Sexta-feira, 21 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1402

Vini Jr processa influenciador, mas gol de placa mesmo seria enfrentar as big techs

(Foto: Ocko Geserick/Pexels)

De acordo com a coluna de Ancelmo Góis, o jogador Vinícius Júnior entrou com um processo contra o “influenciador” Rafael Murmura após postagens que o acusavam de não ter batido o pênalti contra a Noruega na Copa do Mundo por causa de um esquema de BETs. Além disso, o influencer afirma que o jogador teria enriquecido ilicitamente (acusação curiosa, já que seu salário no Real Madrid ultrapassa o valor de R$ 100 milhões por ano).

É justa a cobrança diretamente ao autor das calúnias, mas bem que Vini poderia usar de sua indignação para liderar um movimento maior contra as big techs, certo? 

Vou voltar um pouco no tempo para explicar meu ponto de vista.

Há cerca de dez anos, estava hospedado na casa do meu pai quando li uma notícia no jornal a respeito de uma greve de transportes. Fui tomar café da manhã e contei para a diarista dele. Ela me respondeu assim: “Acho que não é verdade, não. Não deu nada no Facebook”.

Esse “não deu nada no Facebook” doeu no meu peito. Se já não bastasse tratar uma rede social como um portal de notícias, ela foi além: duvidou do jornal porque sua verdadeira fonte de informação não tinha “dado” nada.

Ao longo da Copa do Mundo, essa dor voltou algumas vezes. Num destes momentos de tristeza, em que constatei como as pessoas trocaram jornalistas por aventureiros, estava no banco de trás de um carro de aplicativo e o motorista me perguntou: “Você viu que “descobriram” por que o Ancelotti não coloca o Endrick em campo?”.

Sim, “descobriram”. Um boato de WhatsApp foi simplesmente alçado ao status de novo Watergate. Não tive muita paciência para ouvir, mas chuto que a teoria furada devia ter algo a ver com fornecedoras de material esportivo. A mesma mentira requentada desde a final da Copa de 1998.

Voltemos ao responsável por caluniar Vini Júnior. Rafael Murmura Angelo define a si mesmo como um jornalista que usa técnicas aprendidas em sua experiência como policial para fazer reportagens investigativas nas redes sociais.

Não sei muito sobre outras notícias publicadas por ele, mas no caso da acusação ao jogador, a “técnica” consistiu em reproduzir mentiras de WhatsApp sem checagem e, claro, absolutamente nenhuma prova.

Apesar de atribuir a si mesmo a função de jornalista, não há registro de que ele tenha diploma de jornalismo. Esse não é um grande problema pra mim. A grande questão é que ele também não tem passagens por boas redações, onde se ganha experiência no ramo e, principalmente, se absorve as regras e imperativos éticos da profissão.

Antes de “virar jornalista”, o influenciador teve uma empresa para limpar nomes de pessoas endividadas e um escritório especializado em monetizar conteúdos de internet. Foi através dessa atividade que conheceu o vereador cassado Gabriel Monteiro (também saído dos quadros da polícia carioca).

Sua função no gabinete parlamentar era gerar renda com as publicações do mandato, o que é um completo desentendimento do que seja a função deste tipo de conteúdo. Tanto que a prática foi bloqueada em 2022. Posts e vídeos de políticos em atividade são ações de utilidade pública. Ninguém se elege para transformar atividades parlamentares em “publi”.

E vimos com o próprio Gabriel Monteiro que, na economia da atenção, a forma de gerar altas visualizações (e, portanto, lucros por monetização) era encenar todo tipo de coisa que causasse escândalo ou indignação. Com isso, o cidadão comum era desinformado e o vereador lucrava.

Mas não só ele. YouTube e Meta faturavam uma nota com anúncios. Por mais que se tratasse de um político, Gabriel era peixe pequeno nesta brincadeira. Ele ficou pelo caminho e os barões continuaram seu rumo lá na Califórnia.

Para se ter uma ideia, a Meta fatura mais de 70 bilhões de dólares por ano em publicidade só nos Estados Unidos. Já o Washington Post, o responsável pela revelação do Caso Watergate há 50 anos, anunciou em 2023 o valor de 70 milhões de dólares… em prejuízo. 

Jornalismo é uma atividade cara. Demanda gente, material, equipamentos de segurança, verba para transporte, comida, viagens etc. Bom jornalismo é mais caro ainda, porque precisa de mais estrutura e não pode ser dar ao luxo de gerar cliques com qualquer gritaria sem provas. Ser correto e responsável traz pouco engajamento às vezes.

Quando fui repórter do jornal Extra, meus editores me proibiam de usar condicionantes como “teria” ou “supostamente”. Desde meu primeiro dia, a regra era cristalina: “Ou você comprova o que disse ou simplesmente não diz. Aqui é um jornal, não é papo de bar”.  

Já a notícia que “dá no Facebook” é moleza, porque os critérios são muito frouxos. Instagram, Facebook e YouTube bloqueiam nudez e sexo com programas automáticos de checagem. Mas e mentiras? É preciso um humano para isso, né? Até alguém entrar com um processo, aquilo já ultrapassou a audiência de muito telejornal por aí. E tome de “famoso jogador teria…”.

Vinícius Júnior só conseguiu tirar do ar uma óbvia fake news entrando na justiça. Antes disso, não houve um editor sério para evitar o risco de dano à sua reputação. Afinal, na hora de lucrar, as big techs tomam para si as verbas do jornalismo. Mas quando precisam assumir alguma responsabilidade, se colocam apenas como uma plataforma de compartilhamento.

E olha que a gente está falando “apenas” de um atleta indignado. Perfis de fake news e fóruns online já causaram assassinatos, tiroteios e suicídios. Uma das muitas histórias escabrosas é a do Pizzagate. Se você não conhece, vale dar uma lida.

Namorando uma influenciadora, provavelmente Vini não vai comprar briga com os grandões do Vale do Silício. Talvez ele nem tenha refletido muito sobre a dimensão disso, preferindo focar só no responsável pela mentira. Mas seria um golaço bater de frente com essa galera como fez com os racistas. Um dia, esses bilionários serão devidamente cobrados.

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Rafael Simi é jornalista formado pela PUC-RIO, com passagem pelas redações do Grupo Globo. Escreveu o livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.