
Assinada por Eduarda Martins, estudante de Comunicação Social, poeta, compositora, arte-educadora e pesquisadora da cultura popular, a coluna transforma notícia em verso. (Foto: Reprodução / @ovaufpe)
A forma como as pessoas se informam mudou drasticamente nos últimos anos: o avanço da desinformação, a sobrecarga de conteúdo e a migração do público para as redes sociais como principal porta de entrada da notícia vêm desafiando o jornalismo a encontrar outras maneiras de se fazer ouvir. Dados do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo apontam que, em 2024, 47% dos brasileiros afirmaram evitar notícias com frequência ou ocasionalmente – é um índice superior aos 41% registrados no ano anterior. Entre as razões mais citadas está o excesso de conteúdos negativos e considerados pesados demais.
É diante desse cenário que nasce o Versos da Notícia, projeto de extensão desenvolvido no Observatório da Vida Agreste (OVA), laboratório da Universidade Federal de Pernambuco no Centro Acadêmico do Agreste (UFPE-CAA), em Caruaru, coordenado pela professora Fabiana Moraes, do curso de Comunicação Social.
A proposta é simples e segue uma tradição comum no Nordeste brasileiro: transformar os acontecimentos em versos rimados. A coluna foi idealizada e é escrita por Maria Eduarda Martins da Silva, estudante de Comunicação Social da UFPE-CAA, conhecida no agreste pernambucano pelo personagem “Menina do Chapéu”. Toda sexta-feira, ela versa a notícia e grava vídeos declamando os textos para as plataformas digitais.
A construção segue, como dito, a tradição do cordel: sextilhas em sete sílabas poéticas, com espaço para a variação métrica que os poetas tradicionais chamam de “pé quebrado”. A identidade visual, assinada pelo designer Ronald José Barros Ferro, costura a pena do poeta ao microfone do repórter, com traços arabescos que remetem ao artesanato em couro e à arquitetura colonial do Recife.
O projeto se apoia na teoria da Folkcomunicação, formulada por Luiz Beltrão (1980), que reconhece nos grupos marginalizados linguagens e expressões culturais próprias para produzir e fazer circular informação. Também dialoga com os estudos de José Ossian Lima (1975) sobre cordel e jornalismo, que descrevem a figura do poeta-repórter: aquele que não apenas narra, mas critica, satiriza e analisa os acontecimentos, gerando interpretação e pensamento crítico. Antes de jornais e rádios chegarem ao interior do país, era assim que a notícia circulava.
Entre as edições já publicadas estão “Corpo morto em colo vivo“, “O que era sonho e futuro, virou medo de viver“, “Cuide em tirar o título de eleitor” e “É uma Empresa 6×1 ou Igreja 0x0?“, que versa sobre a tramitação da PEC do fim da escala 6×1 e a PEC da imunidade tributária das igrejas. Na coluna de apresentação, a autora define a própria posição: “Eu sou Eduarda Martins / Repórter em construção”.
A circulação acontece em quatro plataformas (Instagram, TikTok, Medium e Substack), escolha que responde ao público que o projeto quer alcançar: nem uma faixa etária específica, nem um repertório literário prévio. Há, porém, uma aposta particular na reconquista do leitor mais experiente, oferecendo informação confiável num ambiente que costuma afastá-lo pelo excesso de ruído.
O projeto Versos da Notícia foi apresentado recentemente no 26º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste (Intercom Nordeste), realizado em Caruaru, no GT de Folkcomunicação, mídias e interculturalidades, em trabalho assinado por Maria Eduarda Martins da Silva e Fabiana Moraes. O OVA reúne pesquisas e ações de extensão sobre mídia e comunicação a partir do contexto sociocultural do agreste pernambucano, no Núcleo de Design e Comunicação da UFPE.
Leia os versos “É uma Empresa 6×1 ou Igreja 0x0?”
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Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade.
Edu Martin é arte-educadora de Literatura e Audiovisual, técnica em Marketing e estudante de Comunicação Social na UFPE-CAA. Desenvolve projetos que unem cultura popular e audiovisual em suas redes sociais.
