
(Foto: Valeriy Pelts/Pexels)
Há atletas que jogam futebol e há atletas que, sem querer, jogam também com os símbolos de uma época. Kylian Mbappé pertence à segunda categoria. Ao longo da Copa do Mundo de 2026, o capitão da seleção francesa deixou de ser apenas o artilheiro que persegue os recordes de Klose e de Messi para se tornar uma superfície de projeção de tudo aquilo que a França ainda tem dificuldade de dizer sobre si mesma. A trajetória de sua imagem na imprensa, do “arrogante” ao “cidadão global moralmente exemplar”, é um dos documentos mais reveladores do momento racial que o país atravessa.
Antes mesmo de a bola rolar, Mbappé chegou aos Estados Unidos já condenado. A imprensa francesa o recebeu com um catálogo de reprovações: não havia marcado nos últimos amistosos, supostamente “não seria um jogador de grupo”, concentraria poder demais tanto no Real Madrid quanto na seleção. Circularam nas redes imagens que o retratavam como uma espécie de déspota de vestiário, a ponto de o próprio técnico Didier Deschamps precisar defendê-lo, afirmando que a imprensa fazia de Mbappé um “ditador” quando a realidade seria o oposto, a de um jogador maduro que o time inteiro segue.
Vale reter o detalhe: foi preciso um homem branco em posição de autoridade, o treinador, para autorizar publicamente a maturidade de um jogador negro. O mesmo repertório de gestos que em outros craques seria lido como liderança, em Mbappé era traduzido como presunção. Os jornais paraguaios, após a eliminação de seu país nas oitavas, cristalizaram a acusação: teria demonstrado “comportamento arrogante e presunçoso durante toda a partida”.
Ao mesmo tempo, o ponto que jornalistas e intelectuais antirracistas vêm sublinhando não é que Mbappé seja imune à crítica, pois todo atleta público está sujeito a ela, mas à assimetria da gramática. A mesma segurança que, num jogador branco, se chama “personalidade” ou “ambição”, no jogador negro é rebaixada a “arrogância”, “excesso”, “falta de humildade”. É a velha exigência, nunca formulada abertamente mas sempre operante, de que o negro que ascende deve fazê-lo pedindo licença. A autoconfiança, capital simbólico elementar de qualquer ganhador, torna-se, quando exibida por um homem negro, uma transgressão a ser disciplinada. A cobrança de “gratidão” e de “modéstia” é, no fundo, a cobrança de que ele conheça o seu lugar.
A virada do placar, a virada da narrativa
Começou o torneio e os gols vieram. Dois logo na estreia contra Senegal, e a máquina discursiva iniciou sua correção de rota. Deschamps ironizou os críticos, dizendo que “ele faz isso e as pessoas ainda o criticam”, e o próprio Mbappé respondeu com a serenidade de quem já conhece o roteiro: disse estar tranquilo e que faria parte da história de seu país de qualquer maneira.
A narrativa jornalística sobre o atleta negro é rigorosamente condicional: ela o absolve na exata medida do placar. Enquanto pairava a dúvida sobre o rendimento, via-se o retrato do craque difícil, egocêntrico, problema de vestiário. Bastaram os gols nas fases decisivas, sete em cinco jogos até as quartas, para que os mesmos adjetivos se invertessem. A “arrogância” virou “liderança”; a “frieza” virou “sangue-frio”; o “individualismo” virou “genialidade”. O jogador não mudou. Mudou o que a vitória autorizou a imprensa a dizer sobre ele. O reconhecimento do homem negro permanece perpetuamente sob prova, sempre revogável, sempre dependente do próximo resultado.
Após a derrota do Paraguai nas oitavas, a senadora paraguaia Celeste Amarilla dirigiu comentários racistas ao jogador. A resposta de Mbappé, publicada no X, foi cirúrgica: chamou-a de “desprezível” e “indigna de seu cargo” e fez questão de separar a senadora do povo paraguaio, afirmando que ela não representava um país que demonstrara “paixão e honra” no torneio. A Federação Francesa de Futebol reforçou o coro, tratando o insulto como ofensa à própria França.
Foi nesse instante que a imagem de Mbappé completou sua metamorfose. O jogador antes descrito como arrogante emergiu, de um dia para o outro, como o cidadão global moralmente exemplar: articulado e capaz de transformar a agressão em lição de civilidade. A imprensa brasileira repercutiu intensamente a postura, com destaque para a defesa da dignidade sem revanchismo.
Não se trata de diminuir a legitimidade da resposta, que foi de fato exemplar, mas de olhar para a economia narrativa que ela ativou. Foi um ato de racismo explícito, vindo de fora da França, que finalmente permitiu à imprensa francesa e internacional abraçar Mbappé sem reservas. Enquanto o racismo permaneceu difuso, ambiental, embutido nos próprios adjetivos que a mídia lhe aplicava, foi invisível. Foi preciso um insulto nomeável, com autora identificável e estrangeira, para que se tornasse denunciável e, por contraste, Mbappé se tornasse respeitado. O racismo palatável é sempre o racismo do outro. O incômodo mais profundo, o das micro-hierarquias que atravessam a própria cobertura esportiva francesa, esse continua sem nome.
Um devir-negro do mundo: o que a Copa nos ajuda a enxergar
Momentos como a Copa do Mundo funcionam como uma lente de aumento sobre a condição do homem negro contemporâneo. Achille Mbembe propõe a noção de um devir-negro do mundo para descrever o processo pelo qual a condição historicamente reservada às populações negras, a de corpos submetidos, precificados, dispensáveis, vai se generalizando como experiência partilhada sob o capitalismo tardio. Há também, nessa formulação, o reconhecimento de uma comunidade de experiência: pessoas negras dispersas pelo planeta, com histórias e nacionalidades distintas, compartilham repertórios muito concretos. E a experiência do racismo é um desses denominadores comuns.
O que aproxima Mbappé em Nova Jersey, o jovem periférico em Saint-Denis e o homem negro que caminha por qualquer cidade brasileira não é uma essência, mas uma gramática compartilhada de suspeição, de reconhecimento condicional, de dignidade sempre posta à prova. O craque, com seus milhões, e o anônimo vigiado no supermercado ocupam extremos opostos da escala social, mas estão inscritos na mesma matriz simbólica que exige do corpo negro que prove, a cada gesto, merecer o lugar que ocupa.
A França vive um debate racial em plena efervescência, e é isso que torna o caso Mbappé tão sintomático. O país que fez da recusa em nomear a raça uma espécie de dogma republicano assiste hoje à ruptura desse arranjo. O racismo vem deixando a esfera da negação e entrando na esfera da disputa cotidiana, seja ela eleitoral, jurídica, midiática ou cultural, tendo como protagonistas os próprios sujeitos que costumam ser seus alvos.
Novos atores, entre coletivos, mídias independentes, gestores públicos e artistas, vêm construindo audiência, linguagem e legitimidade num terreno historicamente hostil a essas categorias. A um ano da disputa presidencial de 2027, o antirracismo deixou de ser objeto marginal, restrito ao meio acadêmico ou militante, para se tornar matéria explícita do debate público e nesse contexto, o que ocorre com Kylian Mbappé ganha densidade. Ele é, ao mesmo tempo, o ídolo que a nação celebra quando ergue troféus e o corpo negro cuja autoconfiança incomoda quando não há gols para justificá-la.
Essa ambivalência não é contradição pessoal do jogador, mas o retrato de um país que ainda não decidiu o que fazer com seus filhos negros: adorá-los como exceções ou reconhecê-los como cidadãos plenos, com direito à mesma margem de erro, de arrogância e de humanidade que se concede a qualquer outro. Quando o racismo deixa de ser negado e passa a ser disputado em público, na urna, nas redes, no palco e no gramado, ele se torna mais difícil de silenciar. Talvez seja essa a contribuição inesperada de uma Copa do Mundo ao debate francês: obrigar um país a olhar para seu maior herói e, nele, enxergar a pergunta que vem adiando há décadas.
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Diego Francisco é jornalista e doutorando em Sociologia pela UERJ e pela Université Paris 8, onde pesquisa as mobilizações antirracistas no Brasil e na França entre 2019 e 2026.
