Sábado, 11 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1396

Terra e Giro10: Fontes falsas de IA acendem debate sobre ética no jornalismo

(Foto: cottonbro studio/Pexels)

Não temos muito para onde correr: de novo, o assunto da vez é o impacto da inteligência artificial (IA) no jornalismo. Na última semana, a colega Magali Moser ofereceu aqui neste mesmo espaço uma reflexão sobre o futuro do jornalismo em tempos de IA; poucos dias depois, o Giro10, parceiro do portal Terra, publicou um mea-culpa sobre um artigo que continha declarações fictícias de fontes imaginárias geradas por IA. Em nota, o editor do Giro10, Carlos Vieira, reconheceu o erro cometido e afirmou que houve falha no processo de checagem e liberação do conteúdo, que foi publicado exclusivamente pelo Terra.

A matéria em questão, publicada em 26 de junho e intitulada “Fibras em excesso: especialistas alertam para efeitos colaterais de tendência das redes sociais”, vinha com a informação de que o conteúdo havia sido produzido com auxílio de ferramentas de IA e informava o uso de “entrevistas simuladas” com especialistas “imaginários e fictícios”, como o “nutricionista clínico imaginário Dr. Rafael Martins” e a “gastroenterologista fictícia Dra. Helena Costa”. Além da nota do Giro10, o Terra também se manifestou, informando que os mecanismos de revisão estão passando por reforços e que a publicação de novos textos do parceiro está suspensa até a revisão do processo de checagem.

Na terça-feira (1º), a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) publicou uma nota sobre a necessidade de regulamentação do uso de IA para a prática jornalística, denunciando o caso e relembrando que essa não é uma situação isolada: ainda em 2024, centenas de textos foram removidos do site Bebê, da Editora Abril, devido a denúncias de plágio do conteúdo e da atribuição de autoria a uma jornalista fictícia. Segundo a Federação, a aceitação do uso de IA como “recurso válido para a prática jornalística conflitam diretamente com princípios básicos da profissão, como a credibilidade da informação, a checagem independente dos fatos e a responsabilidade social de divulgar informações úteis, confiáveis e verificáveis”.

As erratas e notas de esclarecimento dos dois veículos são importantes, mas não são suficientes. Em tempos de queda na confiança do público no jornalismo, erros como esse contribuem para afundar ainda mais a relação das pessoas com as notícias. O Digital News Report 2026 aponta que a confiança global no noticiário atingiu o nível mais baixo já registrado pela série (37%), e dados do Generative AI and news report 2025 mostram que há uma grande diferença entre o quão confortável o público se sente com o uso de ferramentas de IA pelo jornalismo: segundo a pesquisa, apenas 12% ficam à vontade com notícias produzidas por IA em sua totalidade, enquanto 62% têm preferência por um processo completamente humano.

Em uma pesquisa sobre diretrizes para o uso de IA em jornais de referência, realizada no ano passado e apresentada no 23º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), o colega Eduardo Vasconcelos e eu identificamos orientações bastante amplas e generalistas quanto ao uso dessas ferramentas. Nesse estudo, nós analisamos os manifestos de três veículos brasileiros (Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo) e dois estrangeiros (The New York Times e The Guardian) com foco na produção de imagens jornalísticas, e identificamos que cada organização determina seus próprios limites, visto que não há uma regulamentação geral. Os três jornais brasileiros reforçam a presença de supervisão humana em todos os processos que envolvem IA e mencionam a importância da transparência; no entanto, as diretrizes são vagas e, em três dos cinco casos, ficam escondidas atrás do paywall.

A discussão sobre o uso de IA tem muitas nuances. Enquanto bilionários da tecnologia tratam essas ferramentas como “inevitáveis”, é preciso dar um passo atrás e refletir se elas são, mesmo, inescapáveis. Adotar uma ferramenta simplesmente porque ela está disponível não parece ser razão suficiente, e a ausência de uma regulamentação sobre os usos possíveis favorece o uso acrítico e, conforme destaca a Fenaj, impacta diretamente não apenas os princípios básicos da profissão, mas também os empregos e direitos trabalhistas dos jornalistas, categoria sob constante ataque no Brasil.

Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) 2338/2023. Aprovado em 2024 pelo Senado Federal, o texto propõe uma abordagem baseada em riscos, inspirada no AI Act adotado pela União Europeia em 2024. Enquanto o marco legal ainda está em discussão, entidades como a Associação de Jornalismo Digital (AJOR) procuram oferecer diretrizes para os principais usos dessas ferramentas no jornalismo, bem como informações sobre políticas de IA para redações e recursos adicionais de leitura. Utilizadas inicialmente para automação de tarefas — como transcrição de áudio, por exemplo —, as IAs hoje fazem parte dos processos de apuração, análise de dados, e outras etapas da produção da notícia, e é essencial que os jornalistas compreendam o impacto dessas ferramentas e que o público seja informado corretamente sobre como e quando elas foram empregadas. No ensaio “The AI turn in journalism: Disruption, adaptation, and democratic futures”, os pesquisadores Tomás Dodds, Rodrigo Zamith e Seth C. Lewis têm um olhar mais otimista: os autores veem o cenário como “uma oportunidade para repensar o que nós queremos que os cidadãos ganhem com o jornalismo, e promover parcerias entre o setor, entidades civis e instituições de ensino para criar agentes e ferramentas que levem a estes objetivos” (2025, p. 538, tradução minha). Ainda assim, é importante não ceder ao deslumbramento tecnológico e pensar criticamente sobre como, quando e por que uma ferramenta pode ou deve ser incorporada à prática jornalística.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Natália Huf é Doutora em Jornalismo pelo PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS