Segunda-feira, 20 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1397

O que fazer com o jornalismo?

(Foto: Negative Space/Pexels)

Esta é uma pergunta que deveria estar tirando o sono daqueles que ainda se preocupam com o futuro da profissão. Não há mais muitas dúvidas de que a imprensa deixou de ser um bom negócio. Também já está mais ou menos claro que a inteligência artificial tende a ocupar espaços até agora exclusivos do jornalismo. Apesar de todos estes indicadores negativos, os desdobramentos do conflito entre o velho e o novo permitem vislumbrar oportunidades inéditas na história do jornalismo, como tentaremos mostrar a seguir. Mas, antes disto, é necessário entender como chegamos até aqui.

Pressionados pela avalanche de inovações que mudaram radicalmente as rotinas, regras e valores da atividade jornalística, profissionais e não profissionais foram empurrados para uma inglória luta pela sobrevivência material. Por falta de tempo, de informação e de dinheiro, foram obrigados a abraçar a internet e a computação como ferramentas sem ver que ambas configuram uma ruptura profunda na forma como o jornalismo foi exercido desde Gutenberg.

O jornalismo tradicional está perdendo gradualmente suas principais referências teóricas construídas a partir de conceitos liberais-democráticos. Parâmetros como isenção, imparcialidade, objetividade, direitos autorais, sigilo de fonte e liberdade de expressão estão sendo questionados no dia a dia da profissão por novas forças sociais surgidas com a quebra dos paradigmas sociais analógicos.

Os novos protagonistas na agenda noticiosa são as chamadas big techs, cuja influência política, e especialmente financeira, decorre do fato de terem corrompido o conceito de redes sociais para criar plataformas digitais e de estarem agora empenhadas também na monetização da inteligência artificial (IA). O jornalismo e a imprensa acabaram relegados à condição de atores secundários na complexa batalha das plataformas para controlar corações e mentes de sete bilhões de seres humanos.

Dilema profissional

Os empresários que enriqueceram usando o jornalismo para montar conglomerados midiáticos já perceberam que o seu negócio não é rentável e estão extraindo o máximo possível do capital investido em imóveis, máquinas e visibilidade pública para aplicar em outros setores econômicos. Mas apesar da debilidade financeira, os grandes grupos midiáticos ainda são peças importantes na construção da agenda pública de debates que condiciona a luta pelo poder político.

Por estarem disputando a atenção do público para ganhar dinheiro, a imprensa e plataformas acabaram entrando em rota de colisão. As empresas jornalísticas decidiram peitar as plataformas alegando acesso ilegal a textos e documentos publicados e arquivados em bancos de dados da imprensa. Isto originou uma batalha jurídica cujo desenlace a médio e longo prazo pode pesar a favor das plataformas, devido ao fator financeiro. Os jornalistas ficaram diante da difícil opção entre trabalhar para empresas como Alphabet (dona do Google/Gemini), Meta (dona do Facebook) e a OpenAI (dona do ChatGPT), ou assumir os riscos de uma aventura solo na produção de notícias, comentários e entrevistas.

Trabalhar para plataformas digitais implica pôr os princípios básicos do jornalismo num segundo plano e aderir a um esquema comercial de fidelização viciante da audiência visando a máxima monetização possível dos acessos de usuários. Os jornalistas passaram a ter que redefinir sua inserção num novo ecossistema informativo dominado por megaempresas de tecnologia. Isto criou uma ameaça estrutural e uma oportunidade conjuntural única na história da profissão.

Oportunidade histórica

A ameaça vem das plataformas (tipo Facebook, Tiktok e Instagram) e das big techs da IA que não consideram o jornalismo um componente essencial do seu negócio. Já a oportunidade assume contornos mais claros à medida que a avalanche de inovações tecnológicas mostra às pessoas a importância fundamental que a informação passou a ter no desenvolvimento material e intelectual da sociedade. Nossa sobrevivência no mundo digital depende diretamente da nossa capacidade de desenvolver novos conhecimentos, o que só é possível com acesso à informação, item que é parte integrante e obrigatória no exercício do jornalismo.

A inteligência artificial complicou extraordinariamente nossa relação com a informação porque a IA, ao interpretar dados obtidos na varredura de bancos de dados digitais, aumentou a exigência de qualificação do trabalho jornalístico. Repórteres, editores e comentaristas estão diante de uma realidade totalmente nova e inexplorada. O jornalismo perdeu o monopólio da produção de notícias e já não é mais essencial na sua disseminação, porque ela é feita pelas plataformas digitais e redes sociais. E agora enfrenta concorrência de programas de IA como ChatGPT, CoPilot, Gemini e Claude na interpretação de dados, fatos e eventos.

A nova realidade obriga o jornalismo a repensar sua relação com os fatos e, principalmente, com as pessoas. As rotinas, normas e valores que ainda fazem parte da cultura profissional estão se tornando obsoletos diante do acúmulo de inovações tecnológicas que alteraram radicalmente a forma como nós, jornalistas, lidamos com a informação. Há muitas dúvidas e polêmicas, mas já dá para vislumbrar, a partir de experiências com o jornalismo local, que uma grande mudança deve acontecer no relacionamento com o público. As pessoas começam a cobrar uma parceria com jornalistas para entender como os fatos do cotidiano afetam suas vidas.

Esta mudança de prioridades é essencial para a sobrevivência do jornalismo como atividade socialmente relevante e insubstituível na produção de conhecimentos, exigindo profundas transformações nas rotinas, regras e valores da profissão.