Sábado, 18 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1397

Quando a origem substitui a biografia

(Foto: Marina Colbachini/Arquivo Pessoal)

Quando o Fantástico exibiu a reportagem “Surto de ebola preocupa o mundo”, exibida no dia 23/05, o público brasileiro foi novamente apresentado à República Democrática do Congo por meio de uma narrativa marcada pela emergência sanitária, pelo medo da contaminação e pela insegurança vivida pela população diante da disseminação do vírus. A reportagem cumpria uma função jornalística importante ao informar sobre um problema de saúde pública que continua produzindo impactos significativos na região. No entanto, ela também reproduzia um padrão recorrente nas representações midiáticas do país: o Congo aparecia, mais uma vez, associado à doença, à crise e à instabilidade.

A questão não está em noticiar o ebola, mas em observar o que permanece fora do enquadramento. O vírus foi identificado pela primeira vez em 1976, na então República do Zaire, atual República Democrática do Congo. Desde então, sucessivos surtos foram registrados ao longo de décadas. Diante desse histórico, talvez uma pergunta igualmente relevante fosse: por que, após quase cinquenta anos, a comunidade internacional ainda não conseguiu construir respostas duradouras para uma doença cuja existência, dinâmica e impacto são amplamente conhecidos?

Quando epidemias recorrentes são apresentadas apenas como tragédias locais, corre-se o risco de invisibilizar questões estruturais mais amplas, como os investimentos insuficientes em sistemas de saúde, as desigualdades globais na produção científica, o acesso desigual a medicamentos e a própria seletividade do interesse internacional. Em outras palavras, a permanência do problema não pode ser compreendida apenas como uma questão congolesa; ela também revela prioridades políticas e econômicas de alcance global.

Talvez o problema não seja apenas epidemiológico. Talvez também seja político. Afinal, quais vidas mobilizam investimentos globais rápidos e quais permanecem por décadas à espera de soluções estruturais? Quando uma doença reaparece sucessivamente ao longo de quase cinquenta anos, talvez seja necessário discutir não apenas os surtos em si, mas também a persistente falta de interesse internacional em enfrentar de forma duradoura as condições que permitem sua recorrência.

Foi nesse contexto que me lembrei de Christian Mutulani. Conheço Christian há três anos, por meio de projetos de intercâmbio epistolar entre estudantes brasileiros e jovens africanos. Ao longo desse período, acompanhei parte de sua trajetória, de seus projetos e de seus desafios cotidianos. Congolês, educador e interlocutor dessas iniciativas, Christian representa uma realidade raramente visível nas narrativas produzidas sobre seu país.

Suas histórias falam de educação, cultura, trabalho, sonhos, relações comunitárias e projetos de futuro. Em suas falas, o Congo não é apenas o lugar da epidemia ou do conflito, mas também um espaço de produção de conhecimento, criatividade e construção cotidiana da vida.

A recorrência de determinadas imagens e discursos produz um efeito poderoso: para grande parte do público brasileiro, a República Democrática do Congo passa a existir quase exclusivamente por meio de acontecimentos extraordinários e catastróficos. Como alerta Chimamanda Ngozi Adichie ao discutir o perigo da história única, o problema não é que essas histórias sejam falsas, mas que elas se tornam as únicas histórias disponíveis. Assim, epidemias, guerras e crises políticas deixam de ser acontecimentos que ocorrem no Congo para se transformarem, aos olhos do público, na própria definição do que o Congo é.

Este texto nasce da necessidade de deslocar esse olhar. Não para negar os desafios enfrentados pela população congolesa, mas para ampliar o campo de visão e reconhecer que existem muitas outras histórias sendo vividas, narradas e construídas para além das imagens que habitualmente chegam até nós.

Mas a limitação dessas narrativas não aparece apenas nos temas escolhidos. Ela também se manifesta na forma como as pessoas são apresentadas ao público.

Fiquei pensando na forma como Christian Mutulani apareceu na matéria do Fantástico:

“Morador da RDC.”

Às vezes, uma legenda não consegue traduzir a dimensão de uma vida inteira.

Diferentemente da maioria dos telespectadores, eu não conheci Christian por meio daquela reportagem. Conheço suas ideias, seus projetos e parte de sua trajetória muito antes de vê-lo aparecer na tela. Talvez por isso a legenda tenha me causado estranhamento.

Christian é pesquisador na área da educação. Já atuou com sustentabilidade, microbiologia e regeneração do solo. Além do francês e do inglês, fala outros três dialetos africanos e consegue ler em português.

Mas o que mais chama atenção em sua trajetória é o compromisso com a própria comunidade. Christian luta por uma educação mais digna, busca manter professores atuantes mesmo em contextos extremamente difíceis e trabalha para afastar crianças das milícias armadas. Durante as estações chuvosas, ele e a família enfrentam períodos de fome. Ainda assim, segue ajudando outras pessoas.

Junto à comunidade, ajudou a construir uma igreja que frequenta todos os domingos. Em meio a tantas dificuldades, sua fé parece se manifestar também no cuidado coletivo, na permanência e na esperança compartilhada.

Nenhuma legenda conseguiria abarcar completamente a complexidade de alguém assim. Ainda assim, conhecer sua história para além de uma identificação rápida nos aproxima daquilo que talvez seja essencial: enxergar pessoas em toda a profundidade de suas existências.

E talvez seja justamente aí que emerge uma questão maior.

No jornalismo, algumas pessoas costumam ser apresentadas por suas trajetórias, profissões e singularidades. Outras aparecem apenas pela origem geográfica, pela condição migratória ou pela experiência da dor.

Há médicos apresentados como médicos. Professores apresentados como professores. Pesquisadores apresentados como pesquisadores.

Mas há também sujeitos que chegam ao noticiário reduzidos a categorias amplas: “refugiado”, “africano”, “morador da RDC”.

Como se a geografia pudesse substituir a biografia.

Não se trata de exigir que uma legenda dê conta integralmente de uma vida humana. Isso seria impossível. O jornalismo trabalha inevitavelmente com sínteses, cortes e enquadramentos. Mas as escolhas feitas nessas sínteses também revelam critérios de relevância e formas de percepção.

Vale perguntar por que determinadas pessoas costumam ser apresentadas por suas profissões, ideias e histórias, enquanto outras aparecem apenas pela nacionalidade, pelo deslocamento ou pela condição de sobrevivência.

A linguagem jornalística nunca é neutra. Ela organiza percepções, distribui centralidades e define, ainda que involuntariamente, quais existências serão reconhecidas como completas.

Quando alguém perde a própria biografia diante da câmera, perde-se também parte de sua humanidade pública.

Ao longo das trocas que mantenho com refugiados da África Subsaariana, frequentemente encontro trajetórias interrompidas por enquadramentos simplificadores. Pessoas altamente escolarizadas, multilíngues, intelectualmente sofisticadas e profundamente comprometidas com suas comunidades acabam aparecendo apenas como vítimas de guerra, fome ou deslocamento.

A dor existe. A violência existe. Mas nenhuma existência humana cabe somente dentro do sofrimento.

Talvez ainda exista, no imaginário midiático, uma dificuldade em narrar sujeitos africanos para além da vulnerabilidade. Como se lhes fosse permitido ocupar o espaço da denúncia humanitária, mas não plenamente o espaço da complexidade.

Não se trata de atribuir intencionalidade a uma única reportagem, mas de perceber padrões recorrentes de representação. Padrões que atravessam o jornalismo contemporâneo e que, muitas vezes, concedem densidade narrativa a alguns sujeitos enquanto reservam a outros apenas a condição de cenário social.

E isso produz algo silencioso: um apagamento de memória.

Porque resgatar a biografia também é uma forma de dignidade.

Saber o que alguém pesquisa, ensina, constrói, preserva ou sonha modifica profundamente a maneira como o enxergamos. A escuta devolve espessura às pessoas. Devolve passado, pensamento, contradição e pertencimento.

Talvez a questão não seja apenas quem pode falar na mídia, mas quem pode aparecer nela como alguém plenamente humano — isto é, portador de história própria.

Porque, quando a origem substitui a biografia, algo da experiência humana também se perde no enquadramento jornalístico.

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Marina Colbachini é professora de inglês e de redação e doutoranda em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/Unicamp. Há mais de dez anos desenvolve pesquisas e projetos voltados ao diálogo intercultural com refugiados da África Subsaariana, investigando escuta, narrativas e representação na mídia.