Quando analisamos o jornalismo, costumamos olhar para aquilo que foi publicado: a reportagem, a manchete, o enquadramento narrativo, as fontes ouvidas, os silêncios editoriais. Na academia, esse olhar é fundamental. Mas ele nem sempre é suficiente.
Para compreender o jornalismo contemporâneo, especialmente o jornalismo investigativo e de denúncia, é preciso olhar também para aquilo que antecede a publicação. As decisões editoriais não são guiadas apenas por critérios técnicos, valores profissionais ou interesses institucionais. Elas também são moldadas por ambientes de pressão, medo, insegurança e risco que permanecem invisíveis para quem lê, pesquisa ou critica o jornalismo.
A prática do jornalismo investigativo nunca foi uma atividade confortável. Revelar esquemas de corrupção, denunciar violações de direitos ou expor abusos de poder sempre implicou algum grau de enfrentamento. Nos últimos anos, entretanto, esse cenário passou a incorporar novos elementos. A ascensão da extrema direita em diferentes partes do mundo, incluindo o Brasil, coincidiu com a consolidação das redes sociais como principal espaço de circulação de informação, com a ampliação do poder das plataformas digitais e com a intensificação de campanhas de assédio capazes de atingir jornalistas em uma escala sem precedentes.
Nesse contexto, ameaças, perseguições judiciais, ataques coordenados nas redes e tentativas de descredibilização pública deixaram de ser episódios excepcionais para se tornarem parte da rotina de muitos profissionais.
Uma pesquisa publicada recentemente, em maio de 2026, ajuda a dimensionar esse cenário. Intitulada Jornalismo local sob pressão do poder paralelo, a investigação foi conduzida pelos jornalistas Gabi Coelho e Igor Soares, com apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), e publicada pelo Colabora. O levantamento ouviu 38 jornalistas e representantes de veículos locais das cinco regiões do país por meio de questionários estruturados e entrevistas em profundidade.
Os resultados ajudam a revelar uma realidade invisível. Entre os participantes, 89% relataram ter sofrido algum tipo de hostilidade relacionada ao exercício da profissão. Mais de 60% afirmaram já ter deixado de publicar pautas por medo de represálias. Quase 79% disseram não contar com apoio suficiente para continuar atuando em situações de risco. E 63,2% relataram impactos psicológicos, incluindo ansiedade, medo permanente, isolamento e desgaste emocional crônico.
Foi impossível ler esses dados sem reconhecer neles aspectos da minha própria trajetória profissional.
Em 2020, publiquei uma reportagem sobre o caso Mariana Ferrer que expôs as sucessivas violências enfrentadas pela jovem ao buscar justiça após denunciar um estupro. A repercussão foi imediata e ultrapassou os limites da reportagem. O caso mobilizou o debate público nacional, impulsionou mudanças legislativas voltadas à proteção de vítimas de violência sexual durante audiências judiciais e continua produzindo desdobramentos jurídicos e institucionais.
Mas, a publicação da reportagem também marcou o início de uma experiência que transformou profundamente minha relação com a profissão.
Desde então, respondo a ações judiciais relacionadas ao caso. Ao longo desses anos, enfrentei campanhas de ataques nas redes sociais, tentativas de descredibilização pública e um desgaste emocional difícil de mensurar.
Eu recebi e continuo recebendo toda assistência jurídica necessária, pois contei com apoio institucional do veículo para o qual escrevi a reportagem enquanto freelancer. Mas nem todos os jornalistas contam com a mesma estrutura. A pesquisa de Coelho e Soares mostra que 84,2% dos participantes apontam justamente a falta de apoio jurídico como um dos principais obstáculos para continuar exercendo a profissão em contextos de risco.
Quando a reportagem foi publicada, em 2020, ainda havia pouca articulação institucional para lidar com situações de assédio judicial e campanhas coordenadas de ataques contra jornalistas. Nos últimos anos, organizações da sociedade civil, entidades de defesa da liberdade de imprensa e iniciativas de apoio jurídico passaram a oferecer respostas mais estruturadas para profissionais submetidos a esse tipo de violência. Trata-se de um avanço importante, embora ainda insuficiente diante da dimensão do problema revelado pela pesquisa.
Ao ler que 63,2% dos entrevistados relataram impactos psicológicos decorrentes das hostilidades sofridas, encontrei um aspecto da profissão que raramente aparece nas discussões sobre liberdade de imprensa. Fala-se pouco no meio acadêmico e profissional sobre ansiedade, hipervigilância, medo constante, exaustão e desgaste emocional.
Ainda existe uma imagem quase heroica do jornalista investigativo: alguém disposto a enfrentar qualquer risco em nome do interesse público e seguir adiante após a publicação da matéria. Essa narrativa pode parecer inspiradora, mas também produz efeitos perversos. Ela naturaliza o sofrimento e desloca para o indivíduo a responsabilidade de suportar pressões que deveriam ser enfrentadas coletivamente por empresas, entidades de classe e mecanismos de proteção.
A realidade costuma ser menos épica e muito mais complexa. Os efeitos de uma reportagem podem permanecer por anos na vida do profissional. Eles afetam a forma como novas pautas são avaliadas, como as fontes são abordadas e como os riscos passam a ser calculados.
O impacto emocional também atravessa a vida pessoal. Ansiedade, sensação permanente de vigilância, medo de novas retaliações e a dificuldade de se desvincular de conflitos que continuam produzindo consequências anos depois afetam relações familiares, amizades, momentos de descanso e a própria percepção de segurança. Em muitos casos, o jornalista deixa de lidar apenas com os efeitos de uma reportagem e passa a reorganizar aspectos da própria vida em função dos riscos que ela produziu.
Hoje reconheço que a autocensura faz parte da minha rotina profissional.
Não se trata de uma decisão consciente tomada todos os dias. Trata-se de algo mais sutil. Ao longo do tempo, passei a evitar determinados enfrentamentos, a medir com mais cuidado as consequências de algumas pautas e a considerar fatores de segurança que antes talvez ocupassem menos espaço nas minhas decisões.
Costumamos imaginar que o objetivo de uma ameaça é impedir a publicação de uma reportagem. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes, o efeito mais duradouro acontece depois que a matéria já foi publicada. Quando o jornalista passa a calcular riscos de outra forma. Quando determinadas pautas deixam de parecer viáveis e o medo se transforma em um critério informal de decisão editorial.
Ao longo da minha trajetória, passei por várias situações de hostilidade, especialmente quando cobria temas relacionados à violência policial. Hoje, me sinto mais segura investigando temas e instituições localizados a centenas ou milhares de quilômetros de distância de onde moro, do que estruturas de poder que atuam no território onde vivo. Não se trata apenas de uma escolha editorial. Trata-se também de uma estratégia de proteção. Essa talvez seja uma das formas menos visíveis de autocensura: quando o cálculo dos riscos passa a influenciar não apenas o que se investiga, mas onde se investiga.
Já fui demitida em dois momentos da carreira após produzir reportagens que incomodaram grupos influentes. Já recebi mensagens de autoridades durante a madrugada questionando reportagens que seriam publicadas no dia seguinte.
Em uma investigação envolvendo violência policial, acompanhei uma fonte que tinha mais medo das possíveis consequências para sua família do que da exposição do próprio caso. Em diferentes momentos da carreira encontrei pessoas dispostas a denunciar abusos, mas aterrorizadas pela possibilidade de represálias. O medo não interrompe apenas a produção da notícia. Ele dificulta a própria circulação de informações de interesse público.
Ao ler os depoimentos reunidos por Coelho e Soares, tive a sensação de encontrar variações de uma mesma história. Talvez o dado mais preocupante da pesquisa seja justamente o que não aparece de forma explícita nos números. Quando jornalistas deixam de publicar pautas por medo, não estamos falando apenas de experiências individuais, mas de informações que deixam de chegar ao público.
Uma pauta abandonada raramente vira estatística. Uma fonte silenciada dificilmente será contabilizada. Um repórter que decide não investigar determinado tema não aparece em relatórios sobre liberdade de imprensa. Mas os efeitos dessas ausências são concretos. Eles ajudam a definir quais histórias serão contadas, quais abusos permanecerão invisíveis e quais estruturas de poder continuarão operando longe do escrutínio público.
A principal contribuição da pesquisa de Gabi Coelho e Igor Soares talvez seja justamente tornar visível esse processo. Ao documentar hostilidades, ameaças, impactos psicológicos e estratégias de sobrevivência adotadas por jornalistas em diferentes regiões do país, o levantamento mostra que a violência contra a imprensa não produz apenas vítimas individuais. Ela produz também limites silenciosos para o exercício do jornalismo.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Schirlei Alves é jornalista, mestranda do PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS
