
(Foto: Isaiah Ekele/Pexels)
O jornalismo perdeu o monopólio na visibilidade eleitoral? Essa pergunta tornou-se recorrente com a ascensão das plataformas digitais e o protagonismo que redes sociais, podcasts e dos conteúdos produzidos pelas próprias campanhas assumiram para construção e no posicionamento da imagem pública de candidatos. A primeira semana de debates e sabatinas presidenciais de 2026 recolocou essa questão de maneira bastante concreta.
No domingo, 23 de agosto, o primeiro debate presidencial foi esvaziado. Os principais candidatos (com maior percentual de intenção de votos nas pesquisas eleitorais) Lula e Flávio Bolsonaro, bem como Romeu Zema, não participaram; ficaram no palco Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. De acordo com a Folha, foi o debate inaugural com menor número de participantes desde a redemocratização.
A ausência dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas, entretanto, não significou sua ausência do debate. Lula e Flávio permaneceram protagonistas como alvos de críticas pelos participantes, que investiram mais na desqualificação dos adversários e em apelos emocionais do que na apresentação de propostas. Também chamou atenção uma comunicação cada vez mais adaptada à circulação digital com frases curtas, respostas ensaiadas e formulações facilmente destacáveis para cortes em redes sociais, uma estratégia massivamente utilizada por diferentes candidatos nos últimos anos.
O debate da Band explicitou um desgaste no formato. Afinal, se o debate tem permitido esse tipo de performance, então, para que ainda serve? Neste sentido, durante a semana, a crítica de mídia oscilou entre diagnosticar a perda de centralidade dos formatos tradicionais e defender exatamente aquilo que eles ainda oferecem de diferente das arenas controladas pelas campanhas.
Não é um diagnóstico uniforme. Enquanto uma parte da imprensa se concentrou em análises sobre como o formato de debate televisivo tem falhado e estaria em processo de desgaste; por outro lado, outras perspectivas defendem que, apesar de o formato estar em crise, há espaço para que o contraditório continue indispensável, oferecendo um espaço para confronto e escrutínio público dos candidatos. Há ainda uma concordância geral de que os debates na televisão não têm fim em si próprios, dando espaço para criação de memes, recortes e amplificação de determinados discursos no ambiente digital.
O Observatório da Imprensa, o UOL e a GZH trataram o esvaziamento do debate da Band como sinal de desgaste do modelo tradicional, sobretudo porque redes, podcasts e entrevistas individuais oferecem aos candidatos ambientes mais controlados. A Folha também apontou essa transformação, destacando a perda de protagonismo dos debates e a ascensão de novos formatos digitais, embora tenha publicado análises que defendem justamente o valor do confronto ao retirar dos candidatos parte do controle sobre a interação.
Em outro movimento, CNN, Agência Pública e Jornal do Commercio enfatizaram funções que o jornalismo ainda preserva: selecionar problemas, formular perguntas, confrontar declarações e organizar controvérsias públicas. A Veja acrescentou a esse debate dados indicando que debates e entrevistas ao vivo ainda têm potencial de influenciar a atenção do eleitor. Em conjunto, essas análises sugerem menos o desaparecimento da mediação jornalística do que sua transformação em uma campanha cada vez mais distribuída entre televisão, redes e plataformas.
As sabatinas da TV Globo
O contraste de maior relevância observado durante a semana foi a escolha dos candidatos em aparecerem objetivamente nas sabatinas promovidas pela Globo. Entre 24 e 29 de agosto, a Globo realizou as entrevistas individuais com os seis candidatos “mais bem colocados na pesquisa de intenção de voto da Quaest, divulgada em 14 de agosto de 2026” – de acordo com a emissora. Nelas, Zema, Caiado, Renan Santos, Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury se apresentaram para conversar com Renata Vasconcelos e César Tralli, âncoras do Jornal Nacional (JN). As sabatinas da Globo mudaram de lugar institucional justamente nesta eleição.
As sabatinas da Globo, reivindicam justamente aquilo que diferencia jornalismo de comunicação própria: perguntar, selecionar problemas, apresentar antecedentes, confrontar e retirar do candidato parte do controle sobre a interação. O que parece, neste começo de campanha oficial, é que a eleição de 2026 não parece anunciar superficialmente o desaparecimento da centralidade da televisão, mas uma transformação de sua função.
As próprias sabatinas materializam essa transformação. Pela primeira vez, elas deixaram de ocorrer formalmente dentro do Jornal Nacional e ganharam um programa especial depois dele, distribuído simultaneamente em TV aberta, GloboNews e Portal G1. Fato é que o jornalismo não perdeu a capacidade de colocar candidatos diante do contraditório, contudo, as formas pelas quais têm feito isso mudaram estruturalmente. Não é exatamente a retirada da televisão do centro da campanha, mas sua reorganização dentro de uma lógica multiplataforma.
À frente da estratégia de nove campanhas federais em 2026, João Gabriel Mangolin, diretor de Estratégia Eleitoral da Amangolin e ex-consultor de comunicação e dados da presidência da Caixa, avalia que as campanhas “ainda precisam do jornalismo, mas não no mesmo sentido que chegaram a precisar antes”. Para ele, as plataformas permitiram às candidaturas falar diretamente com públicos segmentados, testar mensagens e medir reações em tempo real. Nesse cenário, “o jornalismo acabou perdendo esse monopólio da visibilidade, desse alcance amplo, mas continua sendo uma instância importante de validação e de construção de referências que sejam comuns para todos”. Ou seja, deixou de funcionar como “aquele megafone de expansão de mensagem”, mas permanece como “um espaço autônomo de credibilidade”.
Esse deslocamento pode ser pensado também a partir do que Wilson Gomes (2026) tem chamado de reintermediação do debate público. A emergência das plataformas não eliminou os intermediários, como muitas das promessas iniciais da comunicação digital sugeriram com fatalismo. O que fez foi produzir novos agentes, novas regras de visibilidade e novas relações entre os intermediários tradicionais e os ambientes digitais.
Talvez seja justamente aí que esteja a mudança mais importante de 2026. O jornalismo já não decide sozinho aquilo que será visto durante uma campanha nem é mais o lugar exclusivo pelo qual candidatos alcançam grandes públicos. Ainda assim, preserva legitimidade, capacidade de ler acontecimentos criticamente, organizar os problemas públicos, impor perguntas e produzir situações às quais os candidatos precisam responder publicamente.
Referências:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2026/08/uma-janela-para-a-realidade.shtm
https://veja.abril.com.br/cultura/debate-na-tv-e-o-fator-que-mais-muda-voto-do-eleitor-diz-pesquisa
https://www.canalmeio.com.br/edicoes/2026/08/19/o-que-ha-de-novo-na-campanha-digital-de-2026
Publicado originalmente em onbjETHOS.
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Renatha Giordani é Jornalista, é Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadora do objETHOS
