
(Imagem: Reprodução/Captura de tela do programa Globo News Debate)
Os programas de debate na televisão brasileira parecem atravessar um deslocamento preocupante. A edição do “GloboNews Debate”, exibida no dia 12 de maio, não é um caso isolado, mas um retrato de uma mudança mais ampla, especialmente nos canais de jornalismo 24 horas.
O tema era “educação e papel dos homens nos tempos atuais”. Assunto relevante, que de fato precisa ser discutido. O problema não estava no assunto, mas na forma como foi produzido.
Em alguns momentos, o programa parecia menos interessado em construir uma conversa consistente e mais empenhado em produzir atrito. A divergência é parte fundamental do debate democrático, mas a dinâmica parecia organizada para potencializar confronto, reação e repercussão. Esse é justamente o incômodo.
É desconfortável ver profissionais experientes, gente que construiu credibilidade ao longo de décadas, sendo empurrada para um ambiente em que jornalistas e especialistas parecem pressionados a disputar atenção o tempo todo pela divergência com convidados sem trajetória pública consolidada no tema ou reconhecida autoridade no assunto. Aos poucos, sobra menos espaço para explicar, perguntar, corrigir e sustentar um diálogo construtivo, que ensina, promove conhecimento e transmite respeito. No lugar disso, ganham força frases de efeito, como “mulheres mataram mais que homens”, respostas rápidas e momentos de tensão que já parecem prontos para circular fora da televisão, mesmo quando não se sustentam em fatos.
Nem todo conflito aprofunda uma discussão. Às vezes, como neste caso, apenas empobrece o debate. O que chama atenção é que isso já não acontece apenas nas redes sociais. A lógica das plataformas passou a reorganizar também os fluxos editoriais da televisão. Muitos programas já parecem concebidos não apenas para quem assiste ao vivo, mas para a circulação posterior em cortes, chamadas e publicações isoladas. Se antes a repercussão era consequência do debate, agora ela parece participar da própria construção editorial do programa.
Não por acaso, 24 horas depois da exibição do programa, a discussão já aparecia multiplicada em ao menos dez publicações em um dos perfis da própria emissora em uma rede social. Quase sempre no mesmo formato, com cortes curtos, frases mais inflamadas, respostas atravessadas, momentos de tensão e discordância.
O telespectador que não viu o programa inteiro, consumiu fragmentos isolados da conversa, que quase nunca carregam contexto. O resultado disso é preocupante, pois ao mesmo tempo que o alcance se amplia, diminui-se a capacidade de informar. O debate deixa de circular como uma reflexão e passa a circular como reação. Uma rápida pesquisa sobre a repercussão dessa edição mostra o que acabou se impondo como elemento mais evidente do debate.
O problema em questão não é o jornalismo ocupar as redes. Seria ingenuidade imaginar o debate público distante do ambiente digital. A questão é mais profunda e anterior: quando a lógica da circulação digital passa a influenciar também o que vai ao ar na televisão, quem é convidado, como o debate é organizado e quais momentos parecem destinados a sobreviver como recortes nas plataformas. Nesse sentido, edições como esta em questão e seus desdobramentos demonstram como a televisão já não apenas distribui seus conteúdos por múltiplas plataformas, mas também começa a produzir seus programas sob a lógica e a pressão delas.
Notadamente, o ator convidado para falar sobre educação e o papel dos homens, não chegou ao debate como alguém com reconhecida formação, pesquisa ou experiência profissional na área. O problema está justamente nesse aspecto, quando a visibilidade de figuras nas redes passa a ocupar o lugar de critérios jornalísticos que legitimam um debate público sensível e com vozes relevantes.
O jornalismo perde força quando abre mão daquilo que lhe dá sentido e o diferencia, com mediação, contextualização, hierarquia da informação e responsabilidade editorial. E isso se torna ainda mais delicado num momento em que o Brasil se aproxima de mais um ciclo eleitoral, em um ambiente já marcado pela circulação massiva de desinformação, extremismo político e discursos negacionistas. Em contextos assim, critérios editoriais importam ainda mais. Escolher quem fala, sobre o que fala e em que condições fala não é um detalhe, mas parte essencial da responsabilidade da imprensa.
A própria frase usada para divulgar o programa talvez revele parte desse tensionamento: “Diferentes vozes, diferentes visões. Você forma a sua”. O slogan tenta sintetizar uma ideia de pluralidade, mas também carrega uma isenção “confortável”, como se bastasse reunir opiniões divergentes para que o debate se resolvesse sozinho.
Jornalismo não é apenas exposição de versões ou lados. Seu papel é organizar o debate público com critério jornalístico. Por isso, é preciso reconhecer a diferença entre diversificar vozes e colocar no mesmo plano falas sustentadas por pesquisa, experiência e responsabilidade pública, com opiniões construídas para provocar reação e engajamento.
A edição posterior do programa, no dia 19 de maio, ajuda a evidenciar esse contraste. O programa recebeu uma socióloga e dois filósofos para discutir sobre diálogo e escuta em tempos de polarização. Resta esperar que a escolha não tenha servido apenas para responder à repercussão negativa, mas para sinalizar uma retomada do papel editorial do programa.
Nem toda opinião contribui da mesma forma para um debate qualificado. E reconhecer isso não diminui o jornalismo, ao contrário, sustenta sua relevância social. Quando as vozes em cena servem mais à repercussão do que à compreensão pública, amplia-se a circulação, mas esvazia-se o sentido do conteúdo. Para o jornalismo, isso deveria ser alerta e não uma métrica de sucesso.
***
Vitor Belém é Jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador Pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia. Foi repórter e produtor de TV e atua como pesquisador na área de jornalismo audiovisual. Lidera o grupo de pesquisa Jornau.
