Sexta-feira, 19 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1393

O futuro do jornalismo está nas mãos dos jovens, que no momento mais o ignoram

(Foto: Mizuno K/Pexels)

Os dados do Digital News Report 2026, do Instituto Reuters, divulgados nesta terça-feira (16), aprofundam as tendências dos últimos anos e, de modo geral, não são animadores para quem faz e defende o jornalismo, as liberdades de imprensa e de expressão e o avanço da democracia.

No entanto, um olhar mais atento sobre esse e outros levantamentos, além de sinais relacionados ao comportamento das pessoas diante do poder excessivo das big techs e do uso inadequado da inteligência artificial (IA), indica que talvez estejamos diante de uma oportunidade histórica. A virada dos ventos pode vir justamente das gerações que menos audiência e engajamento dedicam às notícias e às reportagens, muitas vezes produzidas com elevados custos e riscos.

O levantamento do Instituto Reuters revela que, pela primeira vez, as mídias sociais e as plataformas de vídeo se tornaram a principal porta de entrada para notícias online, utilizadas por 54% dos entrevistados. Os sites e aplicativos das organizações jornalísticas aparecem com 51%. Já a confiança nas notícias caiu para 37%, o menor índice global desde o início da série histórica, em 2015.

O audiovisual é o formato preferencial do público: 77% da população mundial assiste a vídeos jornalísticos online todas as semanas (e não apenas os curtos). O problema é que esse consumo ocorre via redes sociais e plataformas de terceiros, e não nos ambientes digitais das empresas de notícias. Entre elas estão Facebook (43%), YouTube (34%), Instagram (26%) e TikTok (20%). Em média, as empresas jornalísticas registraram queda de cinco pontos percentuais no consumo de vídeos em seus próprios canais digitais.

Distanciamento dos canais de jornalismo

Entre os mais jovens, tudo parece ainda mais desafiador para o jornalismo. Levantamentos apontam um afastamento gradual em relação ao consumo tradicional de notícias. Em 2007, Harvard revelou que apenas 9% dos adolescentes e 16% dos jovens adultos liam jornais diariamente.

Quase vinte anos depois, o cenário ficou ainda mais turvo. Atualmente, segundo o Pew Research Center, apenas 15% das pessoas entre 18 e 29 anos afirmam acompanhar notícias sempre ou na maior parte do tempo. Entre aqueles com mais de 65 anos, o índice alcança 62%.

Pesquisa anterior do Instituto Reuters constatou que os jovens consomem informação, mas raramente chegam a ela pelos canais jornalísticos. O levantamento apontou que 76% das pessoas entre 18 e 29 anos recebem notícias pelas redes sociais ao menos ocasionalmente. O documento divulgado nesta semana, por sua vez, mostra que, globalmente, 52% dos entrevistados de 18 a 24 anos afirmam que redes sociais, plataformas de vídeo e chatbots de IA são suas principais fontes de informação.

Ao mesmo tempo, 56% dos integrantes dessa faixa etária que não leram jornais na última semana afirmam nunca ter cultivado esse hábito de forma regular. Entre os que deixaram de acompanhar noticiários de televisão, esse percentual é de 21%.

Essas gerações cresceram em um cotidiano marcado por redes sociais, algoritmos de recomendação, bolhas de confirmação e, mais recentemente, IA. A vida delas está integrada a essas tecnologias e fenômenos sociais (ou efeitos colaterais) do meio digital.

Levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) indica que 65% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos incorporaram a inteligência artificial ao dia a dia, enquanto 59% utilizam a tecnologia em pesquisas escolares e estudos. Pesquisa da Nexus e Demà revela que 83% dos jovens entre 14 e 29 anos recorrem à IA para pesquisas gerais ou acadêmicas. Além disso, 71% acreditam que a ferramenta ajuda nos deveres de casa, em trabalhos e nos estudos para provas de escolas, faculdades, universidades ou cursos técnicos.

O mais recente relatório do Instituto Reuters aponta que o uso de chatbots de IA para busca de notícias passou de 7% para 10% em apenas um ano. Entre os menores de 35 anos, o índice chega a 16%. Na faixa de 18 a 24 anos, a utilização dessas ferramentas para acessar notícias, de 17%, é mais de três vezes superior à registrada entre os mais velhos, de apenas 5%.

Reação à “cara de IA”

Mas crianças, adolescentes e jovens adultos também têm demonstrado cansaço em relação a esses hábitos e aos discursos, serviços e práticas das grandes empresas de tecnologia, incluindo a coleta e o uso de dados marcados por pouca transparência.

A juventude sinaliza desconfiança em relação ao poder desmedido das grandes empresas de tecnologia e à forma como vem sendo construída a economia baseada em inteligência artificial. Rejeita conteúdos produzidos com a ferramenta, apontando a pasteurização da informação, a apropriação de talentos e a falta de humanidade. Torce o nariz, revira os olhos e chama isso de “cara de IA”.

Pesquisa da CNBC/SurveyMonkey indica que 37% dos estudantes evitam utilizar inteligência artificial por questões de privacidade, e o mesmo percentual desconfia da precisão das respostas. Outros 36% apontam razões éticas e ambientais, enquanto 65% acreditam que a tecnologia reduzirá as vagas no mercado de trabalho. A Harvard Kennedy School mostra que cerca de 70% dos universitários enxergam a IA como uma ameaça às perspectivas de emprego.

Todas essas preocupações têm produzido efeitos concretos. Reportagem da Associated Press, publicada pelo G1, relata casos de estudantes que abandonam cursos tradicionalmente associados à tecnologia para migrar para áreas vistas como mais dependentes de habilidades humanas.

A mudança de humor da juventude em relação à inteligência artificial também tem se manifestado em cerimônias de formatura nos Estados Unidos. Executivos e empresários passaram a enfrentar reações hostis de estudantes ao defenderem os supostos benefícios da tecnologia ou ao minimizarem seus impactos sobre as oportunidades de trabalho.

O caso mais recente envolveu o CEO do Google, Sundar Pichai, convidado para ser o orador principal da formatura da Universidade Stanford, no último domingo (14). Assim que começou a discursar, formandos deixaram o evento, em um protesto organizado por grupos como o Students for Justice in Palestine e o No Tech for Apartheid.

Jornalismo e educação: uma aliança transformadora

Os jovens conhecem os benefícios que essa tecnologia pode gerar, mas, até aqui, muitos acreditam que os riscos desequilibram a balança. Na prática, são as gerações que mais utilizam inteligência artificial e também as primeiras a perceber e sofrer seus limites.

É aí que entram o conhecimento e a busca criteriosa pela verdade dos fatos: escolas, universidades e jornalismo.

No Brasil, essa integração encontra elementos favoráveis ao seu desenvolvimento. A educação midiática tornou-se obrigatória na educação básica, e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) incorpora práticas ligadas ao jornalismo, como produção de reportagens, edição de conteúdo, análise crítica da informação e reflexão ética sobre comunicação, como destaca o e-book sobre jornalismo e letramento midiático do EducaMídia, do Instituto Palavra Aberta.

O poder transformador do jornalismo nas escolas e na academia, porém, não é novidade. No início dos anos 1970, algumas escolas brasileiras mantinham a disciplina Atualidades, dentro dos Estudos Sociais. Naquela época, meu pai, o jornalista Hélio Gama Filho, recebeu um convite para lecionar a matéria em um colégio feminino.

A experiência foi transformadora. A visão jornalística que transmitiu às alunas mudou de forma profunda a maneira como encaravam os estudos e a vida que tinham pela frente. Tanto que ele se tornou o paraninfo da turma na formatura do que hoje chamamos de ensino médio.

Ao longo dos meus quase 40 anos de jornalismo, mais alguns anos correndo pelas redações ou ouvindo grandes profissionais nos churrascos de fim de semana, vi muitas e belas iniciativas voltadas para escolas e universidades. Talvez o exemplo mais rico sejam os vários produtos editoriais e educacionais da antiga Editora Abril.

Hoje, há menos iniciativas, é verdade. Mas elas existem e precisam ser ampliadas. É necessário, porém, ir além e construir uma troca real de informações com os jovens.

Publishers, editores e jornalistas terão uma ótima oportunidade para entender melhor esse desafio no 4º Data Day, da ANJ, em 28 de julho, na ESPM Tech, em São Paulo. A Box 1824, com base em dados do Google, apresentará um estudo com informações inéditas sobre o consumo de notícias pelas novas gerações.

Disposição para entender e dialogar com os jovens

Já sabemos, porém, que precisamos explorar capacidades que continuam sendo exclusivamente humanas: investigação, contextualização e verificação. Essa é a essência do jornalismo. Sem ela, não há informação digital íntegra, segurança online nem democracia.

O próprio relatório do Instituto Reuters não esconde certa esperança. “Observamos uma gama de reações: ansiedade, desinteresse e cinismo, mas também abertura a novas fontes e formatos e a crença contínua no que o jornalismo de melhor qualidade pode oferecer”, afirmam os pesquisadores.

Para eles, enquanto há uma mudança contínua no consumo de notícias em favor das mídias sociais, das redes de vídeo e da inteligência artificial, “também crescem as preocupações com a confiança nas notícias, com a desinformação e com o impacto mais amplo dessas tecnologias”.

Os dados mostram que os jovens não abandonaram a informação. Afastaram-se de parte dos caminhos tradicionais que levavam até ela. Continuam lendo (ok, e vendo muito mais vídeos), pesquisando, compartilhando conteúdos e tentando entender o mundo.

O problema não está na busca por informação. Está na forma como as notícias e reportagens chegam até a juventude. O jornalismo está desafiado a compreender a ambiguidade vivida pelas novas gerações, a oferecer conteúdo em diferentes formatos e canais e a estar disposto a dialogar com esse público (recomendo a pesquisa da Kontext Club/Wiener Zeitung), sobretudo nas escolas e nas universidades.

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Hélio Gama Neto é jornalista com quase 40 anos de atuação em imprensa, comunicação institucional e consultoria. Passou por redações como Agência Estado, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil, atuou como consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT), coordenador de comunicação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) do Rio Grande do Sul e coordenador de comunicação e educação ambiental do Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre (DMAE). Liderou projetos editoriais como o jornal OI — em versões impressa, digital e televisiva — e a revista ANÁLI$E, com coberturas voltadas a desenvolvimento sustentável e responsabilidade social da Grande Porto Alegre e do RS. Desde 2015, responde pela comunicação da Associação Nacional de Jornais (ANJ).