
(Foto: cottonbro studio/Pexels)
O modelo de jornalismo com o qual nos acostumamos a conviver já não consegue mais manter o fluxo necessário de informações e notícias no nível de confiabilidade exigido pela sociedade contemporânea. A pá de cal está sendo dada pela inteligência artificial (IA) porque ela aprofunda ainda mais o ciclo de mudanças na profissão, iniciado com a computação e a internet. O caos informativo não é mais uma imagem retórica impactante. Ele se torna ainda mais real com a massificação de programas como ChatGPT, Gemini, Copilot, Anthropic e Llama.
Uma nova inserção do jornalismo na realidade contemporânea é inadiável porque a IA começa a despejar sobre a sociedade uma quantidade inimaginável de informações, sem que tenhamos elementos básicos de confiabilidade sobre o conteúdo dos megabancos de dados que começam a ser construídos no mundo inteiro. Também é cada vez mais difícil lidar com os vieses embutidos nos algoritmos que processam estes dados a velocidades astronômicas.
No início de junho último, um tribunal da cidade de Munique, na Alemanha, decidiu que a empresa Google é responsável pelos erros cometidos pelo programa Gemini em informes produzidos para duas empresas germânicas. O programa usou fontes falsas que acabaram influindo no relatório final. Dois meses antes, em abril, o The New York Times publicou o resultado de um informe feito pela empresa Oumi, mostrando que o mesmo Gemini acertou em 91% dos informes produzidos, mas errou em nove deles. Segundo o jornal, isto compromete a credibilidade do programa, porque há um risco real de equívocos, o que pode ser fatal para uma pessoa, empresa ou governo. Não é uma questão de achar a IA boa ou ruim. Ela simplesmente já existe e vai ficar, como ficaram tantas outras inovações tecnológicas.
O caos informativo gerado pela internet, que ainda assusta muita gente, especialmente no ambiente das plataformas digitais, não passa de uma pálida imagem do que vem por aí em matéria de avalanche informativa. Se até agora íamos ao Google para saber onde estava determinada informação, agora o mesmo Google, com seu sistema Gemini de IA, nos fornece a solução do problema que antes tentávamos resolver com buscas na web. Mudou o parâmetro e o que precisamos hoje é saber se as respostas de programas como Gemini, Copilot, Anthropic e GPT podem ser usados integralmente na tomada de decisões cruciais, tanto por governos e empresas como por indivíduos.
O jornalismo como sistema
É óbvio que as pessoas comuns não têm as mínimas condições de fazer esta avaliação. Até mesmo os jornalistas mais experientes terão muita dificuldade em emitir um parecer. É muito difícil saber quais instruções foram dadas ao algoritmo para realizar a seleção de dados ou quais instruções foram inseridas nele para interpretar e resumir todos os elementos obtidos. O algoritmo varreu milhares de documentos arquivados em bancos de dados e quem quisesse checar tudo teria que examinar cada registro, o que é humanamente impossível. O que sobra então para o jornalismo?
A IA empurrou o jornalismo para um novo contexto, aprofundando ainda mais as transformações geradas pela internet e pela digitalização. A IA criou ferramentas para ampliar exponencialmente o universo de dados, fatos, eventos e ideias a serem recolhidos, recombinados e processados. Estas eram atribuições típicas do trabalho de repórteres, editores e comentaristas, mas elas hoje passam a ser, em grande parte, executadas por algoritmos.
Você pode pedir a um software de IA para traduzir textos sobre um tema escolhido, depois recombinar todos estes textos e finalmente produzir um resumo. O que sobrou para o jornalista é analisar como o resultado do trabalho do software, ou dos vários softwares de IA interfere na vida de pessoas, organizações, comunidades e países. A análise é, na verdade, um processo de aprendizagem a partir dos elementos fornecidos pela Inteligência Artificial. Estes elementos não são os mais importantes, nem os mais escassos. São insumos, o importante é a aprendizagem, é aí que está o valor agregado máximo no uso da IA.
O jornalismo precisa transformar a aprendizagem informativa num sistema, ou seja, criar um método que permita incorporar num mesmo processo as ferramentas de IA, o conhecimento empírico das pessoas, a expertise no manejo da informação e o engajamento profissional/público. Este sistema, além de implicar profundas alterações no processo atual de fabricação de notícias para o comércio informativo na imprensa, vai se caracterizar por uma constante mutação e inovação. A cada realidade estudada, interpretada e assimilada corresponde uma nova realidade que exigirá também um novo ciclo de aprendizagem. É aí que se insere o jornalismo.
Tudo indica que a função do jornalismo no contexto da IA deixará de ser a de complemento na produção de informações para se tornar um sistema integrado à sociedade. Algo que as pessoas irão incorporar ao seu modo de vida, 24 horas do dia, 365 dias do ano. Qualquer insumo informativo (e nós somos bombardeados permanentemente por eles) precisará passar por um crivo individual para identificar se, e como, o novo fato, dado, evento ou ideia afeta o cotidiano individual.
Não se trata de avaliar confiabilidade porque esta está se tornando uma tarefa sobre-humana. A melhor forma de fazer uma avaliação é verificar como a notícia ou informação muda as rotinas, regras e valores do indivíduo. O jornalismo é a atividade que incorpora as condições ideais para exercer a tutoria no processo de gerar uma nova conduta das pessoas comuns diante da notícia e da informação.
O problema do jornalismo na era da IA não é discutir qual é o maior banco de dados, qual o software mais eficiente e qual o algoritmo mais rápido. O grande desafio não é mais produzir textos, sons e imagens, mas sim como textos, sons e imagens, produzidos com o uso de ferramentas de IA, incidem sobre a vida das pessoas, comunidades e nações. Uma nova concepção do jornalismo deve levar em conta que a atividade passa a ser algo integrado permanentemente ao quotidiano das pessoas e não algo esporádico que elas consultam quando sentem necessidade.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
