Quinta-feira, 16 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1384

As histórias da The New Yorker

(Foto: Divulgação)

Textos jornalísticos curtos: mil palavras e até menos, divertidos e informativos. O resultado: várias e várias páginas por semana dedicadas à cobertura das coisas e pessoas pinçadas do mais interessante e prosaico do que acontece pela cidade.

Importante incluir fatos interessantes e humor. Prioridades de um trabalho que, se era do repórter, tinha o dedo do editor. E tudo começou com a própria revista, em 1925. Mas nada foi da noite para o dia. Se havia uma linha editorial, o alcance e o sucesso se fizeram na prática contínua semanal pelas décadas seguintes.

As recomendações assinaladas criaram a fórmula e o passar do tempo e a prática foram o aprimoramento necessário. É atribuído ao trabalho de James Thurber, o talhe e o lendário uso do “nós”, convenção adotada no texto que fazia da reportagem um trabalho plural da revista.

A ideia era que soasse não como algo escrito por esse ou aquele repórter, mas que espelhasse uma voz única, um tom de unidade. A própria revista. Também se atribui ao desejo do primeiro editor Harold Ross de preservar o anonimato da equipe. Coisa inimaginável no mundo contemporâneo dos protagonismos.

A princípio, usaram pseudônimos até chegar à assinatura “The New Yorkers”, em 1934.  O “nós”, cultura da época, era o ponto de vista masculino que abundava nas redações e que só viria a mudar nos anos 1940.

O contexto, contou Lillian Ross, ela própria um “nós” da revista, era que a Segunda Guerra Mundial, ao convocar os homens para o combate, não deixou opção à revista que não ter também mulheres na redação. E foi assim que ela chegou lá. Ela que foi um dos nomes que brilhou na seção.

O “nós” sobreviveu até o começo dos anos 1960, quando passou para um ponto de vista de terceira pessoa, o do repórter. Uma mudança dos tempos e editorial na revista, sob o comando de Tina Brown, que resolveu identificar os autores nos créditos finais da seção e, depois, ao final de cada texto.

Na seção, Thurber, E.B. White, a própria Lillian Ross, John Updike e tantos outros, ali, exercitaram a arte do olhar apurado para a pauta e o desenvolvimento de um estilo numa aventura de contar a vida pulsante da cidade, formando um conjunto que revela um diário, episódico, biográfico, de Nova York.

Cidade cuja história não pode passar sem o que está contado na seção, que vai dos seus habitantes anônimos até visitantes ilustres, como Matisse em um final de semana na cidade; a forma de fazer jornalismo; uma exposição; um hotel decadente. Impossível enumerar.

Forma única de fazer jornalismo, criada e talhada pela The New Yorker, está documentada para além das edições da revisa, numa antologia organizada por Lillian Ross – The Fun of It: Stories from The Talk of the Town (Random House Publishing Group, 2001, 512p.).

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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.