Segunda-feira, 20 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1397

O fracking da atenção

(Foto: Lukenn Sabellano/Unsplash)

O escritor e ativista estadunidense Peter Schmidt esteve recentemente no programa Roda Viva, em 29 de junho de 2026, para apresentar ao público brasileiro uma imagem que já circula há algum tempo em seus círculos de ativismo digital nos Estados Unidos, a de que as plataformas digitais não disputam nossa atenção, mas praticam “human fracking” sobre ela. A escolha lexical merece ser levada a sério antes de ser aplaudida ou descartada, porque uma metáfora nunca é ornamento, mas organiza o que se pode pensar sobre um fenômeno e o que fica, por definição, fora do campo de visão. Fracking não é uma extração qualquer, mas uma técnica que fratura a rocha-matriz sob altíssima pressão para liberar reservas inacessíveis por métodos convencionais, e que deixa o subsolo estrutural e quimicamente alterado, muitas vezes de modo irreversível. Ao propor essa imagem para descrever o que as plataformas fazem com bilhões de cérebros, o escritor desloca o debate para fora do vocabulário que o consagrou, a “economia da atenção”, e sugere que o dano em questão não é competitivo, mas geológico, haja vista que não estamos disputando um recurso escasso, estamos tendo uma capacidade cognitiva fraturada de modo talvez permanente.

Essa genealogia, contudo, tem uma origem mais antiga e menos dramática do que o vocabulário extrativista sugere. O termo economia da atenção remonta a uma conferência do economista e psicólogo Herbert Simon e publicado no artigo Designing organizations for an information-rich world, em 1971, sobre o desenho de organizações num mundo saturado de informação. O autor já observava que a abundância informacional produz necessariamente escassez de atenção, e que gestores de sistemas erravam ao tentar resolver essa escassez fornecendo ainda mais informação, quando o problema real era a ausência de filtros. Schmidt herda esse diagnóstico clássico da racionalidade limitada, mas o radicaliza numa direção que Simon não anteviu, pois se para o economista o desafio era alocar eficientemente um recurso escasso, para o autor de Attensity! o problema é que esse recurso está sendo extraído com métodos que fraturam a própria capacidade de alocá-lo, uma diferença de grau que, ao longo da entrevista, se transforma sorrateiramente em diferença de natureza, sem que essa transição seja suficientemente justificada.

A força da imagem do human fracking está em recusar a neutralidade que a economia da atenção carrega desde Simon, já que falar em economia sugere mercado, oferta e demanda, portanto algum grau de escolha racional do consumidor de conteúdo, moldura que, não por acaso, é também a preferida pelas próprias empresas de tecnologia, que preferem descrever o vício em suas plataformas como engajamento livremente escolhido. O vocabulário extrativista rompe com esse eufemismo ao inserir as big techs na mesma genealogia moral da indústria fóssil, e ganha ainda mais densidade quando Schmidt revela a genealogia militar das métricas de engajamento, originalmente desenvolvidas para medir a capacidade de soldados em detectar ameaças em telas de radar e depois reconvertidas, no Vale do Silício, em ferramentas para capturar cliques. Existe aí uma reedição quase weberiana da racionalização instrumental, uma vez que a técnica de guerra se torna técnica de mercado sem perder sua lógica de captura binária, alvo identificado, alvo neutralizado, e o próprio Schmidt resume o problema de fundo ao afirmar que existe uma comoditização da capacidade humana de prestar atenção e, por extensão, de pensar e decidir com autonomia.

O problema começa exatamente onde a metáfora é mais sedutora, a saber, no pressuposto de que existe um “subsolo” cognitivo original, intocado, que as plataformas viriam fraturar de fora para dentro. É aqui que a imagem, por mais eficaz que seja como recurso retórico, corre o risco de embutir um essencialismo que décadas de historiografia da atenção já deveriam ter desativado. Jonathan Crary demonstrou, em sua reconstrução das técnicas modernas de captura perceptiva, que a atenção nunca foi um estado natural pré-industrial a ser preservado, ela já era disciplinada pela fábrica, pela escola, pelo relógio, muito antes de qualquer smartphone existir. Michel Foucault chegaria a uma conclusão semelhante por outra via, ao mostrar que a produção de sujeitos dóceis e atentos é projeto disciplinar tão antigo quanto a modernidade ocidental. O próprio Schmidt parece intuir essa historicidade quando reconhece, em entrevista posterior à do Roda Viva, que ao longo da história humana as pessoas sempre tentaram aprofundar sua atenção e que o momento atual é apenas uma redescoberta dessa necessidade antiga, porém, essa concessão convive mal com a retórica do human fracking como fratura inaugural de um solo intocado. A pergunta que caberia dirigir ao autor, portanto, não é apenas como resistir ao “fraturamento”, mas se existiu alguma vez esse solo original a ser defendido, ou a atenção sempre foi, como sugeriria Stuart Hall a propósito da (de)codificação midiática, e como o próprio conceito gramsciano de hegemonia já antecipava, um terreno de disputa constitutivamente atravessado por relações de poder, nunca neutro, apenas hoje operado em escala planetária e com opacidade algorítmica sem precedentes.

Essa ressalva não anula o diagnóstico de Schmidt, ao contrário, permite recolocá-lo em termos mais exigentes, inclusive no que se refere ao espetáculo da vida política contemporânea. Não à toa, a mediação do debate público de lançamento do livro Attensity!, no Brasil, coube a Anna Bentes, pesquisadora da FGV na interseção entre Comunicação, Psicologia e Tecnologia, promovido pela ARTIGO 19 na Faculdade de Direito da USP, em 5 de março de 2026. Bentes é autora do livro Quase um tique: economia da atenção, vigilância e espetáculo em uma rede social. A pesquisadora já havia investigado precisamente essa zona de contato entre atenção, vigilância e espetacularização nas redes, sinal de que o vocabulário do fracking dialoga, no Brasil, com uma tradição local de crítica que discute o espetáculo político-midiático há mais tempo do que o próprio manifesto do escritor estadunidense.

Byung-Chul Han já havia descrito a erosão da vita contemplativa sob o regime do desempenho, no qual o sujeito neoliberal se autoexplora até o esgotamento na busca por positividade e estímulo contínuo; Shoshana Zuboff, por sua vez, batizou de “excedente comportamental” a matéria-prima que as plataformas extraem, refinam e revendem como previsão comportamental. Schmidt não inventa esse quadro, ele o radicaliza ao insistir que o dano recai sobre o próprio substrato da extração, a concentração, a imaginação, a capacidade de tédio produtivo que Han recupera de Benjamin como condição da criação, e não apenas sobre seus produtos secundários. O que fica por explicar é porque essa fratura seria irreversível, ao passo que as disciplinas anteriores da atenção permitiram, ainda que de modo desigual e sempre incompleto, reconstituições coletivas da capacidade de concentração.

Existe ainda uma lacuna que interessa particularmente, porquanto a metáfora do fracking, cunhada a partir da experiência estadunidense, tende a universalizar um sujeito abstrato, “o cérebro humano”, sem dialogar suficientemente com uma tradição já consolidada no Sul Global, a do colonialismo de dados, que descreve como corporações sediadas no Norte extraem informação e conhecimento das periferias digitais para depois revender às mesmas populações de onde os dados foram extraídos, reproduzindo em escala tecnológica a lógica clássica de matéria-prima barata e produto caro. Se Schmidt elogia o Brasil por ter, em suas palavras, protegido melhor a democracia diante das big techs, citando episódios como a proibição do X em 2024, a postura do governo Lula e a vedação dos smartphones nas escolas, essa é uma leitura de fora que trata tais medidas verticais como sintoma de força política, sem se deter no fato de que o próprio Schmidt as distingue de um “santuário” no sentido que ele defende, pois, para ele, proibição é regra imposta, e um santuário de atenção só existe quando construído voluntariamente, seja numa igreja, numa escola, num museu ou à mesa de jantar.

A proposta de que professores e educadores assumam a formação da atenção dos estudantes como parte do próprio trabalho pedagógico, ideia que Schmidt associa à iniciativa que batiza de Educadores para Atenção, é louvável, mas pressupõe uma infraestrutura escolar, um tempo docente e uma autonomia institucional que nem toda escola brasileira possui em igual medida. Perguntar quem, no Brasil, tem acesso a santuários voluntários e quem permanece exposto, sem alternativa, à monocultura algorítmica que o próprio autor descreve, é reintroduzir a desigualdade estrutural que seu vocabulário geológico, ao tratar o dano como universal, corre o risco de apagar.

É esse duplo movimento, a urgência real do diagnóstico e os limites de sua universalização, que qualquer leitura crítica da entrevista de Schmidt precisa manter em aberto. Dizer que passar o dedo compulsivamente pela tela não é descanso, mas cessão de autonomia ao algoritmo, é uma formulação certeira e memorável, transformá-la em fratura geológica de um solo cognitivo original é uma escolha retórica poderosa, mas que reclama, para não se tornar mistificação por outra via, a mesma análise histórica e política que o próprio Schmidt dirige, com razão, à economia da atenção.

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Ramsés Albertoni é Professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutor em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).