Segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1374

O centenário como espetáculo: análise crítica do documentário The New Yorker at 100

(Foto: ClickerHappy/Pexels)

Quando uma instituição jornalística celebra cem anos de existência, espera-se algo além de confetes e champanhe. Espera-se reflexão, autocrítica, o exame rigoroso das escolhas que moldaram não apenas uma publicação, mas toda uma maneira de pensar o jornalismo cultural e político nos Estados Unidos. O documentário The New Yorker at 100, dirigido por Marshall Curry e lançado pela Netflix em dezembro de 2025, oferece, no entanto, uma experiência que oscila entre o registro histórico valioso e o infomercial sofisticado. A primeira capa da revista, lançada em 21 de fevereiro de 1925, apresenta um cavalheiro de cartola observando uma borboleta através de um monóculo. Esta capa foi desenhada por Rea Irvin, que também desenvolveu a fonte que a revista usa para sua logo e manchetes. O cavalheiro da capa original é Eustace Tilley, uma personagem criada para The New Yorker por Corey Ford.

Ao optar pelo tom festivo em detrimento da investigação, o filme revela tanto sobre a revista quanto sobre os limites da autorreflexão institucional no jornalismo contemporâneo. Curry, cineasta reconhecido por documentários que mergulham em questões sociais complexas como Street fight e If a tree falls, encontra-se aqui em território mais seguro, talvez excessivamente seguro. O diretor que antes investigava radicalização política e corrupção municipal parece ter guardado seu bisturi crítico na gaveta. O resultado é um documentário que funciona melhor como peça promocional do que como análise jornalística sobre jornalismo, uma ironia que não passa despercebida quando o tema é justamente uma revista que se orgulha de seu rigor editorial.

A estrutura narrativa escolhida já anuncia o tom: celebridades declaram seu amor à publicação enquanto a câmera passeia pelos corredores da redação durante a preparação da edição centenária de fevereiro de 2025. Julianne Moore narra, Jon Hamm, Sarah Jessica Parker e Jesse Eisenberg testemunham, e o espectador é convidado não a questionar, mas a reverenciar. O elenco de estrelas funciona como um coro grego que entoa sempre a mesma ode, “a revista é incrível, não é?”. Esta pergunta retórica substitui interrogações mais incômodas que um documentário deveria formular.

E as perguntas não formuladas são muitas. Como uma publicação fundada explicitamente para “sofisticados de Manhattan”, e não para as “senhorinhas de Dubuque”, na expressão tristemente reveladora de Harold Ross, conseguiu manter sua influência em um país cada vez mais consciente das desigualdades geográficas e culturais? De que maneira o elitismo assumido da revista moldou não apenas quais histórias foram contadas, mas principalmente quais vozes foram sistematicamente excluídas durante décadas? Como uma instituição que se posiciona como liberal e progressista convive com a reputação de ser uma fortaleza do establishment cultural branco e privilegiado?

O documentário flerta com essas questões, mas sempre recua antes de aprofundá-las. Menciona-se o elitismo, mas apenas para reafirmar que, apesar disso, a revista mantém “influência global”. A trajetória é descrita como gloriosa, com breves reconhecimentos de que ela também foi elitista, sem nunca examinar como esse elitismo não foi um defeito periférico, mas sim constitutivo da identidade da publicação. É como se o documentário dissesse, “sim, somos elitistas, mas nosso jornalismo é tão bom que isso não importa”. Trata-se de uma defesa que soa cada vez mais anacrônica em 2025.

A escolha de focar na produção da edição centenária oferece um fio narrativo conveniente, mas também revela as limitações da abordagem. Acompanhamos reuniões de pauta, debates sobre capas e discussões sobre o tom editorial em tempos conturbados. Uma sequência sobre a cobertura do comício de Donald Trump no Madison Square Garden em 2024, evento que ecoou a reunião nazista do German American Bund no mesmo local em 1939, sugere que o filme poderia ter explorado como a revista navega a polarização política contemporânea. Porém, o potencial crítico se dissipa rapidamente, a mensagem implícita é clara, The New Yorker age acima da concorrência, como se a própria revista operasse em um plano moral e intelectual superior, imune às mesmas pressões e tentações que afligem outros veículos.

Esta postura revela um problema mais profundo, a incapacidade de reconhecer que o jornalismo, por mais rigoroso que seja, nunca é neutro, nunca está acima dos conflitos que documenta. Ao apresentar a revista como uma entidade quase transcendental, o documentário reproduz exatamente a autoimagem mitificada que deveria estar examinando criticamente. O rigor do departamento de checagem, comparado por ex-funcionários a uma “colonoscopia editorial”, é celebrado como uma virtude absoluta, sem questionar como esse mesmo rigor pode servir para blindar narrativas convenientes e silenciar perspectivas dissidentes.

Os momentos históricos destacados são, de fato, impressionantes, como o texto de John Hersey sobre Hiroshima que ocupou uma edição inteira em 1946, os trechos de Silent spring, de Rachel Carson, em 1962, que impulsionaram o movimento ambientalista, a publicação de In cold blood, de Truman Capote. Estes são marcos inegáveis do jornalismo literário estadunidense. Contudo, o documentário não pergunta por que essas conquistas coexistiram com décadas de ausência de diversidade na redação, como uma revista que publicou Hiroshima também publicou, durante anos, cartuns que hoje seriam considerados profundamente problemáticos. Ou o que a seleção de vozes literárias, predominantemente brancas, frequentemente masculinas, quase sempre vindas de circuitos acadêmicos privilegiados, revela sobre os gatekeepers culturais?

O documentário reduz a participação de Art Spiegelman e o seu trabalho na revista, apesar de ele ter sido um colaborador influente e criador de capas icônicas, como a capa totalmente preta do 11 de Setembro, desenvolvida em colaboração com a editora de arte Françoise Mouly, que reposicionou a silhueta das Torres Gêmeas no W da logo do periódico, criando uma imagem fantasmagórica em preto sobre preto que revela as torres apagadas no escuro. A omissão pode estar relacionada a tensões entre Spiegelman e a atual liderança da revista, especificamente com o editor David Remnick, que é uma figura central no documentário. Spiegelman trabalhou para a revista por dez anos após ser contratado por Tina Brown, em 1992, mas se demitiu alguns meses após os ataques de 11 de setembro de 2001, citando divergências com a direção editorial. O documentário parece ter evitado figuras que tiveram desentendimentos públicos com a revista, talvez por isso não se aprofundou neste conflito, não investigando o que Spiegelman viu que o levou a abandonar a publicação. É um momento de tensão que poderia ter aberto caminho para uma discussão honesta sobre os limites editoriais da revista, sobre como o prestígio institucional às vezes funciona como mecanismo de contenção do pensamento radical.

A cobertura política da revista também merece escrutínio mais cuidadoso do que o oferecido pelo documentário. Menciona-se que a revista quebrou 80 anos de precedente ao publicar apoio formal a John Kerry, em 2004, mas não se examina o que esta mudança significou. Foi um momento de coragem editorial ou o reconhecimento tardio de que a pretensa neutralidade sempre foi uma ficção? De que maneira as reportagens de Seymour Hersh sobre Abu Ghraib e a invasão do Iraque coexistiram com a cobertura cultural que frequentemente parece desconectada da realidade de grande parte do país?

O documentário também perde a oportunidade de discutir seriamente o modelo de negócios da revista em tempos digitais. Menciona-se brevemente a pressão por audiência na era digital, mas sem explorar como esta pressão transforma o jornalismo. Como a The New Yorker equilibra seu paywall, que inevitavelmente restringe acesso a quem pode pagar, com a ambição de ser uma voz relevante nos debates públicos? A aquisição pela Advance Publications, em 1985, é citada como fato histórico, mas não se questiona como a propriedade corporativa influencia as decisões editoriais. O pacote multimídia que acompanha o centenário, coletânea de ficção, mostra de filmes, documentário na Netflix, é apresentado como celebração cultural, não como estratégia comercial.

Curry, em seus trabalhos anteriores, demonstrou habilidade para usar o acesso privilegiado de forma crítica, para expor as contradições de seus personagens mesmo enquanto os retrata com empatia. Aqui, o acesso aos bastidores da revista parece ter funcionado como sedução. As cenas de redação são elegantes, as tradições internas são apresentadas com carinho, como os exercícios de calistenia de uma editora de charges, mas tudo permanece na superfície do pitoresco. O filme nos mostra o como da produção da revista, mas não investiga profundamente o porquê e o para quem.

É revelador que o documentário seja mais bem-sucedido quando funciona como arquivo histórico. As imagens de arquivo são realmente valiosas, os depoimentos sobre reportagens marcantes são informativos, e para quem nunca teve contato com a publicação, o filme pode servir como introdução útil. Mas esta utilidade é precisamente o problema, haja vista que um documentário sobre o centenário de uma das mais influentes publicações jornalísticas do mundo não deveria se contentar em ser meramente útil ou elegante. Deveria ser essencial, incômodo, revelador.

A ausência de vozes críticas externas é particularmente notável. Onde estão os acadêmicos que estudam mídia e poder? Onde estão os jornalistas de outras publicações que poderiam oferecer perspectiva comparativa? Onde estão as vozes daqueles que foram preteridos pela revista, que submeteram textos rejeitados, que viram suas histórias não contadas? Um documentário verdadeiramente investigativo sobre The New Yorker incluiria não apenas os que amam a revista, mas também aqueles que a veem como símbolo de um jornalismo que frequentemente reproduz exclusões sociais mesmo quando pretende denunciá-las.

O resultado é um filme que será apreciado pelos já convertidos, leitores fiéis que encontrarão no documentário a confirmação de seu gosto refinado, mas que pouco contribui para uma compreensão crítica do papel da revista no ecossistema midiático americano e global. Para um veículo que se orgulha de seu departamento de checagem obsessivo e de sua tradição de jornalismo investigativo, é irônico que o documentário sobre sua própria história seja tão pouco investigativo.

The New Yorker at 100 funciona, em última análise, como sintoma daquilo que deveria estar diagnosticando, isto é, a dificuldade das instituições jornalísticas em se submeterem ao mesmo escrutínio crítico que aplicam a outros. O documentário é polido, bem produzido, repleto de informações interessantes, mas carece precisamente daquilo que a própria revista afirma valorizar, a disposição de fazer perguntas difíceis, de incomodar, de olhar além das aparências confortáveis.

Para o público brasileiro, acostumado a ver The New Yorker citada como referência absoluta de excelência jornalística, o documentário oferece a chance de conhecer melhor uma instituição frequentemente mitificada. Mas seria mais produtivo assistir ao filme com olhar cético, perguntando-se não apenas sobre o que ele mostra, mas principalmente sobre o que escolhe não mostrar. O que significa celebrar cem anos de uma revista em um momento de crise democrática e aprofundamento de desigualdades? Como as práticas jornalísticas celebradas no filme, o rigor, a extensão, o refinamento estilístico, podem também funcionar como barreiras de classe e instrumentos de distinção social?

O documentário de Marshall Curry é, afinal, um brinde elegante de aniversário. Mas jornalismo, mesmo quando celebra a si mesmo, deveria ser mais do que champanhe e canapés. Deveria ser o momento de olhar no espelho sem retoques, de perguntar se a sofisticação que tanto orgulha a publicação não é também, frequentemente, uma forma de blindagem contra mudanças necessárias. The New Yorker pode ter cem anos, mas a pergunta que o documentário não faz, e que precisaria fazer, é se esses cem anos construíram pontes ou muros entre o jornalismo de excelência e o público que deveria servir.

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Ramsés Albertoni é Professor de Artes, Pesquisador de Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador do Grupo de Pesquisa Arte & Democracia.