
(Foto: Melanie Wasser/Unsplash)
A nossa leitura atual (e compartilhamento de ideias e informações), se contarmos apenas com as redes sociais, é em bolhas e sabemos disso. Então, a primeira observação foi mesmo a partir da minha bolha, que me entrega postagens de amigos, perfis de figuras públicas, notícias e opinião de veículos jornalísticos, memes e coisas que a gente nem sempre pede pra ver também. Mas isso fica para outro dia. O que queria dizer é que, a partir da minha bolha, observei que os temas que envolvem o dia da mulher este ano são menos sobre receber flores. Já tem um tempo que vem sendo assim. Não dê parabéns, lute comigo. Mas este ano, sobretudo, parecem ser mais evidentes as chamadas por posicionamento e denúncia das violências contra a mulher. E aí não se trata apenas de bolhas de perfis pessoais. É sobre isso que irei tratar no Comentário desta semana.
Se perguntada, a IA do Google te diz que “as manchetes de 8 de março de 2026 destacam o Dia Internacional da Mulher focado no combate ao aumento da violência e feminicídio no Brasil”. Então, o jornalismo esteve entre os agentes que tanto perceberam a mudança de tom da sociedade quanto tem colaborado em alguns casos para o agendamento de temas que envolvam violência contra as mulheres. Sobretudo nas discussões em torno de dados de feminicídio, uma palavra um tanto recente e uma qualificadora do crime de homicídio, que foi incluída no Código Penal em 2015. O feminicídio foi definido pela Lei nº 13.104/2015 e passou a qualificar o homicídio ‘’contra a mulher por razões da condição de sexo feminino’’, ou seja, a vítima morre por ser mulher. Essas condições são reconhecidas na violência doméstica e familiar ou por menosprezo e discriminação à condição de mulher.

Manchetes de jornais populares e mainstream
Jornais considerados populares ou regionais, trouxeram manchetes mais evidentes sobre o tema, e maior espaço de primeira página. O jornal O Dia chama na capa o 8 de março: “A violência contra as mulheres faz soar sinal de alerta do fim do mundo’’, para usar uma expressão que também está na boca do povo nas redes mencionando desastres ambientais, guerras contemporâneas, decisões políticas e todo tipo de emergência atual. O Correio do Povo gaúcho abriu a capa inteira com uma foto de uma jovem com a mão cobrindo o rosto e a outra próxima da lente como um sinal de pare. E a manchete enfatiza que a violência contra as mulheres ultrapassa gerações: ‘’Da infância à velhice, a violência se repete’’. A manchete anuncia a matéria principal com dados do Mapa da Violência de 2025 que apontam uma maior letalidade da violência contra mulheres jovens e adultas, sendo 71,1% das vítimas, segundo o jornal citando o levantamento. E ainda que, apesar dessa concentração nas mortes, a violência de forma geral contra mulheres, entre abusos e agressões, se distribui entre todas as faixas etárias.
Já a Folha de S. Paulo não deu destaque para o tema na capa impressa do dia. A não ser por uma chamada de duas matérias, que foram publicadas no jornal, no Cotidiano. Uma delas chama para conhecer ‘’Histórias de 8 vítimas de feminicídio’’ , que têm em comum, segundo a matéria, a presença anterior de ameaças. No site, o jornal desdobra o tema em outras reportagens como o levantamento do Instituto Sou Paz sobre o uso de armas nos casos de violência doméstica. A matéria apresenta o dado de 85% a mais de risco de morte de mulheres quando há a presença de armas de fogo em episódios de violência doméstica. “As armas de fogo matam muito mais as mulheres do que simplesmente ferem”, explica na matéria a diretora-executiva do Instituto, Carolina Ricardo. Segundo a matéria, que publicou dados de 2024 analisados pelo Instituto Sou da Paz, cerca de 47% dos homicídios contra mulheres foram cometidos por armas de fogo. Ao mesmo tempo em que, nos casos diretos de feminicídios, as armas brancas são os principais responsáveis. Cerca de 48,7% dos casos por facas ou objetos cortantes.
No dia da mulher, os levantamentos, reportagens e textos de opinião passam longe de comemorações, romantizações de superação ou conquistas reais. Mesmo quando o tema sai da violência física, as reportagens e histórias de mulheres que foram publicadas, com esse breve olhar sobre as coberturas do dia 8, trazem as dificuldades que as mulheres enfrentam na pesquisa, no mercado de trabalho e em outras áreas em comparação aos homens e aos melhores desempenhos esperados. ‘“Parece que as mulheres cientistas têm de trabalhar muito mais”, diz a bióloga premiada pela Capes’ é o título da matéria da Folha de S. Paulo publicada no site do jornal e nas redes neste domingo, 8 de março. Críticas, correções e outras dificuldades que acontecem em ambientes majoritariamente masculinos foram relatados pela bióloga Gabriela Noske, de 28 anos, ao jornal. Ela fala da presença de uma ou duas jovens mulheres em meio a uma turma de 20 alunos no curso de graduação em Ciências físicas e moleculares e também das dificuldades para a sua pesquisa durante o doutorado no relacionamento com colegas. E lembra que os cargos de liderança em pesquisa ainda estão mais com homens, apesar de afirmar que o seu ambiente de trabalho hoje é bem mais acolhedor do que no tempo em que fez graduação.

As matérias estão mais relacionadas aos desafios e à violência também acompanhando as coberturas de demonstrações e protestos realizados no domingo, dia 8., pelo Brasil. Em várias cidades brasileiras, sobretudo mulheres mas também homens, foram às ruas para marcar a data. Na cobertura, se percebe a predominância do tema do combate à violência. “Capitais brasileiras têm atos pelo fim da violência contras as mulheres” , diz a manchete do UOL. Sites como o Brasil de Fato e o Sul21 publicaram imagens e relatos das manifestações também. “Feminicídio e fim da escala 6X1 são pauta do Dia da Mulher em todas as regiões do país”, publica do BdF no site nacional. “Pela vida das mulheres: atos do 8 de março ocupam ruas pelo Brasil”, desta o Sul21 na capa. Site como o Nexo, que não se pauta pela cobertura factual, ainda que contextualize temas contemporâneos, se manteve no tema do combate à violência contra as mulheres. O Nexo Jornal divulgou uma lista de cinco livros sobre “ser mulher num mundo que violenta”.
Pesquisas de fôlego na cobertura
Voltando à minha bolha, muitas mulheres postaram e comentaram sobre o dia 8, sobretudo seguindo a tendência do ano de falar contra a violência, reverberando os altos índices que estão presentes no Brasil. “A cada 24h, 12 mulheres foram vítimas de violência em 2025, diz estudo” – é a manchete da CNN Brasil do dia 6 de março deste ano. O que significa, segundo o veículo, um aumento de 9% se comparado ao dado de 2024. O jornal Zero Hora aponta o Rio Grande do Sul como líder em casos de feminicídios no sul do Brasil entre 2021 e 2025, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no levantamento “Retratos dos Feminicídios”, que o jornal publicou dia 4 de março. O relatório integral da pesquisa pode ser encontrado também aqui.
O que ainda não aparece nem nas bolhas e nem na cobertura é o posicionamento público de mais homens, enquanto mulheres discutem temas que também são tratados em relação ao racismo. De que não é suficiente não ser. É também necessário ser contra a violência e dizer isso alto, assim como anti-racista. E fui pesquisar alguma coisa sobre esse tema também nas coberturas do 8 de março. E achei uma matéria da BBC Brasil, de 7 de março, mostrando pesquisa do Kings College (de Londres) em que 70% dos entrevistados brasileiros, entre homens e mulheres, acham que “os homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade com mulheres”. Este índice está acima da média global, que é de 46%, e o Brasil está na liderança porque, por outro lado, tem o menor índice entre os entrevistados de todos os países que não acham que os homens estão pressionados demais a defender a igualdade. Segundo, a matéria da BBC, a pesquisa também demonstra que entre os jovens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) há um aumento no apoio a papeis conservadores de gênero, como os que “concordam que a esposa devam obediência ao marido”. A pesquisa comentada pela BBC fala em 31% entre os homens da geração Z enquanto 13% da geração dos baby boomers (de 1945 a 1965) responderam da mesma forma. Parece que há bastante debate pra acontecer ainda.
Publicado originalmente em objETHOS.
***
Vanessa Pedro é Jornalista, doutora em Literatura pela UFSC e pesquisadora associada do objETHOS/UFSC
