Sexta-feira, 4 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1404

Produções universitárias tentam reverter cenário de descrença no jornalismo

O Observatório da Vida Agreste (OVA) investe em produções que se apropriam da lógica das redes para informar. (Foto: Acervo do laboratório)

Declínio no engajamento e estagnação de assinaturas marcam os resultados do último estudo sobre o consumo de notícias mundo afora, elaborado pelo Reuters Institute no ano passado. No Brasil, de 2015 a 2025, a confiança em conteúdos jornalísticos caiu de 62% para 42%, e a queda mais significativa foi registrada entre 2015 e 2023, com influência da crescente polarização política no período. Mas laboratórios de jornalismo extracurriculares em graduações do país tentam subverter o quadro por meio de pautas focadas em soluções – e não apenas nos problemas –, aproximação com movimentos populares, e o investimento em novas formas de contar histórias, sem abandonar saberes fundamentais.

Um desses exemplos é o Observatório da Vida Agreste (OVA), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), localizado no campus de Caruaru. Sua origem reflete o caráter multidisciplinar do curso de comunicação, que vê a prática atrelada a outros conhecimentos, como história, fotografia e audiovisual.

O ambiente digital em que o OVA está inserido é marcado pelo predomínio de gigantes da tecnologia no contexto informacional e pelo recrudescimento da extrema direita, segundo destaca a coordenadora, jornalista e pesquisadora Fabiana Moraes. Para lidar com esse contexto, o laboratório investe em criações com linguagem clara, temas socialmente relevantes e narrativas provocativas, que à primeira vista podem não se encaixar nos padrões do jornalismo tradicional – o que não significa deixar de seguir métodos consolidados. “Precisamos experimentar outras maneiras diante do cenário de desinteresse, disputa de atenção e de evitar notícias. O jornalismo já mudou, mas a sensibilidade social para essa mudança ainda não aconteceu”, explica Fabiana. Ao lado dela trabalham a docente Giovana Mesquita, 2 estagiários e 35 alunos.

Inspirado na literatura de cordel, o Versos da Notícia – um dos cinco projetos de extensão do observatório – explora rimas, métricas e orações para entregar ao leitor fatos comumente encontrados nos enredos jornalísticos. A estudante Maria Eduarda Martins da Silva publica semanalmente em plataformas digitais uma coluna poetizada, narrando acontecimentos. No Instagram e no TikTok, Maria declama os conteúdos em vídeo. 

Até a Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2026 virou cordel. Os parágrafos de uma matéria habitual contam que “após sair perdendo, a seleção brasileira conseguiu a virada nos acréscimos do segundo tempo”. No OVA, a vitória foi contada assim: 

Neste Versos da Notícia, 

Vou agora poder contar 

Sobre um tal goleiro aí 

Que as traves fez assustar 

Defendeu tudo que pôde, 

Mas uns dois deixou passar.

[https://www.instagram.com/ovaufpe/reel/DaWMKbyRhgL/]

À frente do Versos da Notícia, Maria Eduarda Martins da Silva comenta o resultado do jogo na Copa do Mundo de Futebol Masculino deste ano. Vídeo: OVA (Imagem: Reprodução Instagram Ovaufpe)

Enquanto o Versos se baseia na Folkcomunicação de Luiz Beltrão e na noção de poeta-repórter de José Ossian Lima, outra iniciativa do OVA conta as notícias no padrão TikTok, com vídeos curtos e rolagem infinita. O consumo de conteúdo  estimulado pelo aplicativo alçou o “brain rot” ao status de palavra do ano em 2024, pelo Dicionário Oxford. Traduzido como deterioração mental, o termo refere-se ao ato de consumir excessivamente conteúdos de baixa qualidade por meio de uma tela diante da qual o usuário passa longas horas exposto a informações fragmentadas e repetitivas. 

“Vamos começar uma espécie de ‘arrume-se comigo’, algo muito comum na internet há bastante tempo”, diz Fabiana. A linguagem consiste em um texto simples, no tom de conversa, em que uma pessoa fala da própria vida enquanto se maquia ou se prepara para sair de casa. No caso do OVA, será usada para dar notícias. “Ninguém está defendendo o uso da formação [em jornalismo ou comunicação] para isso, mas são narrativas que dão certo nas redes e podem ser hackeadas, porque elas já fizeram isso com o jornalismo. Os laboratórios são fundamentais para essas testagens, para driblar a desatenção e o desinteresse em relação à informação”, conta a coordenadora.

Ajustar o foco

Na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, o projeto de extensão da faculdade de Jornalismo chama-se Anti-horário, mas seu objetivo, na verdade, é mudar os rumos dos assuntos abordados pela profissão, conforme observa o pesquisador Antonio Simões Menezes, criador da iniciativa. “A ideia é fazer uma contraposição à maior parte do conteúdo publicado nas mais diversas plataformas”, diz o professor.

A proposta nasceu em 2018 e, assim como o Observatório da Vida Agreste, investe em formas inovadoras de noticiar e levar histórias a comunidades próximas, como estudantes de escola pública do ensino médio e pessoas ligadas à universidade. O diferencial está no desejo de ressignificar critérios de noticiabilidade. 

“Somos treinados, desde a universidade, a focar no problema. Isso, claro, é um dos nossos pilares. Mas acreditamos que precisamos apresentar o que está funcionando. [Então] Partimos do problema, e a maior parte da narrativa envolve explicar quais evidências mostram a eficácia de soluções”, afirma o coordenador, autor do livro Jornalismo de Soluções (Appris).

A prática, segundo a Rede de Jornalismo de Soluções (Solutions Journalism Network), refere-se a uma “cobertura rigorosa e baseada nas evidências das respostas a problemas sociais”. Para Menezes, é também uma oportunidade de empoderamento da sociedade civil. “A gente dá indícios, mecanismos e informações para que a audiência possa cobrar autoridades, replicando a solução no seu contexto. As próprias pessoas podem perceber isso como um insight para resolver problemas semelhantes por conta própria.”

Após a realização de oficinas em escolas públicas para explicar o novo conceito, em 2022 foi lançada a revista digital Anti-Horário. “Queríamos utilizá-la como instrumento pedagógico para ajudá-los a entender o que é jornalismo de soluções. Fazíamos isso com outros materiais nossos, e narrativas de veículos independentes e mainstream. Porém, apresentando uma revista, contaríamos histórias da nossa região, cidade e estado”, explica Menezes. 

A partir da terceira edição – publicada em março de 2024 e intitulada Soluções na Periferia –, a revista foi solidificada como um projeto de extensão independente. Até o primeiro semestre de 2026, foram publicadas sete edições, cada uma explorando respostas para um problema ou um grande tema. A publicação já conquistou premiações como o 4º Prêmio Paulo Freire de Extensão, e uma reportagem levou o segundo lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, na categoria Jornalismo Universitário, em nível estadual.

Equipe da Anti-horário no lançamento da edição Soluções Tecnológicas, realizado na Fundação Parque Tecnológico da Paraíba. (Foto: Acervo da revista)

Todas as etapas do produto são desenvolvidas por estudantes da graduação em jornalismo, que aos poucos resgatam a fé na função social da profissão, conforme relatam ao coordenador. A partir do projeto, resolvem também a fadiga que eles próprios sentem como consumidores de notícias. “Vejo que estudantes voltam a se encantar, o olho volta a brilhar ao falar de jornalismo”, orgulha-se o pesquisador. 

“Cadê a notícia?”

Na contramão da busca pelo engajamento a qualquer custo, o Avoador nasceu, fugindo dos clickbaits e investindo em reportagens aprofundadas e notícias diárias sobre Vitória da Conquista, município baiano com população estimada em 396.613 pessoas. A iniciativa foi criada em 2016, no âmbito da disciplina Jornalismo Digital, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Hoje, une atividades do currículo obrigatório, mas também extracurriculares, no laboratório vinculado ao projeto de extensão Jornalismo de Transformação Social no Combate à Desinformação, idealizado  pela professora Carmen Carvalho. 

O site foi fundado com base em preceitos teóricos do pesquisador Adelmo Genro Filho e no desejo de estudantes interessados em impactar a realidade do interior baiano. 

“Para você ter uma ideia, havia blogs com publicações com duas linhas. E aí [os leitores] comentavam: ‘Cadê a notícia? Cadê as informações?’. O site surgiu para fazer uma provocação no mercado local e mostrar que as pessoas tinham interesse em ler material aprofundado sobre a cidade. Logo em 2017 já conseguimos bombar com uma reportagem sobre a violência obstétrica nos hospitais públicos e privados”, lembra Carmen. 

Em 2018, em meio ao período eleitoral da corrida à presidência da República, Vitória da Conquista entrou em ebulição, com atos de mais de 10 mil pessoas nas ruas. O movimento foi palco de experimentação do Avoador, que, além de publicar reportagens sobre o que estava acontecendo na cidade, aproveitou o alcance das redes sociais, fazendo coberturas ao vivo pelo Instagram e Facebook. Esse foi o ponto de partida para a expansão da iniciativa, que à época trabalhou com estudantes fora do cronograma da disciplina à qual estava ligada, sem a existência de um projeto de extensão. Os estudantes que realizaram as coberturas de forma voluntária se formaram em 2019, mas continuaram interessados em seguir produzindo material para o Avoador. “Então, conseguimos aprovação em edital da instituição e continuamos nosso trabalho”, conta a coordenadora.

Hoje a produção do site segue impulsionada pelo contexto curricular do curso de jornalismo da instituição, mas a maior parte do conteúdo ainda é feita pelas mãos de bolsistas. Após a pandemia, a redação ganhou espaço físico, e em 2023 Carmen conseguiu recursos via emenda parlamentar para bancar 10 bolsas – suporte que continua ativo, ao lado do apoio financeiro dado pela universidade. No ano passado, o laboratório optou por contratar uma jornalista, agora responsável por funções de edição. Karina Costa foi uma das estudantes que participaram das apurações em 2018.

Equipe do Avoador na Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, após receber Moção de Aplauso, em maio, pelo compromisso com o jornalismo local. (Foto: Equipe Avoador)

O nome Avoador indica uma tentativa de se aproximar da cultura local no sudoeste da Bahia: é assim que chamam um biscoito tradicional da região. De 2016 pra cá, a plataforma ganhou 12 editorias, como Maria Maria (espaço dedicado às mulheres), Olhares Urbanos (sobre personagens de Vitória da Conquista), Página Central (acontecimentos contraditórios) e Xereta, que assume a checagem de fatos – pelo crivo, passaram notícias sobre o bloqueio de energia a Cuba pelos EUA, áudios sobre vacinas e gastos presidenciais. Um dos trabalhos destacados por Carmen em texto publicado no Observatório da Imprensa é sobre as condições de trabalho dos entregadores de aplicativo. 

O projeto tem sido tão marcante para os estudantes que alguns, depois da graduação, fundaram mídias independentes e hiperlocais de jornalismo diário e investigativo na região, como o Conquista Repórter, criado pela hoje editora do Avoador, Karina Costa, ao lado de Afonso Ribas e Victória Lôbo, e o Coreto, operado principalmente por Raquel Rocha e Leila Costa, todos ex-alunos da Uesb. 

Juntos e além das fronteiras

No Magnífica Mundi, da Universidade Federal de Goiás (UFG), estudantes trabalham para manter vivos preceitos fundamentais do jornalismo acompanhando as transformações tecnológicas, investindo em múltiplas ações de extensão e priorizando pautas sociais.

Chamado de “complexo comunicacional” pelos criadores, o projeto acumula mais de duas décadas de atuação no campus Samambaia, em Goiânia, e se fez com base no contexto popular do final da década de 1970 até os anos 2000, período que influenciou a formação de jornalistas e professores que passaram pela UFG. Nesses anos, Goiânia presenciou um grande movimento de posseiros urbanos, ocupações e resistências populares, quando uma cooperativa de jornalistas e diversos veículos foram criados.

Nilton Rocha, hoje se despedindo do Magnífica, foi um dos profissionais impactados pelos eventos, quando também esteve à frente da cooperativa, e mais tarde, em 1984, viu a disciplina Comunicação Comunitária entrar no currículo das graduações pelo Brasil. Após o investimento em rádios livres, muito utilizadas pelas organizações populares, foi a vez de explorar as possibilidades da internet, ainda uma inovação nos anos 2000. “Aí nasce a nossa ideia (Magnífica Mundi), como tentativa de responder às demandas dos movimentos populares, que questionavam o que fazer com as tecnologias. Há um caráter antecipatório notório deles”, explica o coordenador. 

Na virada do século 20 para o 21, o Magnífica começou a operar a partir de uma transmissão três em um: web TV, web rádio e rádio comunitária gerida pela universidade. O passo seguinte foi investir em subprojetos, modelo que impera até hoje na iniciativa, vista como um “guarda-chuva” de intervenções curriculares e extracurriculares. “Fomos organizando os laboratórios segundo as demandas sociais. Queríamos que jornalistas tivessem uma formação competente, mas que movimentos fossem coorganizadores e cogestores do processo de produzir informação. Sempre apostamos que a tecnologia tem de ser radicalmente democratizada”, afirma Nilton. 

(Durante oficina de audiovisual promovida pelo Magnífica Mundi com professores da Escola Indígena Sagrado Coração de Jesus, além de mestrandos e doutorandos Bororos, no Mato Grosso. (Foto: Reprodução/Magnífica Mundi)

O objetivo principal, segundo Nilton, é produzir conteúdos acessíveis a qualquer um, mesmo que a pessoa não saiba ler e escrever. Conforme levantamento concluído em maio por Farol e Projor, sob o Magnífica Mundi, diversos projetos alteram a relação do jornalismo com o público, seja pelo impacto nas comunidades ou por meio do reconhecimento e circulação na imprensa. Entre eles estão a Rádio Kalungueira, realizada em um quilombo em Cavalcante (GO), proposto a partir do trabalho de conclusão de curso de um participante dos laboratórios; o Terra Encantada – gente miúda, direitos integrais, envolvido com produções audiovisuais, educomunicação, direitos humanos e que atua junto a pessoas do meio rural; a plataforma multimídia Berra Lobo; o Cine Clube Mãe D’Ouro e o Projeto Brabo, uma experiência audiovisual com o intuito de reverter a cegueira cultural entre Brasil e Bolívia.

Breve relato audiovisual das experiências intermediadas pelo Brabo. (Vídeo: Magnífica Mundi)

Asafh Lima, aluno que atualmente integra o Pretagonia – outra proposta da  Magnífica Mundi, com foco em ações de educomunicação antirracista –, já cruzou a fronteira para trabalhar com os vizinhos. A experiência prática que adquiriu até agora, afirma, envolve ensinar, mas também estar atento para escutar e ser ensinado. O afeto por um jornalismo mais conectado às pessoas é compartilhado pela estudante Ana Rodrigues, que também participa de iniciativas da “Mag”. “A Magnífica é muito diferente do que nos ensinam na teoria. É sobre quebrar barreiras, ensinar, aprender e se conectar com os diferentes povos.”

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João Neto é repórter na Matinal. Durante a graduação, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-FW), foi membro do milpa – laboratório jornalismo.