
The-New-Yorker-Festival.-A-arte-do-perfil.-Desenho-por-Gustavo-Sobral-2026
A artista Isabella Ducrot, aos 94 anos, abre as portas de seu apartamento em Roma, numa terça-feira de abril de 2024, e conta a sua vida. O ator Alec Baldwin confessa, em 2008, que, vivendo tantos personagens, gostaria também de ser apenas ele mesmo.
O que aproxima uma artista romana em seu apartamento, cercada por obras de arte, num momento da vida em que confessa ter ainda muito o que sentir, de um ator com carreira consolidada, imerso nos seus conflitos existenciais?
Ambos, em momentos distintos das suas vidas, abriram as suas vidas aos jornalistas da revista The New Yorker. Há 100 anos em cartaz, completados em 2025, a revista se notabilizou por retratar pessoas no que ficou conhecido por perfil.
Considerado arte jornalística, foi assunto dos jornalistas da revista Larissa MacFarquhar, Rebecca Mead, Ian Parker, Kelefa Sanneh, Michael Schulman e do editor executivo Daniel Zalewski, no 26º The New Yorker Festival, em outubro de 2025.
Reportagem sobre uma só pessoa, há quem defina como gênero jornalístico que captura a vida num dado momento. Uma quase-biografia, registro impressionista do que pensa da sua vida e do mundo que o cerca. Tudo pelo olhar subjetivo do repórter:
“Ducrot pediu à sua governanta, Shanthi Wijesundara, que nos servisse taças de champanhe, e nos acomodamos lado a lado em um sofá. Ela vestia um suéter verde-oliva oversized, calças de cetim preto de pernas largas e tênis rosa-claro robustos; seu cabelo era branco e cortado em um corte Chanel reto na altura do queixo com repartição central, e no pescoço usava uma corrente de ouro com um pingente de vidro verde. Ela era chique e descontraída em seus modos, mas a vida em sua idade está longe de ser sem esforço, disse ela.”
Esforço de compreensão da trajetória e da personalidade, é mais do que apresentar informações biográficas ou dados factuais. É revelar a dimensão humana.
O acesso ao personagem depende de negociações e da construção de confiança. Uma proximidade que não pode afetar a autonomia do jornalista. E um certo grau de imersão na realidade do personagem também é parte do processo.
Em vez de se limitar a uma entrevista pontual, a proposta é acompanhar diferentes momentos e contextos da vida do retratado, como se fosse um documentário, funcionando como método de apuração.
Há jornalistas que preferem se pôr em cena, compondo um relato em primeira pessoa. Há os que acreditam agir como uma câmera oculta, sem se revelar presentes, atuando apenas como um observador entre o personagem e o leitor:
“Tiffany Nishimoto, assistente e parceira de produção de Baldwin, passou-lhe um telefone, e ele começou a falar imediatamente: ‘Pelo que entendi, você quer…’ Então ele parou e recomeçou: ‘Antes de mais nada, olá’. Ele tem uma voz rápida, de dicção forte e muito articulada, pontuada por frequentes limpezas de garganta — o que pode dar a impressão de que você está ouvindo um aquecimento, e não o evento em si. Quando terminou, ele perguntou sobre outras mensagens. ‘O que mais?’, quis saber. Ela lhe informou. E então: ‘O que mais?’”
As escolhas narrativas e a forma de organizar o texto influenciam a maneira como o leitor receberá a história. Não é preciso seguir à risca uma sequência cronológica ou mesmo linear. A escrita exige buscar formas que escapem de modelos repetitivos e clichês.
Uma declaração indevida não deve ser usada para transformar o perfilado no assunto do momento, tornando a declaração maior que o perfil. Há também os “recados” editoriais necessários. Prática da revista. Na The New Yorker, a regra é simples: não complicar as coisas.
Múltiplas situações e ambientes tornam o retrato mais complexo. Um recurso muito usado é a construção de cenas e episódios observados pelo repórter. E a descrição de momentos específicos ajuda a revelar traços da personalidade e a criar proximidade com o leitor.
Muitas vezes, as pequenas coisas, as mais banais e aparentemente entediantes, são as mais interessantes. Mesmo quando o tempo de convivência é limitado, a seleção dos episódios pode produzir a sensação de uma convivência mais prolongada, reforçando o caráter narrativo.
Ouvir, anotar, gravar, estar atento aos gestos, detalhes e até silêncios. Perfilar é arte de transformar pessoas em histórias e sem complicações.
Nota do autor
Os trechos citados foram retirados dos perfis “Uma artista florescendo em seus noventa anos”, de Rebecca Mead sobre Isabella Ducrot, publicado na edição de 29 de julho de 2024; e “Por que eu?”, de Ian Parker sobre Alec Baldwin, na edição de 8 de setembro de 2008. O painel “A arte do perfil” está disponível no canal da revista no YouTube.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
