
(Foto: Karine Nunes/objETHOS)
Em um contexto de automação da escrita, da criação de imagens e vídeos, do acesso ampliado à informação e da popularização de plataformas e tecnologias que permitem e otimizam sua produção, os estudos sobre teoria e prática do jornalismo na Universidade Federal do Amazonas (UFAM/Parintins), núcleo de observação deste ensaio, revelam sinais consistentes de uma formação crítica em curso entre estudantes do interior do Amazonas.
O estado, que faz parte da Amazônia Brasileira, e que, nesta semana, esteve em evidência pela repercussão do lançamento de uma logomarca criada com base nas curvas do rio Amazonas e de seus afluentes, mobiliza uma ideia ancorada em um discurso construtivista e soberano para promover o turismo brasileiro e impulsionar negócios na região. No entanto, a repercussão também evidencia como a tentativa de “limpar a imagem da região” por meio de uma marca deslumbrante se sobrepõe a conflitos armados que indicam uma escalada da violência nos municípios amazônicos. Nessa lógica de visibilidades, reitera-se o valor-notícia hegemônico da imprensa tradicional.
Impulsionado pelo crescimento do segmento online e de iniciativas de jornalismo local, conforme dados da sétima edição do Atlas da Notícia, o jornalismo amazônico produzido por profissionais inseridos neste território avança em direção ao protagonismo de experiências que se alinham às resistências e às lutas históricas por reconhecimento cultural e social. Apesar dos entraves de um ecossistema midiático ainda sob domínio de grandes empresas – no Norte, especialmente, articuladas a grupos de tradição política -, as ideias que se articulam e ganham forma no ambiente acadêmico da graduação mostram que os jornalistas em formação questionam modelos uniformes canonizados no processo de produção de informações.
Faz parte de uma estratégia de ensino, em grande parte das disciplinas da Universidade Federal do Amazonas (ICSEZ/Parintins), a orientação para a produção de um projeto final que transita entre reportagens, entrevistas, séries fotográficas, podcasts e outros formatos. Nesse processo, nas reuniões de pauta, uma pergunta insiste em se repetir: como desenvolver uma notícia original? E, para esses estudantes, o “original” tem sido justamente aquilo que contraria e desloca o que a mídia tradicional (nacional e local) noticia.
A seleção de fontes é questionada, assim como as articulações temáticas que frequentemente excluem dimensões históricas e socioambientais dos sujeitos noticiados, a criminalização de causas genuínas neste território e os preconceitos religiosos e culturais, como a marginalização de práticas de matriz africana, a invisibilização de identidades indígenas e a estigmatização de expressões culturais periféricas. Nota-se, nesse movimento, a noção de forma social do conhecimento, teorizada por Adelmo Genro Filho (1987), em operação nas reflexões desses estudantes.
Pensar respostas para essa equação passa, inevitavelmente, pela formação daqueles que produzem conhecimento por meio do jornalismo. Nessa direção, a informação ganha densidade a partir das leituras de mundo que esses estudantes constroem em seus próprios territórios. Nessas novas gerações em formação, a inquietação por um “enquadramento original” não é apenas um desejo, mas um princípio que orienta suas práticas em construção.
A análise crítica das narrativas jornalísticas presentes em mídias locais, nacionais e internacionais tem sido um exercício constante em sala de aula. Como consequência, esse exercício se projeta e se materializa nas produções desenvolvidas nas disciplinas. Aliás, espera-se, em breve, no âmbito da unidade observada neste ensaio, poder disponibilizar ao público essas produções de forma sistematizada, em espaços institucionais da universidade.
Dos resultados dessas inquietações, pode-se dizer que é precisamente nesse espaço que germina a forma social do conhecimento.
Noticiar a história de um terreiro de umbanda em Parintins (AM), os retratos e as narrativas de moradores de ocupações urbanas, a trajetória da comunidade LGBTQIAPN+ na cidade, ações de resistência e investigações sobre modelos de gestão governamental voltados à valorização dos povos indígenas, entre outros projetos jornalísticos, reconfiguram as perspectivas e percepções dos estudantes sobre a profissão.
A base está sendo consolidada e aponta para uma estrutura de atuação voltada à essência humanizada da informação.
No mercado de trabalho, para além dos muros da universidade, já se ouve falar em uma geração que tem conseguido utilizar de forma favorável o intenso tráfego de informações na contemporaneidade. Mais do que dominar o meio tecnológico, a sensibilidade diante de pautas sociais aponta para um ambiente midiático em transformação, pressionado por novas práticas, vozes e disputas de sentido.
Publicado originalmente em objETHOS
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Karine Nunes é Jornalista, professora do curso de jornalismo da UFAM/Parintins, doutoranda do PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS.
