautas sobre saúde, economia ou comportamento, por exemplo, não é incomum ver criadores de conteúdo dividindo espaço com especialistas, sem que haja uma distinção clara entre os critérios que legitimam cada fala.

Mais do que a presença simultânea de influenciadores e especialistas, importa a forma como são apresentados. Ao colocar lado a lado trajetórias baseadas em método e trajetórias baseadas em visibilidade, o jornalismo pode sugerir uma equivalência que não necessariamente existe. A diferença entre conhecimento técnico e performance comunicativa tende a se diluir.

Esse deslocamento reforça o diagnóstico de Tom Nichols sobre a erosão da autoridade do especialista. O problema não é a falta de informação, mas a perda de critérios que distinguem conhecimento estruturado de opinião. Em um ambiente em que o acesso à informação é frequentemente confundido com conhecimento, a hierarquia entre especialista e leigo tende a se enfraquecer. A rejeição à autoridade técnica nem sempre decorre da falta de informação, mas da resistência a conclusões que contrariam crenças prévias. A validação deixa de passar prioritariamente pelo método e passa a depender também da capacidade de mobilizar audiência.

A diferença entre essas formas de autoridade é relevante. O conhecimento técnico costuma ser marcado por cautela, revisão e reconhecimento de limites. Já a lógica das plataformas favorece mensagens diretas, assertivas e facilmente compartilháveis. O que exige tempo e complexidade tende a circular menos do que o que oferece respostas rápidas.

Ao incorporar essa lógica sem mediação clara, o jornalismo corre o risco de deslocar seu próprio papel. Como apontava Max Weber ao analisar os tipos de autoridade, a legitimidade depende de critérios reconhecidos. Quando esses critérios se tornam difusos, a autoridade tende a se fragilizar.

Esse deslocamento não afeta apenas o jornalismo, mas o próprio debate público. O desafio não é rejeitar a presença de novos agentes nesse espaço, mas compreender como são posicionados. A pluralidade de interlocutores é um valor, mas não elimina a necessidade de distinguir níveis de responsabilidade, método e conhecimento.

Quando o engajamento passa a operar como medida de legitimidade, o risco não é apenas confundir o público, mas esvaziar a função do próprio jornalismo. Se todas as fontes parecem equivalentes, a mediação perde sentido.

Recuperar critérios de hierarquização não implica restringir o debate, mas restabelecer distinções fundamentais entre popularidade e conhecimento, visibilidade e competência. Em um ambiente em que autoridade e alcance tendem a se confundir, preservar essa diferença deixa de ser apenas uma questão acadêmica e passa a ser uma condição para a própria credibilidade da informação.

Referências

NICHOLS, Tom. A Morte da Competência. Lisboa: Quetzal, 2018.

WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora UnB, 1999.

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Suzy Azevedo é jornalista, pós-graduada em Comunicação Informacional pela FAAP e autora de textos reflexivos sobre mídia, comportamento humano e questões sociais. Escreve sobre temas que impactam a forma como as pessoas pensam, se informam e se relacionam com o mundo.