Quinta-feira, 30 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

Formatos tradicionais convivem com produtos digitais em laboratórios de jornalismo

Laboratório da UERJ, Lunar produz longas narrativas em áudio, como o especial Outros Carnavais, que conta a história do carnaval do Rio de Janeiro
(Foto: Raiane Oliveira / Lunar)

Apesar da queda vertiginosa na circulação dos jornais e revistas, o impresso sobrevive no mercado brasileiro, e está vivíssimo em laboratórios de jornalismo, assim como outros formatos consagrados, como o telejornalismo.

Mas as possibilidades pedagógicas da materialidade dos produtos tradicionais também são encontradas em trabalhos digitais, que predominam nesses espaços de experimentação. Longas narrativas em áudio, por exemplo, são capazes de superar a efemeridade da profusão de conteúdos descartáveis do ambiente online e engajam os estudantes de hoje.

Uma forte tendência à multimidialidade e o investimento em formatos tradicionais são alguns dos achados do levantamento realizado por Projor e Farol Jornalismo, em parceria com a Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ). Dos 44 projetos identificados pelo mapeamento, nove ainda imprimem jornais, revistas ou demais produções similares, e a maioria afirma trabalhar simultaneamente com texto, imagem, áudio e vídeo para compor narrativas.

Em Bauru, município paulista, o impresso ainda é o principal meio de circulação de informações e histórias sobre o bairro Jardim Nicéia. A comunidade está localizada a menos de 2 quilômetros da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e participa ativamente da confecção de um jornal, no contexto de um projeto de extensão sobre o cotidiano dos moradores. O Vozes do Nicéia é uma ferramenta coletiva de construção de cidadania, com caráter duplo: empodera moradores e fortalece o aprendizado de jornalistas em formação. A primeira edição foi publicada em maio de 2008, com reportagem de capa que denunciou o despejo de água suja em um córrego do bairro.

Firme em seu propósito de desnaturalizar o descaso do poder público e a precariedade de algumas situações no bairro, a publicação chegou à edição 54 em maio de 2026. Mas o laboratório não se restringe à produção impressa: há conteúdos sonoros, audiovisuais e outros produtos. No ano passado, os alunos realizaram uma oficina sobre desinformação no Jardim Nicéia, atividade que resultou em uma cartilha a respeito do tema. Por meio de uma lista de transmissão no WhatsApp, também envia boletins de áudio à população.

Alunos-repórteres do Vozes do Nicéia durante distribuição da edição 53 no bairro. (Foto: Divulgação / Vozes do Nicéia)

A professora Aline Camargo, coordenadora do projeto, reconhece nas ações dos alunos um potencial transformador e emancipatório, mais pela função do que pela forma. “No mundo ideal, o jornalismo comunitário seria feito de fato pela comunidade. A expectativa é que um dia a gente consiga envolvê-los no processo até que seja algo deles”, diz.

No Ceará, a 491 quilômetros de Fortaleza, também há atenção ao impresso. O projeto da Universidade Federal do Cariri (UFCA) reflete uma mudança importante. Ideia que começou a ser gestada em 2015 pelo colegiado da graduação, mas só virou realidade em 2024, o Laboratório de Experimentação Gráfica em Jornalismo (LEG) estimula alunos a explorar meios de transmitir informação, com cuidado especial em relação aos múltiplos aspectos da linguagem gráfica.

A história do projeto, hoje gerido por quatro docentes, se entrelaça com a trajetória e os interesses de uma das professoras. Quando a designer Juliana Lotif Araújo chegou à instituição de Juazeiro do Norte para lecionar, em 2013, o desenvolvimento de produtos visuais era contemplado pela estrutura do curso, mas de forma superficial. “Existia um trabalho de conclusão de curso que se chamava livro-reportagem. Quando o aluno entregava, era um documento do Word em espiral. Isso não é um livro”, reflete a professora. “Existia uma sensibilização quanto a essa área. [Mas] não existia a ideia de pensar graficamente o jornalismo e como ele pode estar presente nas suas materialidades”.

Forma e função, explica Araújo, ficavam em caixinhas separadas: a função de jornalista era associada à apuração e escrita do texto, e a composição gráfica era pensada como uma especificidade do design – ainda que o curso não fosse esse –, premissa que foi alterada.

Primeiras atividades do LEG, logo após a implementação do laboratório, em 2024. (Foto: Reprodução / LEG)

A virada teve início com a reformulação da estrutura pedagógica do curso de jornalismo, com a inserção de saberes gráficos, seguida da criação de uma disciplina e, posteriormente, do laboratório, que aos poucos ganhou novos servidores e sala adequada. Uma das expressões mais significativas da mudança é o projeto de extensão No meu bairro também tem, em que estudantes da UFCA ministraram oficinas sobre perfis jornalísticos e colagens a 100 jovens de cinco escolas do ensino médio de Juazeiro. O mote envolveu proporcionar, por meio da união dos saberes caros ao laboratório, a desconstrução de estereótipos e a construção de novas narrativas sobre pessoas e territórios.

Um webtelejornal às margens do rio Uruguai

Também fiéis a um dos formatos mais consagrados de disseminação de notícias, alunos de um dos campi da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, dedicam-se ao telejornalismo. Na unidade de São Borja, o ponto alto da graduação, no quinto semestre, envolve a produção do Pampa News, programa desenvolvido pelo laboratório de mesmo nome.

Criado por Roberta Roos Thier, docente com experiência na área, o projeto de extensão preenche uma lacuna importante na trajetória dos discentes: o projeto político-pedagógico da Unipampa oferece duas disciplinas voltadas ao “tele” – uma em cada semestre –, mas, na perspectiva de Thier, que entrou na instituição em 2008, ainda não era o bastante. “Eu percebia, pelo menos com turmas muito grandes, que eu não conseguia dar uma prática eficiente para eles”, relata. Como a universidade dispunha dos equipamentos necessários, a solução foi propor o exercício semanal de um programa com todas as funções existentes em uma emissora. “Com reunião de pauta semanal, deadline, produção de reportagens e a gravação dos programas. Isso acontece desde 2013 até hoje, sem falhar.”

Edição do Pampa News gravada em 16 de julho de 2026. (Crédito: Reprodução / YouTube)

No princípio, uma revisão integral e minuciosa do material produzido pelos alunos passava pela coordenadora, que teve de aprender a abrir mão desse papel centralizador. O excesso de zelo, explica a professora, pode comprometer a experimentação discente. Atualmente os alunos produzem as pautas e recebem apenas orientações e revisões pontuais da supervisora. A partir daí, é com eles: “Vão editar, por conta e risco, e colocar no ar. Vou assistir àquela produção e, na reunião seguinte, aponto o que deu certo e o que poderia melhorar”.

Quase desempenhando papel de mídia local, o Pampa News é distribuído em diferentes plataformas. Exibem as reportagens do programa semanal na íntegra no Facebook, rede social ainda bastante popular em São Borja. O conteúdo é também levado para o YouTube, enquanto o Instagram é usado para a publicação de quadros sobre desdobramentos de pautas e chamadas da grade principal.

Editora-chefe do programa, a aluna Kendra Chaves se orgulha ao compartilhar histórias de apuração e produção, a partir das quais consegue ver problematizações que extrapolam a fronteira do município de pouco mais de 61 mil habitantes: “Temos que estar de olho no que acontece na cidade e no mundo. Tudo o que acontece no cenário nacional conseguimos colocar aqui em São Borja, por mais que seja uma cidade pequena.”

Métodos similares, com maior liberdade 

A vontade dos alunos do curso de jornalismo da PUC Minas de experimentar o ambiente digital foi uma das origens da fundação do Colab, site criado entre o final de 2019 e o início de 2020.

Em meados de 2022, pouco mais de dois anos após a criação da plataforma, o Censo Brasil de Editores de Jornais e Revistas mostrou que a maior parte dos jornais e revistas no Brasil já havia feito a transição do impresso para o digital, ou tinha sido concebida originalmente no formato online.

À época, o Colab se tornou bastante viável principalmente devido às restrições impostas pela covid-19, segundo a professora Verônica Soares da Costa, coordenadora da iniciativa. “Esse infortúnio foi fundamental para dar uma característica de identidade ao projeto, dando muita liberdade para os alunos”, lembra a docente, que começou a trabalhar na instituição em 2019.

O retorno gradual ao presencial colocou o Marco – jornal impresso da PUC Minas com 50 anos de existência – e o recém-criado projeto digital lado a lado. Com ambos operando no mesmo espaço físico, a sensação inicial de estranhamento – pelas diferenças entre as práticas – foi superada, principalmente pela troca de experiências entre monitores e professores, mas as propostas não se misturaram. Verônica diz que algumas narrativas aceitas pelo Colab não seriam publicadas no Marco, que ainda segue uma linha mais tradicional. “Reverberamos os assuntos de forma diferente. O Colab se presta mais a essa exploração multimídia de formatos e linguagens diferentes, de deixar os alunos experimentarem”.

O incentivo à escrita de reportagens em profundidade predomina no portal, mas no último semestre, por exemplo, o site realizou, durante a comemoração de seu aniversário, um concurso de crônicas aberto à comunidade acadêmica. Mesmo fora de ocasiões especiais, o Colab também costuma receber contribuições de outros cursos relacionados à comunicação, como Publicidade e Propaganda, Cinema e Audiovisual e Relações Públicas.

Apesar do foco em produções para o digital, o Colab compartilha o espaço físico com um jornal impresso.
(Foto: Verônica Soares da Costa / Colab)

Para dar destaque ao acervo da universidade, o portal publica trabalhos de conclusão de curso de grande relevância. Um deles é a reportagem multimídia Capim Branco: crônica de um deserto de notícias, sobre os impactos da inexistência de uma cobertura jornalística em uma cidade de 10,6 mil habitantes, a 50 quilômetros de Belo Horizonte. A produção se baseia no contexto revelado pelo Atlas da Notícia, projeto do Projor que mapeia municípios com essa característica.

De caráter misto e multirregional

Único laboratório de ensino a distância presente no levantamento feito por Projor e Farol Jornalismo, a revista e podcast Vozes vê no ambiente digital a possibilidade de transitar por diferentes práticas. Gestado pela Unicesumar – instituição com sede em Maringá, no Paraná –, a iniciativa começou como revista digital, ainda fora do contexto de um projeto de extensão, e foi oficializada em 2023. Enquanto até 40 alunos produzem textos para o site, outros podem se dedicar à elaboração de conteúdo em áudio. “Vimos que era possível expandir e trazer uma outra formação. Quase todos os meios de comunicação, tradicionais ou independentes, têm um podcast”, afirma a coordenadora do projeto, Larissa Bezerra.

O formato não aparece entre os principais meios de consumo de notícias no país, no qual redes sociais passaram a liderar em algumas regiões, mas já se consolidou e está no ouvido de 51% da população (que consome conteúdo diverso, de psicologia a entretenimento).

Durante reuniões com novos integrantes, o Vozes reforça o bê a bá jornalístico indispensável à profissão: o que é uma pauta e como encontrá-la, número de fontes e critérios de seleção de entrevistados, além de outras práticas que qualificam o trabalho. Como estudantes de diferentes semestres são aceitos, a intenção é assegurar que todos tenham acesso às mesmas condições para apurar e produzir.

Parte das reuniões do projeto contempla o aprofundamento em aspectos técnicos do jornalismo.
(Foto: Divulgação / Revista e Podcast Vozes)

Com o auxílio de outros professores do curso, Bezerra guia os futuros repórteres em etapas, refinando ideias, corrigindo eventuais problemas e ajustando o produto final. “Estamos falando de um projeto de extensão que precisa entregar um conteúdo de qualidade para a sociedade e servir de aprendizado ao aluno. O que ele aprender aqui, vai fazer depois no mercado de trabalho”, reforça a coordenadora.

Obrigatoriamente, participantes precisam entregar duas reportagens por semestre. A modalidade de ensino a distância oferece desafios, mas pode ser rica em diversidade regional. “Sempre levo esse desafio para eles. Ao falar sobre uma pauta local, faça de maneira que qualquer um possa se interessar.”

O desafio de contar histórias com profundidade

Tramas narradas com profundidade são a essência do Lunar, laboratório criado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) por Andriolli Costa, jornalista sul-mato-grossense e docente. Uma das criações do projeto – entre mais de dez produções – uniu, em quatro episódios, mais de 40 horas de captação, feitas ao longo de dois anos, para contar a história do carnaval do Rio de Janeiro.

A sugestão da aluna Laura Marques foi o ponto de partida para Outros Carnavais, que acompanha a celebração pelo viés de uma freira imaginária. Andriolli conta que a equipe foi inspirada pelo mito de criação do Bloco das Carmelitas, segundo o qual uma das mulheres da congregação religiosa do bairro Santa Teresa – a que o bloco faz referência – foge do convento para festejar, mas retorna ao espaço quando a folia termina. “Achei muito intrigante a ideia do fugir e depois voltar, e o que isso significa para nossa sociedade”.

Guiado pelo olhar da “fugitiva”, o podcast vai da Sapucaí aos carnavais das séries prata e bronze, passa pelos blocos de rua, os bate-bolas (tradição considerada patrimônio cultural do Rio de Janeiro), e mostra o sincretismo religioso da efeméride, do Cristianismo às encruzilhadas. A produção foi desafiadora, mas valeu a pena, segundo a estudante Bruna Sebollela, que participou a partir do final de 2025. “Quando ouvi os episódios prontos, fiquei muito feliz por termos dado conta. Eu já tinha feito outros projetos antes no Lunar, mas esse foi onde eu mais aprendi: correria, pressão do tempo pra entregar, reunião criativa de um podcast, levantar fontes, pesquisar arquivo.”

O processo produtivo do podcast Outros Carnavais envolveu idas frequentes a campo.
(Foto: Andriolli Costa / Lunar)

O primeiro contato dos estudantes da UERJ com as longas narrativas em áudio ocorreu quando Andriolli transformou uma disciplina em oportunidade para produção de podcasts, no segundo semestre de 2022. O professor experimenta o formato desde 2015. Antes de entrar na UERJ, havia lecionado em uma pós-graduação, ensinando escrita criativa, roteiro e multimídia. Bastou unir as duas experiências, visando encontrar diferentes modos de contar histórias, e convencer a turma a respeito das possibilidades. Ao final daquele semestre, o interesse dos alunos pelo formato não se dissipou, e no ano seguinte o conhecimento construído no currículo normal do curso foi solidificado com a criação de um laboratório.

O nome do projeto, conforme o site da iniciativa, remete a uma noite enluarada, “iluminada por uma constelação de histórias, para se ouvir e contar”. Atualmente nove alunos compõem a equipe, dos quais quatro são bolsistas. As produções se baseiam em sensibilidade, estímulo ao reconhecimento da subjetividade própria e do outro, e no conceito encontrado na obra da jornalista e pesquisadora Cremilda Medina. “Ela dizia que comunicação é comunhão e não rejeição. Precisa comungar do outro para fazer bom jornalismo. Isso vem do reconhecimento dos sentimentos”, diz o coordenador do Lunar, que afirma encontrar no áudio o espaço para isso, a partir de uma comunicação que perdure. “A ideia é superar o efêmero. Se a máquina, a inteligência artificial, consegue fazer coisas no imediato muito melhor do que nós, o que é que conseguimos fazer de diferente? Podemos fazer um material que vai ser muito mais criativo, artístico e atravessado por sensibilidades. Cada programa nosso começa de um jeito diferente, tem uma pegada diferente, um ritmo diferente.”

***

Edição Marcela Donini

João Neto é repórter na Matinal. Durante a graduação, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-FW), foi membro do milpa – laboratório jornalismo.