
(Foto: Leeloo The First/Pexel)
Há perguntas que, ao serem formuladas, já entregam o tamanho do que não serão capazes de compreender. “A inteligência artificial vai substituir o jornalista?” é uma delas. Faz barulho, provoca medo, dá manchete. Mas talvez esconda o essencial.
A máquina já escreve sozinha há muito tempo. As primeiras experiências de automação jornalística datam da década de 1970, com previsões do tempo. Depois vieram notas curtas sobre esportes, finanças, eleições, crimes, terremotos, trânsito. Textos sem assinatura, alimentados por bases de dados, com estruturas narrativas desenhadas antes por humanos. Não era fantasma na redação. Era software, tabela, algoritmo, trabalho humano escondido no começo da engrenagem.
É por isso que a pergunta sobre substituição chega com atraso. Não porque a automação da escrita seja irrelevante. Mas porque ela já estava sentada no canto da sala havia décadas, fazendo o serviço que lhe cabia. O que mudou foi o lugar da cadeira. A inteligência artificial deixou de aparecer apenas como ferramenta de produção ou distribuição. Ela começou a se apresentar como o lugar onde o público pergunta, recebe respostas, acredita no que lê ou escuta e vai embora, julgando-se “informado”.
A novidade, logo, não é a máquina escrever uma nota sobre a chuva. A novidade é a reportagem deixar de aparecer como origem e passar a funcionar como infraestrutura invisível de uma resposta que parece nascer sozinha.
Durante anos, o jornalismo digital viveu de uma negociação ruim, mas reconhecível. O leitor buscava uma informação, encontrava uma lista de resultados, clicava, chegava ao veículo. Mesmo quando a plataforma mandava no percurso, ainda havia chegada. A pessoa entrava num site, via uma marca, encontrava uma assinatura, reconhecia uma linha editorial, talvez voltasse. O veículo era destino, mesmo quando dependia de porteiros que cobravam caro demais pela passagem.
Agora a porta começa a se comportar como casa. O usuário pergunta ao ChatGPT, ao Perplexity, ao Google com seus resumos de IA. O sistema recolhe pedaços de mundo produzidos por outros, mastiga, ordena e entrega uma resposta suficiente. Suficiente é uma palavra perigosa. O usuário pode clicar no link. Muitas vezes não clica. Já leu o que precisava. A reportagem continuou sendo a fonte de verdade, mas deixou de ser o lugar da experiência.
A arquitetura nova cobra o pedágio. No relatório Journalism, Media, and Technology Trends and Predictions 2026, o Reuters Institute registrou que, entre novembro de 2024 e novembro de 2025, o tráfego orgânico vindo do Google para mais de 2.500 sites de notícia caiu 33% no mundo e 38% nos Estados Unidos. O mesmo relatório apontava que publishers projetavam perder 43% do tráfego de busca nos três anos seguintes. No início de 2025, relatório da TollBit indicou que bots e agentes de IA geravam, em média, 95,7% menos tráfego de clique do que a busca tradicional do Google.
Não é apenas o público que se distraiu no caminho. O caminho foi redesenhado para que ele não precise mais chegar aonde chegava.
O jornalismo se formou, na internet, dentro de uma economia da visita. A inteligência artificial propõe uma economia da extração. Ela precisa do jornalismo para responder melhor, mas não precisa devolver na mesma medida a atenção, a autoria, a remuneração e o vínculo direto com quem sustentou a resposta.
Talvez seja preciso imaginar a informação como uma cadeia alimentar. Na base está a reportagem original. Ela exige tempo, deslocamento, documentos, entrevistas, risco, presença em campo, responsabilidade editorial. É a parte menos glamourosa e mais decisiva do sistema. Acima dela crescem as camadas de agregação, distribuição e síntese. No topo, cada vez mais, aparecem máquinas capazes de consumir tudo isso e devolver ao usuário uma resposta polida, limpa, sem lama no sapato.
O topo parece leve porque a base carrega o peso.
A disputa, portanto, não é pela frase. É pela mediação. O jornalismo sempre organizou parte do acesso ao mundo. Decidiu o que merecia cobertura, conferiu visibilidade a certos temas, legitimou fontes, errou, corrigiu, foi cobrado, voltou ao assunto. A inteligência artificial disputa todas essas funções ao mesmo tempo. Sintetiza o acesso. Escolhe o que entra na resposta. Apresenta a mistura como algo confiável. O conteúdo continua indispensável. A mediação muda de dono.
Quando uma reportagem entra numa síntese e a marca do veículo jornalístico se apaga, não some apenas um logotipo. Some a história de quem apurou, editou, bancou, errou; respondeu quando foi questionado. Some a possibilidade de o leitor saber a quem agradecer, a quem assinar, a quem cobrar. O Tow Center, em estudo publicado pela Columbia Journalism Review, testou o ChatGPT com 200 trechos de reportagens de 20 veículos. O resultado foi uma coleção de desaparecimentos: 89 respostas atribuíram o conteúdo ao veículo errado, 57 foram parcialmente corretas e apenas 47 identificaram corretamente a fonte. Em somente 7 casos o sistema admitiu não saber. No restante, respondeu com a segurança peculiar de quem erra sem corar.
O erro de atribuição não é falha menor de rodapé. É uma rachadura na confiança. E a marca jornalística é feita exatamente de repetição, memória e responsabilidade.
O caso da Folha de S.Paulo mostra o paradoxo com nitidez quase cruel. Em agosto de 2025, a Folha entrou com ação contra a OpenAI, acusando a empresa de uso sistemático de seu arquivo sem autorização e sem compensação. Segundo a ação, o domínio do UOL aparecia em repositório público do GitHub da OpenAI com aproximadamente 20 mil referências. Ainda segundo a Folha, somente em julho de 2025, os servidores do jornal registraram mais de 45 mil acessos de GPT bots com finalidade declarada de treinamento. A ação também apontava que reportagens protegidas por paywall apareciam na íntegra em respostas do ChatGPT. Nove meses depois, em maio de 2026, Folha e UOL assinaram acordo com a OpenAI. Passariam a compartilhar notícias em tempo real para alimentar o ChatGPT, em troca de ferramentas corporativas e compensação financeira não divulgada. A narrativa oficial falava em parceria e resumos com links para as fontes originais. Parecia um acordo entre iguais. Mas a igualdade, nesse caso, cabe melhor no comunicado do que na realidade. A Folha levou a disputa à Justiça. A realidade a trouxe de volta à mesa de negociação.
Não há pureza possível nesse debate. Os grandes veículos sabem disso. O New York Times processou a OpenAI e a Microsoft em dezembro de 2023 e, ao mesmo tempo, passou a estruturar iniciativas internas de IA. Para o Times, a diferença está no uso: a IA aparece não como substituta da escrita jornalística, mas como ferramenta de apoio à investigação, à análise e ao trabalho editorial. Le Monde fechou acordos com OpenAI, Perplexity e Meta. Nos acordos com OpenAI e Perplexity, aceitou repassar 25% da receita de licenciamento aos jornalistas; no caso da Meta, também tratou a receita como valor a ser compartilhado com a redação. O detalhe importa porque devolve ao trabalho jornalístico parte de um valor gerado a partir dele próprio, num momento em que o custo anual da redação ainda superava a receita digital. A Axel Springer fez talvez a síntese mais honesta da época: negociou e combateu ao mesmo tempo. Fechou acordo e advertiu publicamente que grandes modelos de linguagem poderiam destruir completamente a mídia como a conhecemos. A contradição não foi resolvida. Apenas deixada respirar em público.
Processar pode ser necessário. Licenciar pode ser inevitável. Usar IA dentro da redação pode ser inteligente. Mas nenhuma dessas respostas, sozinha, toca no nervo mais exposto: quem ficará com a relação construída pelo jornalismo ao longo de décadas? Quem será lembrado quando uma informação mudar a compreensão de alguém sobre o mundo? Quem será cobrado quando a síntese errar?
A IA chama de dados aquilo que muitas vezes é reportagem. A palavra ajuda a anestesiar. Dados parecem coisas soltas, naturais, disponíveis como pedra de rio. Reportagem não é isso. Tem custo, origem, conflito, autoria, método, escolha, presença. Alguém pagou para que uma pessoa estivesse lá. Alguém editou. Alguém assumiu a responsabilidade de publicar. Alguém pode ser processado. Alguém pode voltar para casa com medo. No topo da cadeia, tudo isso vira conteúdo.
A saída não será competir com a máquina naquilo que ela faz com mais velocidade e menos vergonha: volume, repetição, resumo genérico, texto sem corpo. O jornalismo que tentar vencer a IA fingindo ser IA morrerá por dentro antes de desaparecer por fora. O que ainda pode sustentá-lo é justamente o que custa mais e rende menos no curto prazo: reportagem original, curadoria assumida, interpretação com assinatura, relação direta com leitores, marca visível, presença humana, coragem institucional. Não como ornamento. Como núcleo.
A máquina pode resumir o mundo. Mas não conhece o peso de bater numa porta. Não sabe o que é insistir numa pergunta quando alguém poderoso tenta encerrar a conversa. Não atravessa uma cidade para ouvir quem ninguém escuta. Não constrói confiança por décadas. Não sabe o que é perdê-la em um dia. Ela depende desse trabalho. Mas pode aprender a escondê-lo.
O risco maior, portanto, não é a IA produzir conteúdo. O risco é o jornalismo aceitar ser reduzido à comida de uma inteligência que aparece como se tivesse cozinhado. A reportagem virar matéria-prima sem rosto, sem remuneração proporcional, sem vínculo com o público, enquanto a interface ocupa a cadeira, a mesa, a porta e a voz.
A pergunta “a IA vai substituir o jornalista?” nos distrai porque ainda imagina uma redação invadida por máquinas escrevendo no lugar de repórteres. O movimento verdadeiro é menos cinematográfico e mais perigoso. A IA não precisa expulsar o jornalista da redação para enfraquecer o jornalismo. Basta ficar entre ele e o leitor. Basta transformar fonte em insumo. Basta fazer do veículo uma presença citável, mas dispensável.
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Marcelo Santos é jornalista e Diretor da Faculdade Cásper Líbero.
