Segunda-feira, 3 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

Da arquibancada ao feed: como a transformação digital desafia o jornalista esportivo

(Foto: El gringo photo/Pexels)

Durante décadas, acompanhar uma Copa do Mundo significava sentar-se em frente à televisão e consumir a cobertura produzida pelos grandes veículos de comunicação. A informação passava por poucos canais e a audiência tinha hábitos relativamente previsíveis. Em 2026, no entanto, essa realidade parece cada vez mais distante.

Hoje, o torcedor acompanha partidas pelo celular, assiste a cortes de transmissões nas redes sociais, participa de discussões em tempo real e consome conteúdo produzido por jornalistas, influenciadores, ex-atletas e criadores independentes. A informação esportiva deixou de circular por um único caminho e passou a disputar espaço em diferentes plataformas, formatos e linguagens.

O crescimento da CazéTV talvez seja um dos exemplos mais evidentes dessa transformação. Ao conquistar milhões de espectadores em transmissões esportivas realizadas pela internet, o canal demonstrou que a audiência não depende mais exclusivamente da televisão aberta para acompanhar grandes eventos. Mais do que uma disputa entre empresas de comunicação, o fenômeno reflete uma mudança de comportamento. O público quer assistir quando puder, onde estiver e da forma que considerar mais conveniente.

Os números alcançados por transmissões esportivas em plataformas digitais mostram que esse movimento deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade consolidada. A disputa pela atenção do público já não acontece apenas entre emissoras de televisão, mas entre redes sociais, serviços de streaming e diversos produtores de conteúdo.

Essa mudança deve ser vista como algo positivo. A ampliação das plataformas democratizou o acesso ao conteúdo esportivo e permitiu que diferentes vozes participassem do debate público. Em uma rotina cada vez mais acelerada, marcada pelo consumo de informação por meio de celulares e redes sociais, é natural que o público procure formatos mais flexíveis e compatíveis com seu dia a dia.

No entanto, os benefícios dessa transformação não eliminam alguns desafios importantes. A popularidade crescente de influenciadores e criadores de conteúdo levanta discussões sobre credibilidade, responsabilidade e qualificação profissional. Em um ambiente orientado por métricas de engajamento, a busca por audiência pode, em alguns casos, se sobrepor ao compromisso com a informação.

O debate, porém, não deve ser reduzido a uma disputa entre jornalistas e influenciadores. Muitos criadores de conteúdo exercem um papel relevante ao aproximar novos públicos do universo esportivo e criar formas mais acessíveis de comunicação. O problema surge quando alcance e conhecimento passam a ser tratados como sinônimos. Ter milhões de seguidores não substitui processos fundamentais do jornalismo, como apuração, verificação e contextualização dos fatos.

Para quem está entrando no mercado de comunicação, essa transformação também desperta reflexões. Como estudante de Jornalismo, acompanho esse processo com interesse, mas também com questionamentos sobre o espaço que os profissionais formados ocuparão nesse novo cenário. Durante muito tempo, o jornalista foi associado principalmente à produção de textos, reportagens e transmissões tradicionais. Hoje, a profissão exige um conjunto cada vez maior de habilidades. Além de informar, o profissional precisa compreender plataformas digitais, formatos multimídia, redes sociais e novas tecnologias que surgem constantemente.

Ao mesmo tempo, cresce a sensação de que a formação profissional nem sempre recebe o reconhecimento que deveria. Em um cenário onde visibilidade e alcance muitas vezes se tornam os principais critérios de sucesso, surge o questionamento sobre qual espaço será ocupado pelos profissionais que dedicam anos à formação e ao desenvolvimento de competências específicas para atuar na área.

Ainda assim, a transformação digital não representa o fim do jornalismo esportivo. Pelo contrário. Ela evidencia a necessidade de adaptação de uma profissão que sempre precisou acompanhar as mudanças tecnológicas e sociais de seu tempo. O desafio contemporâneo não está em combater influenciadores ou recuperar modelos de comunicação do passado, mas em encontrar formas de manter a relevância do jornalismo em um ambiente cada vez mais competitivo.

A Copa do Mundo de 2026 mostra que o jornalista já não é o único intermediário entre o fato esportivo e o torcedor. No entanto, em meio ao excesso de informações, opiniões e conteúdos produzidos diariamente, a capacidade de verificar dados, contextualizar acontecimentos e atuar com responsabilidade continua sendo um diferencial importante.

Em um ambiente onde qualquer pessoa pode publicar opiniões e informações em segundos, talvez o maior desafio do jornalista não seja competir por atenção, mas demonstrar diariamente o valor da apuração, da responsabilidade e da credibilidade.

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Matheus Lima é estudante de Jornalismo na FAM e busca desenvolver sua atuação nas áreas de jornalismo esportivo, comunicação digital e produção de conteúdo multiplataforma.