Segunda-feira, 14 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1405

Por que os debates eleitorais faliram?

(Foto: Israyosoy S./Pexels)

O primeiro debate presidencial de 2026 talvez seja lembrado menos pelo que aconteceu diante das câmeras do que pelo que faltou a elas. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não compareceram à Band; os dois primeiros lideravam as pesquisas. Restaram Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos. Foi o debate presidencial mais esvaziado desde 1989 e, na prática, reuniu candidatos que somavam apenas 11% das intenções de voto medidas pelo Datafolha.

Em uma sociedade politicamente comprometida com o debate público, a ausência deveria causar constrangimento. Governar pressupõe submeter-se ao contraditório, inclusive ao contraditório desagradável; campanhas, porém, aprenderam que é possível contorná-lo. Entrevistas individuais, vídeos próprios e redes sociais permitem falar muito sem correr o risco de responder. Faltar tornou-se cálculo eleitoral, e esse cálculo funciona porque o vínculo entre candidatura e exposição ao confronto público deixou de ser uma expectativa tão forte quanto já foi.

Seria cômodo, contudo, culpar apenas as cadeiras vazias. Antes mesmo do debate havia outra pergunta: quem a Band decidira colocar nas cadeiras ocupadas? O artigo 46 da Lei das Eleições assegura participação aos candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso e permite às emissoras convidar os demais. A Band exerceu essa faculdade; Renan Santos foi convidado, embora seu partido não tivesse direito legal assegurado à participação. Samara Martins, da UP, não foi; Clariana Barão, da DC, também não. Nenhuma mulher estava entre os seis convidados. A emissora falou em critérios legais e em “entendimentos” com as campanhas e a direção de jornalismo. É pouco, sobretudo quando a seleção discricionária passa a produzir consequências políticas. Por que Renan, dona Band; por que não Samara?

A pergunta importa porque a televisão não apenas retrata relevâncias políticas: ela também as produz. Renan chegou ao debate com milhões de seguidores e saiu dele ainda mais conhecido; Samara protestou do lado de fora dos estúdios. O mecanismo é circular. Convida-se quem já possui visibilidade, a televisão amplia essa visibilidade e, depois, a notoriedade acumulada ajuda a justificar novos convites. Quando a lei torna a participação facultativa, a liberdade editorial da emissora se converte também em poder de seleção, interferindo na própria percepção pública de quais candidaturas parecem viáveis, sérias ou dignas de atenção.

O resultado, por sua vez, tampouco ajuda a convencer os ausentes de que cometeram um pecado democrático imperdoável. Renan chegou carregando fraldas com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro; durante a noite, investiu em provocações, insultos e frases facilmente convertidas em recortes para as redes. Não se tratava exatamente de um desvio do debate contemporâneo, mas de uma adaptação às suas recompensas. O programa de duas horas passou a servir como matéria-prima para vídeos de vinte segundos, e essas cenas circularam rapidamente fora da transmissão original, onde a lógica já era outra.

Surge daí um paradoxo desagradável. Lula e Flávio Bolsonaro deveriam ser cobrados por não comparecer; a ausência de quem lidera uma eleição empobrece qualquer confronto público. Ao mesmo tempo, o comparecimento deixa de parecer um gesto cívico evidente quando o formato premia quem transforma adversários em escada para performances algorítmicas. O problema não está apenas em fugir do debate, mas também em ocupar esse espaço sem debater. Nesse ambiente, a ausência pode ser censurável e, ainda assim, estrategicamente compreensível.

Talvez os debates eleitorais estejam falindo porque quase todos os envolvidos aprenderam a extrair alguma vantagem de sua deterioração. Os favoritos preservam-se ausentes; candidatos menores encontram uma fábrica de conteúdo; as emissoras conservam a liturgia do confronto enquanto decidem, com critérios nem sempre transparentes, quem merece o palco. O resultado é um formato que continua parecendo institucional, mas funciona cada vez mais segundo lógicas de audiência, circulação e risco eleitoral. Recuperar o debate exigirá constranger quem foge dele; antes disso, porém, exigirá reconstruir um formato cuja presença ainda valha alguma coisa.

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Jônatas Meira Alves é Graduando em Direito pela UFMG, pesquisador e editor-chefe da revista Entreparágrafos. Escreve e pesquisa sobre instituições, linguagem, desigualdades, direitos e vida pública, com interesse especial nas zonas de atrito entre democracia, poder e sociedade.