
(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Um senador mineiro hesita diante de uma candidatura ao governo do estado, seu próprio partido o descarta publicamente, ele insiste, o partido recua, e num intervalo de poucos dias a imprensa nacional transforma essa sequência doméstica de indecisões partidárias numa peça capaz de reconfigurar o tabuleiro presidencial de 2026. A partir disso, podemos conjecturar que a imprensa está ajudando a construir a centralidade do senador Cleiton Gontijo de Azevedo, vulgo Cleitinho, enquanto fato político? Não se trata de dizer que a cobertura inventou uma força eleitoral inexistente, trata-se de algo mais preciso e mais consequente: a imprensa selecionou, entre inúmeros acontecimentos possíveis da política mineira, um conjunto específico de episódios protagonizados pelo senador, repetiu-os à exaustão, enquadrou-os segundo uma gramática de conflito e inevitabilidade, e assim produziu para o público, e para os próprios atores políticos, a percepção de que o senador é hoje um fato político de estatura nacional, quando poderia perfeitamente ter permanecido um episódio de bastidor estadual.
O primeiro mecanismo dessa construção é a seleção, já que existem centenas de acontecimentos na política de Minas Gerais, mas apenas uma fração ínfima se converte em manchete nacional. A indecisão de Cleitinho recebeu atenção desproporcional porque reunia três ingredientes de altíssimo valor jornalístico: liderança mensurável em pesquisa, conflito partidário explícito e a possibilidade, ainda especulativa, de repercussão presidencial. Nenhum desses ingredientes é fabricado pela imprensa a partir do nada, mas a decisão de tratá-los como o eixo organizador da cobertura eleitoral mineira é editorial e seletiva, e é justamente essa seleção que começa a erguer o senador à condição de fato político central.
O segundo mecanismo é a repetição, visto que “Cleitinho lidera” não é uma manchete dita uma única vez, mas uma frase reiterada por diversos veículos distintos, em momentos diferentes e a partir de pesquisas distintas. Cada nova repetição pouco acrescenta em informação substancialmente nova, o fato de que o senador lidera já era conhecido, e é precisamente essa redundância que acrescenta saliência. Esse é o fenômeno da agenda-setting, a imprensa não precisa convencer o público de uma opinião específica sobre algo para exercer poder sobre ele, basta insistir, repetidamente, em que ele é o assunto que importa. O efeito cumulativo dessa insistência é a formação de uma associação quase automática entre o nome do senador e a própria ideia de centralidade eleitoral, associação que a repetição jornalística consolida como quase-axioma ainda que nenhuma pesquisa isolada fosse capaz de produzi-la sozinha.
O terceiro mecanismo é o enquadramento, pois a mesma informação factual pode ser apresentada como liderança eleitoral pura e simples, como peça de reorganização das alianças de direita, como fator de crise dentro do próprio Republicanos, como palanque presidencial para Flávio Bolsonaro, ou como ameaça à unidade da direita mineira. Cada um desses enquadramentos produz uma interpretação política diferente a partir do mesmo dado numérico, e a escolha de qual enquadramento privilegiar não é neutra, dizer que a entrada de Cleitinho “reorganiza as alianças” lhe atribui agência histórica, transforma-o de objeto de pesquisa em sujeito que movimenta o sistema político à sua volta.
O caso da GloboNews ilustra esse mecanismo com clareza. Em 11 de agosto, o podcast O Assunto, apresentado por Natuza Nery, sob o título “A corrida pelo governo de MG e o seu impacto na eleição nacional”, dedicou um episódio inteiro à confirmação da candidatura, e o próprio título já entrega o enquadramento escolhido, deslocando o centro da notícia da confirmação da candidatura para seu impacto sobre a eleição nacional. A chamada do episódio reforça a operação, ao registrar que, sem o apoio do senador, Lula e Flávio terão “palanques mais tímidos” em Minas. A GloboNews relata a neutralidade anunciada pelo Republicanos e, no mesmo movimento, converte essa neutralidade em ameaça concreta às duas principais candidaturas presidenciais, reforçada pelo lembrete de que Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país e que, desde 1989, todo candidato que venceu no estado venceu também a eleição nacional. Essa é a nacionalização do fato político em ação, um recuo tático de um partido estadual quanto a apoios presidenciais é traduzido, pela escolha editorial, em variável capaz de decidir o pleito de 2026.
Ao dedicar o episódio à confirmação da candidatura, o canal não se limitou a informar o fato, conduziu o ouvinte por uma sequência interpretativa que vai do bastidor partidário, com o jornalista Valdo Cruz detalhando acordos e articulações, à análise do comportamento do eleitor mineiro, com o cientista político Carlos Ranulfo, da UFMG. O ouvinte não recebe apenas a notícia de que Cleitinho foi confirmado, mas uma explicação pronta sobre o que essa confirmação significa para o equilíbrio político do estado e do país. É a diferença entre noticiar que um candidato está na frente e noticiar que a eleição depende dele. A primeira afirmação é verificável diretamente nas pesquisas, a segunda é uma interpretação, e é justamente nessa passagem, do dado ao significado atribuído ao dado, que a imprensa exerce seu poder na construção da realidade política.
O quarto mecanismo é a retroalimentação, uma vez que os políticos leem as notícias e reagem a elas, essas reações se tornam, elas mesmas, matéria de nova cobertura. Quando o Republicanos anunciou publicamente, em 29 de julho, que Cleitinho estava fora da disputa, a decisão foi noticiada como crise; quando o irmão do senador declarou horas depois que a decisão seria revertida, essa declaração também virou notícia; quando o partido de fato recuou e confirmou a candidatura dias depois, a reversão tornou-se, ela própria, um novo capítulo da narrativa de inevitabilidade que já vinha sendo construída há semanas. Nesse intervalo não havia uma realidade política estável sendo meramente relatada pela imprensa, mas uma realidade política sendo produzida em tempo real, num ciclo em que cada rodada alterava as condições em que a rodada seguinte de decisões partidárias seria tomada. O próprio senador, em pronunciamento no Senado, já havia reclamado publicamente que a imprensa anunciava sua desistência quando ele afirmava o contrário, evidência de que o senador compreendeu, e passou a disputar ativamente, o governo de Minas e a narrativa sobre sua própria candidatura. Isso confirma que o dispositivo midiático não se limita a descrever os atores políticos, ele os recruta para performar dentro de sua própria lógica de conflito e reviravolta.
Vale considerar, nesse ponto, uma hipótese que desloca o eixo da análise, a de que o próprio conflito entre Cleitinho e a direção nacional do Republicanos possa ter funcionado como encenação calculada, e não apenas como episódio espontâneo que a imprensa depois amplificou. A nota divulgada pelo partido em 7 de agosto, confirmando a candidatura, é reveladora nesse sentido. Nela, Cleitinho é descrito como alguém que “reconheceu os equívocos cometidos durante o processo”, um vocabulário de contrição pública que soa menos como ata administrativa de um partido e mais como roteiro de reconciliação solene.
Esse arco narrativo é estruturalmente idêntico ao que movimentou o desentendimento entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (PL) semanas antes, quando declarações de bastidor vazadas, réplicas públicas e uma reconciliação subsequente também geraram semanas de cobertura e de engajamento intenso nas mídias sociais em torno de uma disputa cujo desfecho, ao final, alterou pouco o arranjo de poder que já se desenhava. Em ambos os casos, o conflito público entre correligionários tem valor de notícia e de engajamento digital que o simples anúncio de um acordo fechado em reunião jamais teria. Uma candidatura confirmada sem drama é informação. Uma candidatura ameaçada, reafirmada, negada e por fim reconquistada “com desculpas” é narrativa, e narrativa é o que sustenta audiência ao longo de semanas em vez de um único dia. Se essa hipótese for levada a sério, o próprio conflito deixa de ser matéria-prima bruta que a cobertura depois interpreta e passa a ser, ele mesmo, produzido em parceria implícita entre os atores políticos e o sistema de mídia que os cobre, cada lado obtendo o que precisa, o partido e o candidato, visibilidade contínua e narrativa de força reconquistada; a imprensa, semanas de matéria-prima dramática com garantia de audiência.
Essa hipótese do jogo de cena não contradiz o argumento anterior sobre a ausência de intenção editorial deliberada, ela o desloca, pois mesmo que o conflito tenha sido, em alguma medida, calculado pelos próprios atores políticos para gerar exposição, isso não significa que a imprensa tenha planejado fabricar Cleitinho como projeto consciente, significa tão-somente que o sistema de produção de notícia oferece incentivos que atores políticos experientes aprendem a explorar.
É importante ser preciso quanto a isso, não há aqui evidência de que qualquer veículo esteja coordenado com o Republicanos para produzir o episódio. Existe, isso sim, uma estrutura de incentivos da qual ambos os lados, partido e imprensa, se beneficiam, cada um a seu modo. O que existe é algo mais estrutural e, por isso mesmo, mais difícil de contestar. Um candidato que lidera pesquisas e simultaneamente protagoniza uma crise partidária gera, pela própria lógica de produção de notícia, mais cobertura do que um candidato equivalente sem esse conflito. O poder aqui reside menos numa vontade editorial identificável e mais nos critérios de noticiabilidade em si, nos ingredientes que tornam um episódio digno de manchete e outro condenado ao silêncio institucional. É precisamente por prescindir de intenção que esse mecanismo se torna mais difícil de contestar, dado que opera sem coerção visível, naturalizado como o funcionamento normal do jornalismo político quando encontra um personagem com os ingredientes certos.
Existe ainda uma camada adicional que a comparação entre veículos revela, embora de modo indireto, porquanto diversos veículos distribuem ênfases diferentes sobre o caso, cuja diversidade poderia sugerir pluralismo genuíno e ausência de narrativa monolítica. Porém, todos esses enquadramentos, sem exceção, operam dentro do mesmo horizonte de inteligibilidade, o horizonte da disputa entre elites partidárias por capital eleitoral mensurável em pontos percentuais de pesquisa. Nenhum deles pergunta que projeto de estado Cleitinho representa para o eleitor mineiro que não organiza sua compreensão política em torno de cenários das pesquisas. A pluralidade de ângulos factuais convive, portanto, com uma monocultura mais funda de pressupostos sobre o que é politicamente relevante, e é essa convergência estrutural, mais do que qualquer uniformidade editorial explícita, que sustenta a centralidade do senador enquanto fato político incontornável.
A pergunta que fica, ao final, não é mais se a imprensa inventou Cleitinho, mas quem decide, na prática cotidiana da redação, quais hesitações partidárias merecem entrar no noticiário como acontecimento nacional e quais permanecem confinadas ao silêncio institucional por não se prestarem à gramática do conflito personalizado e televisionável. O senador não escapa a essa gramática, ele é, neste momento, sua demonstração mais nítida, o caso em que se pode observar, quase em tempo real, o fato político sendo fabricado à vista de todos.
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Ramsés Albertoni é Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).
