
(Foto: Anna Shvets/Pexels)
Durante décadas, a teoria da comunicação organizou seu objeto em funções: informar, persuadir, educar, entreter. A taxonomia parecia estável, quase doméstica, o tipo de esquema que se ensina no primeiro semestre e se abandona no segundo. Minha hipótese é que ela merece ser reaberta, não porque as funções tenham mudado, mas porque uma delas subordinou as demais. A evasão deixou de ser uma função entre outras e passou a ser o princípio que as organiza.
Não há escândalo na evasão em si. Escapar da realidade é uma operação tão antiga quanto narrar e descansar do mundo é, com frequência, a condição para voltar a ele. O escândalo começa quando essa necessidade humana é capturada como lógica econômica dominante de um sistema inteiro de mediação. Byung-Chul Han alcançou enorme circulação editorial descrevendo uma sociedade exausta; o mercado foi mais perspicaz que o diagnóstico do filósofo, porque entendeu que a exaustão não é apenas um estado, mas uma demanda. Gente cansada compra alívio.
Convencionou-se chamar esse arranjo de “economia da atenção”. O nome sempre me pareceu um eufemismo bem-comportado e duplamente astuto. Astuto no objeto: o que o sistema captura não é “atenção”, é o olhar sem posse, o tempo de permanência, o reflexo do dedo na tela. Atenção é um estado de presença custosa e é precisamente o que esse arranjo corrói. Não é porque alguém assiste que está atento; a matéria-prima do negócio sempre foi a desatenção, batizada com o nome daquilo que ela destrói. Barthes chamaria isso de mito: uma fala que naturaliza, que transforma a rendição em ato do sujeito.
Dizer que algo “prendeu minha atenção” soa como elogio; descreve uma captura. E o nome é astuto também no produto: o que se entrega, em escala industrial, é a suspensão temporária do real. Se o nome de um negócio deve corresponder àquilo que ele compra e àquilo que ele vende, o termo honesto seria economia da anestesia. E chamo de anestesia porque anestésicos não resolvem a causa da dor. Apenas suspendem temporariamente a experiência dela. Talvez seja exatamente isso que boa parte da comunicação contemporânea tenha aprendido a vender.
Lazarsfeld e Merton perceberam o embrião do fenômeno em 1948 e o chamaram de disfunção narcotizante: o excesso de exposição à informação que, em vez de mobilizar, seda. Erraram apenas o prefixo. O que era disfunção virou modelo de negócio.
Sob essa lógica, os meios já não disputam apenas o que olhamos. Disputam nossa permanência na realidade. E tudo passa a operar como analgésico: o jornalismo é pressionado a ser mais leve, mais rápido, mais emocional; a política se converte em espetáculo permanente; a educação é obrigada a competir com fluxos infinitos de estímulo; e a inteligência artificial já nasce prometendo eliminar o esforço cognitivo, resumindo, sintetizando, respondendo e decidindo antes que a dúvida tenha tempo de amadurecer.
A ironia é precisa: a época com mais acesso à informação de toda a história construiu um ecossistema comunicacional cujo maior valor econômico é nos manter na superfície de tudo. Um território sem contradição e sem nuance, onde tudo parece se autoexplicar por ideias feitas.
Por isso desconfio dos diagnósticos setoriais. Não estamos diante de uma crise do jornalismo, nem da educação, nem das redes; mas de um desequilíbrio nas funções da própria comunicação. Quando a evasão deixa de ser uma camada da experiência e passa a organizar todas as outras, informar torna-se secundário, interpretar torna-se lento demais e pensar, que sempre foi uma atividade de atrito, vira um defeito de projeto.
A informação continua chegando. O sofrimento continua existindo. Os conflitos continuam acontecendo. O que está desaparecendo é a nossa disposição de permanecer diante deles tempo suficiente para compreendê-los.
É por isso que a economia da atenção talvez nunca tenha sido, de fato, uma economia da atenção.
Sempre foi uma economia da anestesia.
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Marcelo Santos é jornalista e Diretor da Faculdade Cásper Líbero.
