Sexta-feira, 12 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1392

“Who owns your news?”: Com mais da metade das empresas de mídia controladas por bilionários, liberdade de imprensa cai em todo o mundo

(Foto: Yunus Erdogdu/Pexesl)

O domingo de ontem, 03, marcou o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Determinada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1993, a data é dedicada à defesa dos profissionais de mídia contra ataques à sua independência e à celebração dos princípios fundamentais da liberdade de imprensa, bem como uma forma de homenagear jornalistas que perderam a vida no exercício da profissão. Porém, os dados mostram que não há muito a comemorar: conforme o relatório mais recente do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, conduzido anualmente pelo Repórteres Sem Fronteiras (RSF), 52,2% dos países estão em situação considerada “difícil” ou “muito grave”.

Divulgado no último dia 30, o levantamento analisa a situação de 180 países com base em indicadores econômicos, de segurança, políticos e sociais para avaliar o estado da liberdade de imprensa no mundo. Ao longo dos 25 anos do relatório, que teve sua primeira edição em 2002, a liberdade de imprensa nunca esteve tão baixa, e apenas 1% da população mundial vive em locais favoráveis. Em um movimento contrário ao da maior parte da América Latina, o Brasil é um dos países que vêm apresentando melhorias: em 2026, ocupa a 52ª posição — era o 63º no ano passado, e subiu 58 posições desde 2022, quando era o 110º — e, pela primeira vez, ultrapassa os Estados Unidos que, sob o governo Trump, caiu do 57º para o 64º lugar. Dentre os países da América do Sul, fica atrás apenas do Uruguai (48º).

Em meio ao caos da vida cotidiana, cheguei a esses dados de uma maneira um pouco improvável: foi por um e-mail marketing do jornal britânico The Guardian, uma daquelas mensagens periódicas solicitando apoio financeiro dos leitores. Mas a mensagem veio com um título intrigante, que tomei emprestado para este texto: “who owns your news?” Considerando que 2025 foi, segundo o RSF, o ano mais perigoso para a liberdade de imprensa mundial desde o início dos registros, essa pergunta nunca foi tão importante. O cenário atual se deve às guerras em curso, como o conflito entre Israel e Palestina — que segue mesmo após o cessar-fogo formalizado em outubro do passado e contabiliza mais de 200 jornalistas mortos até o momento, sendo considerada a guerra mais mortal para jornalistas na história registrada —, além de Iraque, Sudão e Iêmen, mas também a um outro aspecto que vem impactando o setor jornalístico nos últimos anos: a presença cada vez mais forte de bilionários da tecnologia e de suas empresas, que transformam rápida e profundamente a forma como as notícias chegam ao público.

Quando o The Guardian questiona quem são os donos das notícias, não se refere apenas aos monopólios e oligopólios, já velhos conhecidos do setor; e, mesmo que as gigantes de tecnologia já façam parte do jogo há pelo menos uma década, a opacidade algorítmica é uma ameaça crescente à independência editorial e à sobrevivência financeira das empresas jornalísticas. Publicado no início deste ano pela confederação Oxfam International, o relatório Resisting the Rule of the Rich: Defending Freedom Against Billionaire Power (Resistindo ao domínio dos ricos: defendendo a liberdade contra o poder dos bilionários) mostra que mais da metade das maiores empresas de mídia do mundo pertencem ou são controladas por bilionários, e que a maioria das plataformas de redes sociais são administradas por um pequeno grupo de pessoas extremamente ricas. Segundo a confederação, essa concentração de propriedade faz com que a riqueza extrema se torne uma influência política ainda maior, com potencial de moldar a opinião pública, marginalizar vozes dissidentes, e normalizar políticas que favorecem os ricos em detrimento do cidadão comum, legitimando o poder da elite sobre a sociedade.

Claro, isso não é novidade; mas, considerando que as fortunas de bilionários vêm crescendo três vezes mais rápido desde a eleição de Trump em 2024 do que nos cinco anos anteriores e que o número de bilionários no mundo aumenta (chegou a 2.900 no fim do ano passado), o relatório da Oxfam destaca que o maior perigo não é a censura direta, mas a influência sobre o tipo de matérias publicadas, as fontes ouvidas e o que é silenciado, como quando Jeff Bezos — dono da Amazon, da empresa aeroespacial Blue Origin, e do jornal Washington Post — impediu a publicação de um editorial em apoio à candidata Kamala Harris. O mesmo aconteceu no Los Angeles Times, de propriedade do bilionário sul-africano Patrick Soon-Shiong, conterrâneo de Elon Musk, atual proprietário do X (antigo Twitter). Na França, o canal CNews se transformou em um equivalente da Fox News estadunidense após a compra por parte do conglomerado Vivendi, de propriedade do bilionário de extrema-direita Vincent Bolloré e, no Reino Unido, três empresas controlam 90% da circulação nacional de jornais: a DMG Media, News UK e Reach, todas na mão de super ricos.

Enquanto o jornalismo perde seu financiamento tradicional via publicidade e busca encontrar novas formas de se financiar, veículos e plataformas de mídias sociais são comprados por figuras como essas e ganhando cada vez mais força para determinar que tipo de conteúdo circula e o que é suprimido, por meio de decisões editoriais e de algoritmos pouco (ou nada) transparentes. Os bilionários já entenderam a importância do jornalismo, e não é coincidência que os níveis de liberdade de imprensa estejam tão baixos: com a crescente concentração de mídia em um grupo pequeno de pessoas, aumenta a desigualdade e o retrocesso democrático, além da pressão sobre jornalistas e de processos contra jornalistas, como as ações judiciais estratégicas contra a participação pública (Strategic Lawsuits Against Public Participation, também conhecidas como SLAPPs). O relatório do RSF, inclusive, identifica o quadro jurídico como o que mais se deteriorou no último ano, tanto em países como Indonésia (129º), Cingapura (123º) e Tailândia (92º), que ficaram em posições mais baixas no ranking, quanto em países democráticos e relativamente bem situados, como a França (25º); vale destacar que, na Europa, o número de SLAPPs vem crescendo desde 2010 e, segundo dados da Coalition Against SLAPPs in Europe (CASE), já são 1.303 casos documentados.

Os dados são preocupantes, mas acredito que exista luz no fim do túnel. Um exemplo é a ascensão do Brasil no ranking: embora parte desse aumento tenha a ver com a deterioração da situação em outros países, ela mostra que a manutenção de um ambiente democrático é essencial. Por adotar uma agenda de regulação das plataformas e da inteligência artificial, promover ações de combate à desinformação e implementar medidas como a criação do Observatório Nacional de Violência contra Jornalistas e de um protocolo de investigação de crimes contra a imprensa, como destaca o jornalista e diretor do RSF para a América Latina, Artur Romeu, o Brasil vem contribuindo para a melhoria de seu índice de liberdade de imprensa e para que se estabeleça uma dinâmica com mais respeito e proteção ao trabalho jornalístico, especialmente em meio aos constantes ataques políticos e por parte de quem controla as mídias e as plataformas.

PubLicado originalmente em objETHOS

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Natália Huf é Doutora em Jornalismo pelo PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS