
(Foto: Yunus Erdogdu/Pexels)
Há uma contradição que atravessa sistematicamente o discurso editorial da grande imprensa e que raramente se torna objeto de análise explícita, uma vez que os mesmos veículos que diagnosticam, com frequência, os efeitos corrosivos da polarização política sobre o espaço público democrático são, em larga medida, agentes constitutivos do fenômeno que denunciam. Essa contradição não configura uma anomalia episódica, tampouco resulta de inconsistência editorial facilmente corrigível, trata-se, antes, de uma tensão estrutural enraizada nas próprias convenções narrativas do jornalismo moderno e nas condições materiais de produção e circulação da notícia na contemporaneidade. Compreendê-la exige, preliminarmente, qualificar com precisão o estatuto causal que se atribui à imprensa nesse processo, pois a afirmação de que o jornalismo produz polarização, tomada sem mediações, incorre igualmente nos mesmos problemas de simplificação que pretende denunciar.
A pesquisa sobre “polarização afetiva” nas últimas duas décadas demonstra que a intensidade do antagonismo político está menos associada ao consumo de mídia tradicional do que a outros fatores, tais como, a identidade partidária operando como marcador de identidade social, a fragmentação das práticas de consumo informacional e a arquitetura algorítmica das plataformas digitais.
Os trabalhos de Lilliana Mason em Uncivil Agreement (2018) e de Yanna Krupnikov e John Barry Ryan em The Other Divide (2022) indicam que a polarização afetiva, a saber, a hostilidade emocional em relação ao adversário político, precede, em larga medida, o consumo de conteúdo midiático específico e está ancorada em processos identitários mais profundos. Isso não exonera o jornalismo de responsabilidade, mas exige que essa responsabilidade seja descrita com maior precisão analítica do que a narrativa da causalidade direta permite. A imprensa não fabrica a polarização a partir do nada, ela opera sobre disposições identitárias preexistentes, amplificando-as, conferindo-lhes linguagem e tornando-as politicamente mobilizáveis. A distinção não é trivial, dela dependem tanto o diagnóstico quanto as possibilidades de intervenção.
A produção de notícias se organiza, historicamente, em torno de estruturas conflitivas. A oposição binária – direita versus esquerda, Estado versus mercado, tradição versus progressismo – não é apenas uma convenção estilística, mas um dispositivo cognitivo que regula o modo pelo qual a imprensa torna o mundo inteligível para seus públicos. Esse dispositivo possui eficácia comunicacional inegável, já que simplifica o acesso a debates complexos, gera identificação imediata e permite enquadramentos rápidos, compatíveis com o imperativo da velocidade informacional.
Contudo, ao traduzir sistematicamente a heterogeneidade das posições políticas em duelos bem delimitados, o jornalismo não descreve o conflito, ele o performa. Nesse sentido, a formulação de Robert Entman, em Framing (1993), sobre enquadramento permanece central, pois selecionar e destacar certos aspectos da realidade percebida é, necessariamente, promover uma interpretação particular, atribuir causalidade e sugerir julgamentos morais. A escolha da estrutura bothsidesism (doisladismo) como modelo dominante não é neutra, mas uma operação de poder simbólico que define o que pode ser dito, quem pode dizê-lo e em que termos. Stuart Hall, em Encoding/Decoding (1980), já alertava nessa direção, pois toda operação de enquadramento é uma operação de poder, e a neutralidade enunciada é sempre uma neutralidade produzida, jamais uma neutralidade encontrada.
Debates sobre direitos reprodutivos, segurança pública, reforma tributária ou políticas de saúde mental são recorrentemente comprimidos em categorias excludentes – “a favor” ou “contra”, “conservador” ou “progressista” –, eliminando da discussão coletiva as posições intermediárias, as ambivalências legítimas e os dados que contradizem a narrativa dos extremos. Audiências expostas sistematicamente a enquadramentos polarizados tendem a perceber seus adversários políticos como mais radicais do que de fato são e a subestimar a complexidade das próprias posições que sustentam, fenômeno descrito na literatura como “polarização percebida” e em parte alimentado por rotinas jornalísticas que reforçam a excepcionalidade do conflito em detrimento da negociação cotidiana.
É precisamente aqui, no entanto, que emerge uma segunda problemática, a reivindicação da complexidade, da nuance e das posições intermediárias como antídoto editorial ao binarismo. Essa proposição, embora intuitivamente plausível, carrega uma armadilha ideológica que a reflexão sobre mídia precisa enfrentar. A reivindicação de complexidade pode, ela mesma, operar como gesto político conservador, tendendo a beneficiar estruturalmente quem já detém poder.
Quando a imprensa enquadra o debate sobre cotas raciais, reparações históricas ou emergência climática como “questões complexas com posições válidas em ambos os lados”, não está necessariamente promovendo maturidade analítica, pode estar neutralizando imperativos de justiça e urgência científica mediante a retórica da ponderação equânime. O bothsidesism, amplamente criticado na literatura de jornalismo estadunidense após o ciclo eleitoral de 2016, demonstrou empiricamente que tratar como equivalentes posições epistêmica e moralmente assimétricas não constitui neutralidade, mas uma forma de tomada de partido disfarçada de procedimento isomorfo. A cobertura da pandemia de Covid-19 ofereceu um laboratório doloroso dessa distinção, haja vista que veículos que buscaram “equilíbrio” entre o consenso científico e o negacionismo não produziram jornalismo mais matizado, produziram jornalismo mais perigoso.
Impõe-se, portanto, uma diferenciação que a crítica ao binarismo frequentemente negligencia, isto é, a distinção entre complexidade enquanto valor epistêmico legítimo e complexidade enquanto estratégia retórica funcional à manutenção do status quo. Existem assimetrias factuais, científicas e morais que o recurso à nuance não dissolve, ele apenas obscurece. A questão central não é substituir o binário pelo gradiente de forma generalizada, mas desenvolver critérios editoriais capazes de discriminar quando a complexidade é ontologicamente pertinente ao fenômeno coberto e quando é retoricamente funcional a interesses que resistem a ser nomeados. Complexidade analítica não é equivalente a equidistância política, e o reconhecimento de nuances não implica tratar como simétricas posições que mantêm relações radicalmente distintas com a evidência empírica e com os princípios democráticos fundamentais.
Outro conjunto de tensões diz respeito às condições materiais de produção jornalística, dimensão que a crítica às práticas narrativas frequentemente subestima ao tratá-las como escolhas editoriais reversíveis mediante mudança de cultura profissional. Essa perspectiva voluntarista ignora as determinações econômicas do campo midiático.
No Brasil, menos de dez grupos controlam mais de 90% da audiência dos grandes meios, conforme levantamentos do Media Ownership Monitor Brasil, configuração oligopolista que constrange estruturalmente a diversidade editorial. Num cenário de colapso do modelo publicitário tradicional e de dependência crescente das plataformas digitais para distribuição e monetização de conteúdo, a pergunta relevante não é se o jornalismo deseja ser mais complexo, mas em que condições materiais essa complexidade se torna economicamente sustentável.
Os formatos que aprofundam contexto, apresentam ambivalências e recusam o enquadramento de confronto exigem mais tempo de produção, mais investimento em formação e geralmente produzem menor engajamento imediato nas métricas de plataforma, tornando-se sistematicamente desfavorecidos nas lógicas de alocação de recursos das redações contemporâneas. A crítica ao jornalismo que não articula a crítica à economia política da mídia responsabiliza indivíduos e culturas profissionais por constrangimentos que são, fundamentalmente, estruturais.
Por fim, outro elemento compromete a profundidade do diagnóstico quando negligenciado. Estamos falando da relação historicamente específica entre a grande imprensa brasileira e a democracia. A afirmação de que os grandes veículos nacionais possuem longa tradição de defesa das instituições democráticas, tomada sem qualificação histórica, é empiricamente contestável, já que a imprensa brasileira esteve, em momentos decisivos do século XX, alinhada a rupturas institucionais. O apoio editorial ao golpe de 1964 é o exemplo mais amplamente documentado pela historiografia do jornalismo nacional, como demonstram os trabalhos de Carlos Fico e a cobertura analisada por Bernardo Kucinski em Jornalistas e Revolucionários (1991). Sua relação com a democracia foi historicamente mais seletiva do que a mitologia liberal do jornalismo como “quarto poder” sugere, operando frequentemente como porta-voz de interesses de determinadas classes e grupos econômicos. Ignorar esse substrato histórico ao propor que a imprensa reveja suas práticas narrativas, sem nomear os interesses que essas práticas historicamente serviram, constitui, também, uma operação de simplificação que compromete o alcance do próprio diagnóstico.
A imprensa enfrenta, portanto, um imperativo analítico de difícil operacionalização, examinar com honestidade intelectual o quanto suas próprias convenções narrativas, suas estruturas de propriedade e sua história institucional participam da arquitetura da polarização que diagnostica. Esse exame não pode ser conduzido mediante à simples reivindicação de complexidade, pois, como demonstrado, a complexidade pode ela própria ser instrumentalizada. Tampouco pode ignorar que entre as condições estruturais do problema figuram os interesses econômicos e políticos que a imprensa, historicamente, não tem sido neutra em representar. O que se impõe não é uma autocrítica performática, mas uma reflexividade institucional capaz de nomear, com precisão, quais práticas servem ao aprofundamento democrático e quais servem, sob a aparência de equilíbrio, à reprodução das relações de força que tornam o debate público sistematicamente empobrecido.
***
Ramsés Albertoni é Professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutor em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador do Grupo de Pesquisa Comunicação, Arte e Literacia Midiática.
