Quinta-feira, 21 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1389

Alberto Dines – vínculos de liberdade, um documentário em primeira mão

(Foto: Arquivo/Pessoal)

“Fiz o filme que eu acho que ele gostaria que eu tivesse feito.” É assim que Ugo Giorgetti define a realização do documentário Alberto Dines – vínculos de liberdade, uma produção da SP Filmes de São Paulo financiada pela Fundação Conrado Wessel, sobre a vida profissional do jornalista. O filme de 60 minutos abre a mostra O Cinema de Ugo Giorgetti, no dia 26 de maio, no Espaço Petrobras de Cinema, em sessão fechada para convidados.

O cineasta paulistano não nega o desafio que foi mergulhar na trajetória de alguém que definiu o exercício da sua profissão como “uma devoção”. Dines, além de ter sido um dos mais importantes jornalistas brasileiros, foi um homem que não mediu esforços para fazer do jornalismo uma aventura, um ato de fé e uma prática comprometida com a cidadania. Foram 66 anos de dedicação.

O filme se constrói por meio de testemunhos de contemporâneos do jornalista, com depoimentos inéditos e entrevistas resgatadas de arquivos. Caio Túlio Costa, Fernando Gabeira, Gabriel Priolli, Jô Soares, José Trajano, Juca Kfouri, Luiz Egypto, Mauro Malin, Paulo Markun, Roberto D’Ávila e Eugênio Bucci, entre outros. Não menos importante é a participação de Norma Couri, com quem Dines dividiu a vida e a paixão pelo ofício. O professor, linguista e poeta Carlos Vogt, presidente da Fundação Conrado Wessel, relata como ambos se uniram para dar forma e tornar realidade o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp.

(Foto: Arquivo/Pessoal)

O efeito dessa verdadeira colagem de personalidades é a narração de uma vida em que não faltaram reviravoltas, conflitos, clímax. Foi Dines o responsável pela única capa sem manchete do Jornal do Brasil, quando ocupava o cargo de editor-chefe desse que, na época, era um veículo de vanguarda e influência nos rumos do país. O fato, no documentário, é assim narrado: corria o ano de 1973, o regime militar sedimentado no Brasil, as redações brasileiras sob censura e vigilância desde 1968. Nesse cenário, o golpe militar no Chile era notícia proibida. Manchetes, nem pensar. Pois Dines não teve dúvidas: determinou, por conta própria, a publicação de uma capa que noticiava o golpe de 11 de setembro de cima a baixo, mas sem manchete. A demissão não tardou: “Imediatamente todas as portas se fecharam para mim”, ele conta, em uma entrevista gravada pelo Museu da Pessoa que Ugo Giorgetti recupera no documentário.

Essa, no entanto, não é única reviravolta narrada no filme, nem a derradeira inflexão de carreira. Em razão de sucessivos enfrentamentos à ditadura brasileira, Alberto Dines acabou preso pelo regime militar, em 1968, e, por mais de uma vez, foi detido durante o período ditatorial.

Outro ato de coragem foi a criação, na sucursal do Rio de Janeiro da Folha de S. Paulo, da qual era chefe de redação, da seção Jornal dos Jornais, em 1975. Considerada pioneira na crítica de mídia no país, essa coluna tanto fundou uma tradição jornalística centrada na figura do ombudsman, quanto alimentou a reputação do Dines polêmico. A Folha de S. Paulo se beneficiou com a inovação, que abriu caminho para que sua credibilidade, relevância e contribuição com o debate público se fortalecesse. 

No documentário, fatos incontornáveis da carreira de Dines se misturam a opiniões saudosas e, por que não admitir, um tanto apaixonadas. Inclusive do próprio cinebiografado. Não é sem autoironia e humor que Dines se refere ao “delírio do papel de primeira mão” que o acometeu durante o tempo em que permaneceu em Lisboa, onde morou por cerca de oito anos. Tendo sido agraciado com a prestigiosa Bolsa Vitae de Artes (concedida pela extinta Fundação Vitae), ele partiu para Portugal com a missão de pesquisar a vida de Antônio José da Silva – “o Judeu” – na Torre do Tombo, um dos repositórios de documentos mais importantes do mundo. O contato com esse arquivo, além de ter sido responsável pelo tal “delírio”, resultou no livro Vínculos do Fogo, uma biografia-referência sobre o dramaturgo carioca que foi perseguido pela Inquisição. Não foi nem de longe o único livro que ele assinou, diga-se. Sua bibliografia soma mais de uma dezena de títulos, dentre os quais Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig (1981) e O papel do jornal: uma releitura (1974).

Com todo esse vigor, não é de espantar que Dines tenha dado continuidade à crítica de mídia, colocando de pé, em 1º de abril de 1996, este Observatório da Imprensa, declaradamente inspirado na experiência da coluna Jornal dos Jornais.

Quem conhece a sua trajetória talvez sinta falta de um roteiro que relate todos os feitos do jornalista. Giorgetti não usa o recurso da linearidade, em que a sucessão de entrevistas narra a cronologia de vida tal como ela foi. O que faz em quase 60 minutos é legar ao espectador a dimensão intelectual, humana e profissional de Alberto Dines, constituindo um tributo, uma aula magna de jornalismo e um documento sobre a evolução da atividade jornalística no país.

Alberto Dines – vínculos de liberdade é testemunho de coragem, mais do que de resistência. Os contemporâneos de Dines não deixam o espectador esquecer que, para além da personalidade crítica, ele era dotado de “capacidade diplomática”, conforme revela Fernando Gabeira. “Tinha uma habilidade pra negociar muito grande”. 

Inegociável, para quem deseje compreender a obra, a contribuição e influência de Alberto Dines ao jornalismo brasileiro, é a tarefa de assistir ao documentário. 

Mostra O CINEMA DE UGO GIORGETTI

Espaço Petrobras de Cinema

Rua Augusta, 1475

Alberto Dines – vínculos de liberdade

Terça-feira, 26 de maio, 20h30 – Sessão fechada para convidados

Sábado, 30 de maio, 19h10

Quarta-feira, 3 de junho, 19h10 – Debate Folha mediado pelo jornalista Inácio Araújo com o diretor Ugo Giorgetti

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Liniane Haag Brum é pesquisadora, jornalista e autora. Atualmente é pesquisadora de jornalismo científico, no Labjor/Unicamp, no âmbito do programa Mídia Ciência da Fapesp. Doutora em Teoria e História Literária e Mestre em Literatura e Crítica Literária.