
(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
Na semana em que se completam dez anos de inauguração da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, situada em Altamira, no Pará, o jornalismo – tão afeito a efemérides deste tipo – apresenta uma abordagem insuficiente diante desta obra repleta de controvérsias. A ausência de conteúdos de maior fôlego impede o aprofundamento desejado na história e nos efeitos desta obra que marcou a Amazônia e o Brasil: dez anos passados, o que este acontecimento nos ensina? Ou em bem-vinda autocrítica: como o próprio jornalismo tomou parte no conflito instaurado pelo desenvolvimento e futuro desejável da região?
Grande parte da imprensa tem se dedicado a reproduzir uma carta-manifesto assinada por entidades que cobram reparação e questionam a pertinência de novos empreendimentos de grande porte na região, como é o caso de Belo Sun – projeto de mineração que ameaça novamente aquele território. A despeito da importância de oferecer visibilidade à correspondência, a ausência de investigações mais profundas contrasta com o porte e os impactos de Belo Monte, maior hidrelétrica da Amazônia e uma das cinco maiores do mundo. A exceção até aqui é a reportagem de Nadia Pontes, publicada em parceria na Folha de S. Paulo e na DW, cujo título relembra o que pode de melhor o jornalismo fazer, ao questionar: Como Belo Monte mudou para sempre o Xingu.
O texto de Nadia oferece aos leitores uma perspectiva de como a vida de um rio e, por conseguinte, de comunidades inteiras que o habitavam foi desorganizada, em um processo repleto de controvérsias técnicas e burocráticas. A repórter acompanha o caso há uma década e já dedicou outras publicações ao tema. Neste sentido, o seu texto nesta semana é exemplar de um jornalismo de longa duração, que não permite que pautas sensíveis sejam facilmente esquecidas ou superficialmente reportadas.
Destacar efemérides sem qualquer exercício de reflexão acerca dos efeitos das datas e acontecimentos rememorados é sintoma de um jornalismo praticado sob o signo da urgência e sem compromisso com a memória compartilhada. Insuficiente, portanto, do ponto de vista do interesse público. Resta questionar se, não fosse o manifesto lançado por entidades engajadas com a luta por justiça aos afetados, os dez anos de Belo Monte seriam lembrados. Veículos locais e nacionais têm divulgado a carta aberta “Belo Monte: dez anos de operação, mais de uma década de danos sem reparação”, mas não avançam oferecendo outros dados e perspectivas para além do que a própria correspondência informa. Mais do que um reconhecimento de boas práticas jornalísticas, a repercussão do manifesto mostra como a sociedade civil organizada é capaz de agendar e apelar à imprensa – e não apenas de esperar por ela.
Tema de numerosas teses e dissertações, inclusive no que tange os discursos da imprensa a seu respeito, a hidrelétrica também figurou em especiais jornalísticos, como o A Batalha de Belo Monte, de 2013, para citar apenas um exemplo. Completados dez anos da primeira turbina a entrar em operação no Xingu e proliferando denúncias que vão da morte do rio a violações de direitos de indígenas, ribeirinhos e pescadores artesanais, era de se esperar que a pauta fosse retomada com o mesmo fôlego.
Publicado originalmente em Observatório de Jornalismo Ambiental
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Ângela Camana é jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental(CNPq/UFRGS). E-mail: angela.camana@hotmail.com.
Revisão: Eloisa Beling Loose, integrante do GPJA.
