Domingo, 7 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1391

Tchernóbil, Goiânia e a sindemia de Covid-19 em perspectiva comparada

(Foto: reyhan diptayana/Pexels)

Em 18 de março de 2026, a plataforma Netflix lançou Emergência Radioativa, minissérie brasileira dirigida por Fernando Coimbra, ambientada em Goiânia e inspirada no acidente com o Césio-137 ocorrido na cidade em setembro de 1987. A produção chega ao público quase sete anos após o lançamento de Chernobyl, minissérie da HBO, dirigida por Johan Renck, exibida em 2019, que reconstituiu o acidente nuclear soviético de abril de 1986. Consideradas conjuntamente, as duas obras não são apenas objetos estéticos, mas intervenções no debate contemporâneo sobre catástrofes de origem antrópica, comunicação de risco e responsabilidade institucional, e sua comparação revela tanto as diferenças narrativas entre os dois desastres quanto uma homologia estrutural que as séries, cada uma a seu modo, iluminam e, simultaneamente, obscurecem.

Chernobyl adota uma perspectiva sistêmica e política, cujo foco analítico recai sobre os mecanismos de supressão da verdade no interior do aparato burocrático da extinta União Soviética, e o cientista Valery Legasov funciona como representação alegórica da integridade epistêmica em conflito com o poder. A série opera com pesquisa histórica e detalhamento técnico, privilegiando a dimensão estrutural da catástrofe, problematizando quem foi responsável, que mecanismos institucionais tornaram possível o desastre e de que modo o autoritarismo estatal transformou a informação em instrumento de controle. Emergência Radioativa, por contraste, centra-se nas vítimas diretas, particularmente a família do proprietário do ferro-velho que desmontou a cápsula de Césio-137 e distribuiu o pó luminescente entre familiares e vizinhos, e nas falhas de comunicação que tornaram possível a contaminação de dezenas de pessoas antes que qualquer autoridade fosse alertada.

Enquanto Chernobyl é uma crítica ao sistema que causou o desastre, Emergência Radioativa é uma narrativa sobre como o desastre foi vivido por pessoas que não dispunham dos instrumentos cognitivos necessários para reconhecer o perigo a que estavam expostas. A distinção é analiticamente relevante, pois a perspectiva sistêmica tende a produzir interpretações políticas sobre responsabilidade e estrutura, a perspectiva humanizada tende a produzir empatia e reflexão sobre a vulnerabilidade das populações diante de riscos que não conseguem nomear.

Existe uma interrogação que atravessa, como fio subterrâneo, as duas catástrofes nucleares representadas nas séries e a sindemia de Covid-19 que as leituras contemporâneas inevitavelmente convocam, a de como tornar compreensível, para populações amplas e heterogêneas, um perigo que os olhos não enxergam, que o corpo não sente de imediato, e cujos efeitos se manifestam de forma diferida, silenciosa, muitas vezes irreversível. A radiação e o vírus são, ambos, riscos ontologicamente invisíveis, pois sua existência só pode ser certificada por instrumentos de medição, e seus efeitos sobre os organismos vivos só se tornam perceptíveis após um lapso temporal que frequentemente impossibilita o estabelecimento imediato de nexo causal pelo senso comum.

É precisamente essa invisibilidade que torna a mediação informacional não apenas relevante, mas constitutiva da resposta social às catástrofes. Sem ela, não existe proteção coletiva possível, com ela malconduzida, o dano pode ser amplificado de formas que nenhuma medida técnica posterior consegue inteiramente reparar.

No caso de Tchernóbil, essa invisibilidade foi deliberadamente instrumentalizada pelo aparato político, visto que as autoridades da União Soviética demoraram cerca de 36 horas para iniciar a evacuação de Pripyat, cidade a menos de três quilômetros do reator, e o governo só reconheceu publicamente a gravidade do acidente após a detecção de níveis anômalos de radiação por monitores em usinas nucleares da Suécia, da Finlândia e da Dinamarca, isso quando a ocultação se tornara internacionalmente insustentável.

Svetlana Aleksiévitch, ao recolher centenas de depoimentos das vítimas para escrever o livro Vozes de Tchernóbil, documentou com precisão etnográfica as consequências dessa política do silêncio, trabalhadores mobilizados para os esforços de descontaminação sem informação sobre os riscos a que eram expostos; médicos proibidos de registrar “doença por radiação” em prontuários; familiares impedidos de receber os corpos de entes queridos, sem qualquer explicação formal. “Nem cientistas nem médicos”, registra uma das vozes recolhidas pela escritora bielorrussa, “a ciência servia à política, a medicina estava amarrada à política”. O testemunho poderia ter sido enunciado em Goiânia.

O desastre brasileiro não foi produto de um regime autoritário, e essa diferença torna seu padrão informacional ainda mais analiticamente revelador. Em plena Nova República, com imprensa relativamente livre e instituições democráticas em processo de consolidação, a gestão da informação sobre a contaminação por Césio-137 reproduziu, sob forma democrática, muitos dos mecanismos de opacidade observados na União Soviética. A Comissão Nacional de Energia Nuclear negou ter sido informada sobre o estado de abandono do equipamento radioativo; o texto do folheto explicativo destinado a alertar a população foi submetido a sucessivas rodadas de edição política que, segundo depoimento de uma das servidoras responsáveis pela redação técnica original, deixaram “pouca coisa” da versão inicial, dada a “preocupação muito grande com o aspecto político do acidente”.

O presidente da República na época, José Sarney, insistiu em distinguir o acidente radioativo de Goiânia do acidente nuclear de Tchernóbil, distinção tecnicamente pertinente, mas politicamente instrumentalizada para conter o alcance simbólico do desastre. O governador de Goiás na época, Henrique Santillo, declarou que ninguém mais havia sido exposto à radiação após o conhecimento público do acidente, afirmação que os registros posteriores da Agência Internacional de Energia Atômica demonstraram ser factualmente incorreta, pois novas exposições ocorreram durante os próprios trabalhos de descontaminação. O que se configura aqui não é a mentira centralizada e sistemática do regime soviético, mas uma opacidade democrática, difusa, produzida por combinação de negligência regulatória, pressão política e incapacidade, ou recusa, de comunicar o risco com precisão e honestidade.

As consequências dessa falha informacional não se limitaram ao período agudo da crise, pois a ausência de comunicação científica adequada gerou, no lugar do conhecimento, o preconceito. Moradores de Goiânia foram impedidos de circular e de comercializar produtos em outras regiões do país; a produção agropecuária goiana sofreu boicote expressivo; as próprias vítimas passaram a ocultar que haviam vivenciado de perto o desastre para evitar discriminação, situação espelhada, décadas antes, nas palavras de um dos entrevistados por Aleksiévitch, “De um dia para o outro, você se torna um homem de Tchernóbil. As pessoas não me deixavam entrar na casa delas”. O medo irracional do contágio por simples proximidade física com vítimas já descontaminadas, fenômeno fisicamente impossível, só é inteligível em um contexto de fracasso radical da comunicação de risco. Nesse ponto, a análise comparativa entre as duas séries e os eventos históricos que elas reconstroem revela algo que nenhuma das produções audiovisuais explicita com suficiente ênfase, a saber, as consequências da desinformação não são abstratas, elas se materializam em corpos excluídos, em vidas destruídas duas vezes, primeiro pela catástrofe, depois pelo preconceito que a ausência de conhecimento alimenta.

Quando a sindemia de Covid-19 chegou ao Brasil, em fevereiro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro caracterizou o novo coronavírus como “uma gripezinha” e recusou comparações com países europeus já em colapso sanitário sob o argumento de que o clima brasileiro seria incomparável ao italiano. O padrão era estruturalmente idêntico ao de 1987, minimização da gravidade, recusa de analogias com catástrofes análogas e subordinação da informação científica a cálculos políticos. Mas o contexto informacional era radicalmente outro, e essa diferença reconfigura inteiramente o problema. Se em Goiânia o problema era o silêncio, a informação que não chegava, o folheto esvaziado, os dados que permaneciam retidos, na sindemia de Covid-19 o problema se deslocou para o ruído, a informação que chegava em excesso, em todas as direções simultaneamente, sem hierarquia e sem critério de confiabilidade verificável, e frequentemente com intenção deliberada de enganar.

Esse fenômeno tem conceituação precisa na literatura especializada. Claire Wardle e Hossein Derakhshan propõem a noção de “information disorder” para descrever um ecossistema no qual circulam, de modo praticamente indistinto para os receptores, três tipos de conteúdo problemático, quais sejam, a misinformation, a desinformation e a malinformation. A sindemia de Covid-19 foi, concomitantemente, um evento de saúde pública e um evento de desordem informacional nos três sentidos, haja vista que circularam, de forma praticamente indistinguível para os receptores, afirmações científicas verificadas, erros de boa-fé, mentiras deliberadas e verdades seletivamente mobilizadas para fins políticos.

Plataformas digitais funcionaram como vetores de circulação maciça de recomendações sem respaldo científico, enquanto algoritmos de maximização de engajamento privilegiavam sistematicamente o conteúdo emocionalmente estimulante em detrimento do factualmente preciso. O resultado foi uma fragmentação da esfera pública na qual diferentes grupos passaram a consumir versões distintas, e por vezes radicalmente incompatíveis, da realidade. A crise sanitária foi também, de forma constitutiva, uma crise da mediação jornalística.

Seria, contudo, um equívoco analítico atribuir o problema da desordem informacional exclusivamente às plataformas digitais e à pós-verdade, como se o fenômeno fosse uma patologia tecnológica sem história. A desordem informacional não é um acidente técnico, mas a expressão de uma crise mais profunda da confiança nas instituições, crise cujas raízes podem ser rastreadas nos próprios padrões de opacidade e manipulação que caracterizaram a gestão informacional das crises anteriores.

A desconfiança que torna populações contemporâneas permeáveis à desordem informacional não surgiu do nada, ela é, em medida significativa, a resposta adaptativa de sujeitos que aprenderam empiricamente, ao longo de gerações, que as instituições minimizam, ocultam e distorcem quando seus interesses estão em jogo. Isso não implica que toda desconfiança institucional seja racionalmente justificada, nem que a desinformação constitua resposta legítima à opacidade governamental. Implica, antes, que o combate à desordem informacional não pode se limitar a estratégias de fact-checking ou de regulação das plataformas, mas precisa enfrentar o problema estruturalmente mais profundo da reconstrução da confiança entre as instituições produtoras de conhecimento especializado e os públicos que delas dependem para orientar suas decisões em contextos de risco. O que a comparação entre os três eventos revela, em última instância, é a falência empírica de uma hipótese que orientou boa parte do pensamento sobre comunicação pública nas últimas décadas, a de que mais informação gera, necessariamente, melhores decisões coletivas.

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Ramsés Albertoni é  professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutor em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador dos Grupos de Pesquisa: Arte & Democracia e Comunicação, Arte e Literacia Midiática.