
(Foto: Divulgação)
A partir de 30 de julho, São Paulo se tornará, mais uma vez, o epicentro do jornalismo na América Latina. Dessa vez, o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji acontece no campus Paraíso da UNIP e vai reunir os principais nomes da profissão para um encontro único no Brasil. O Projor é apoiador do evento.
Manter uma tradição por mais de duas décadas não é um feito pequeno. Ainda mais uma que envolve meses de produção e muitas pessoas dedicadas ao mesmo objetivo: qualificar o jornalismo brasileiro e servir de ponto de encontro anual obrigatório para diversas gerações de jornalistas.
A primeira edição foi realizada em outubro de 2005, na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro, com cerca de 30 atividades ao longo de dois dias e meio, entre palestras, debates, oficinas e lançamentos de livros.
Ao longo de duas décadas, muita coisa mudou. O evento deste ano ocupará três dias inteiros, com cerca de 110 atividades em 11 trilhas diferentes, incorporando novas tecnologias e realidades que impactam diretamente o exercício do jornalismo. Ele também será o mais internacional, com 22 nomes de 15 países diferentes para compartilhar presencialmente suas experiências e expertise com o público brasileiro.
Outro destaque é a trilha América Latina, idealizada pela Diretoria da Abraji para fortalecer os laços entre o Brasil e a região. Quem comparecer ao evento poderá aprender diretamente com quem cobre em campo as situações políticas, socioeconômicas e ambientais da Argentina, Colômbia, Cuba, El Salvador, Paraguai, Peru e Venezuela — essa última com a repórter venezuelana Paula Ramón, autora de “Mãe Pátria” (Cia das Letras) e que realizou a cobertura in loco do sequestro de Nicolás Maduro em janeiro e dos terremotos que atingiram o país em junho.
Da África, a Abraji receberá Athandiwe Saba (África do Sul), especializada no impacto da inteligência artificial e das tecnologias digitais nos sistemas de mídia, e Purity Mukami (Quênia), que revelou falhas no sistema de inteligência artificial adotado pelo serviço de saúde de seu país para determinar quanto cada paciente deveria pagar.
Junto com Gabriel Geiger, jornalista da Lighthouse Reports, Purity vai ensinar jornalistas brasileiros a acessar e auditar modelos de IA adotados por órgãos públicos.
A oficina acontece no Dia dos Dados, em 01/08, quando jornalistas e estudantes com qualquer nível de domínio técnico poderão aprender novos métodos de forma acessível e democrática e pensada para a aplicação prática da investigação jornalística. De conceitos básicos de estatística que qualquer jornalista precisa saber a oficinas avançadas de linguagem de programação.
Essência permanente
Uma programação variada e inclusiva, aliás, segue como essência do Congresso da Abraji desde sua primeira edição.
Enquanto em 2005 os jornalistas faziam oficina de “pesquisa avançada na Internet”, de “telejornalismo investigativo” e já falavam sobre as alternativas de trabalho no jornalismo freelance, agora eles terão a chance de aprender tudo o que precisam para cobrir a indústria de IA e adotar as ferramentas de forma ética, produzir vídeos verticais, redigir projetos para obter bolsas de financiamento de reportagens e criar seus próprios produtos jornalísticos do zero, sem conhecimento prévio.
Muitas sessões seguem tão atuais como há 21 anos, como as investigações de corrupção. O escândalo do Banco Master, que continua rendendo desdobramentos, será tema de três mesas distintas. Dos bastidores da investigação sobre a relação entre o banqueiro e o filme “Dark Horse”, com o repórter Paulo Motoryn (Intercept Brasil), à cobertura de conflitos de interesse no Judiciário, com Malu Gaspar, repórter do jornal O Globo e da Globonews, e dicas sobre investigar fraudes financeiras, com Adriana Fernandes (Folha de S. Paulo) e Luiz Vassallo (Estadão).
A cobertura eleitoral também terá abordagens aprofundadas em sessões sobre os bastidores do poder e as agendas temáticas que já ganharam o debate público, como bets, educação, emendas parlamentares, saúde e segurança pública.
A pauta ambiental (que também foi tema da estreia do Congresso) segue na mesa, com una trilha climática dedicada a tirar do nicho um dos assuntos mais urgentes e abrangentes do noticiário, com suas nuances ligadas à adaptação climática, aos povos originários e, um ano após a COP30 de Belém, com sessões que abrangem temas além da Amazônia, como as ameaças ao Cerrado, o impacto da transição energética na Caatinga e as políticas públicas de proteção aos oceanos.
Os assuntos internacionais mais relevantes têm destaque na programação. Para discutir os impactos da atual política externa norte-americana, Guga Chacra (Globonews), Patrícia Campos Mello (Folha de S. Paulo) e Jesús Jank Curbelo (cubano radicado no Texas) conversarão com Luísa Belchior, editora do g1 Mundo.
Patrícia também vai dar dicas práticas sobre a cobertura de conflitos armados e sua experiência recente no Irã em um painel com mediação de Claudia Jardim (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) e participação de Pedro Borges, fundador do Alma Preta que cobriu em campo os conflitos na República Democrática do Congo, e Omar Mohammed, o historiador que se tornou blogueiro anônimo e documentou os crimes de guerra do Estado Islâmico em Mossul, no Iraque.
Após a palestra, Omar fará o lançamento de seu novo livro sobre o tema, “Mosul Eye: A Scholar’s Clandestine War Against ISIS” (ainda sem tradução para o português).
Além dele, o Congresso lançará outros nove livros.
Ontem e hoje
Enquanto alguns nomes de palestrantes deste ano ainda eram estudantes de jornalismo quando a Abraji tirava do papel seu primeiro Congresso, outros palestrantes da programação atual já figuravam na edição de 21 anos atrás, como Marcelo Moreira, Rosental Calmon Alves e Rubens Valente.
Nem todos seguem conosco, infelizmente. Esse será o primeiro Congresso sem Marcelo Beraba, cofundador e primeiro presidente da Abraji, que nos deixou em 28 de julho de 2025. Mas seu legado segue vivo e seus ensinamentos foram incorporados ao desenho de todas as mesas da curadoria.
Como parte das homenagens a ele, a Abraji trará de volta o painel carinhosamente batizado de “Ops!”, uma ideia de Beraba que chegou a figurar em diversas edições do Congresso. Traremos alguns dos nomes mais relevantes da história do jornalismo brasileiro, entre eles o da repórter Elvira Lobato, para relembrar os erros cometidos ao longo de suas carreiras e o que se pode aprender com eles.
Por falar em homenagem, a edição deste ano destaca duas profissionais que fizeram e fazem história na cobertura policial e de segurança pública: Fatima Souza, do SBT, e Vera Araújo, do Globo. Fatima foi a repórter que revelou ao país a facção que se formava nos presídios de São Paulo, o PCC. Vera descobriu como policiais e ex-policiais estavam se organizando para dominar territórios nas favelas do Rio, dando o nome de “milícias” para essas organizações criminosas.
A escolha de homenagear duas mulheres que dedicaram décadas reportando e explicando com profundidade os meandros da segurança pública veio da atual Diretoria, que também garantiu na programação diversas mesas para oferecer aos jornalistas discussões de alto nível sobre o tema, que ganha especial relevância em ano eleitoral.
Em nome da Abraji, fica o convite para quem já tem anos de estrada no ofício ou está chegando agora: a história do jornalismo investigativo no Brasil continua sendo escrita todos os dias; e o Congresso da Abraji é o palco onde ela é celebrada e inspira os furos do futuro. Nos vemos na edição 21!
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Ana Carolina Moreno é diretora-presidente da Abraji (2026-2027).
