
(Foto: Igor Omilaev/Unsplash)
A inteligência artificial é um dilema debatido entre jornalistas de todo o mundo. Com o declínio na confiabilidade da imprensa e a popularização do uso das ferramentas, a discussão sobre como a tecnologia continuará a impactar de diferentes maneiras a forma de fazer jornalismo se torna cada vez mais urgente.
Apesar de utilizar o verbo no futuro, sabe-se que as ferramentas generativas já fazem parte do cotidiano de parcela da população, seja na imprensa ou fora dela — quase metade dos brasileiros com acesso à internet incluíram o ChatGPT e o Gemini na rotina. Dentro das redações, veículos como Estadão e Folha de S.Paulo criaram comitês e códigos de conduta para o uso de IA. A transparência de como esse uso é feito pelos jornais foi desdobrada no artigo da pesquisadora Kalianny Bezerra, doutora em Jornalismo pelo PPGJOR/UFSC e integrante do objETHOS.
É fato que a tecnologia tem apoiado a produção técnica e encurtado processos, evitado retrabalho e facilitado o refinamento de dados. Redações criaram setores de análise de informações, com jornalistas programadores que desenvolvem recursos para agilizar a apuração e mapear possíveis pautas.
Por outro lado, a popularização das ferramentas de busca baseadas em inteligência artificial generativa introduz uma nova questão para o jornalismo. O recurso de IA do Google, o AI Overviews, tem contribuído para a redução de 20,6% no tráfego direcionado a sites de notícias, de acordo com levantamento da empresa Authoritas. Em outras palavras, cresce o número de pessoas que realizam suas pesquisas diretamente por meio dessas ferramentas, que sintetizam informações e apresentam respostas sem exigir o acesso ao link de origem.
O estudo completo foi submetido ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) pelas organizações Foxglove, Artigo 19 e Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), além do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio. Desde 2019, o Cade conduz um inquérito administrativo que investiga possíveis infrações e abuso de posição dominante por parte do Google nos sistemas de busca online. Em junho de 2025, o julgamento do caso foi interrompido após pedido de vista do conselheiro Diogo Thompson. Na sequência, foi aberta uma consulta pública para a coleta de novas informações, cujo prazo de contribuições se encerrou em setembro de 2025. Até a publicação deste artigo, não foram identificadas atualizações sobre o andamento do processo no site oficial do Cade.
Além de não revelar os critérios da seleção de dados expostos pela busca, o Google também tem capturado informações jornalísticas — incluindo texto, fotografias e vídeos — sem autorização dos autores. Em paralelo, veículos da imprensa hegemônica como Estadão, CNN, Fox News e Le Monde estão firmando acordo com as big techs Google e Meta para fornecer notícias para os assistentes de inteligência artificial.
A democratização do acesso às informações é necessária. Porém, a questão não está apenas em como a IA altera a distribuição e seleção de respostas aos usuários, trazendo uma nova camada ao gatekeeping. No Brasil, 93% dos sites de notícias não protegem seus dados dos mecanismos de busca por IA. A fragilidade permite não só que os conteúdos sejam disponibilizados sem retorno financeiro aos autores, mas também contribui para que as ferramentas mimetizem a linguagem e o formato dos textos jornalísticos. O percentual está na pesquisa The Protocol Gap, realizada pelo Journalism Relay Project, Momentum e International Fund for Public Interest Media (IFPIM). O levantamento usou dados do Atlas da Notícia.
Ao permitir que sistemas de inteligência artificial passem a emular práticas jornalísticas, empresas de tecnologia abrem espaço para a ampliação da circulação de conteúdos falsos, sobretudo, em um contexto no qual o público tende a consumir informações cada vez mais fragmentadas e superficiais. Soma-se a isso a presença de vieses nos mecanismos de busca, que podem limitar a pluralidade e diversidade de perspectivas. Também são comuns os resultados apontarem informações erradas ou descontextualizadas. Nesse cenário de incertezas, cresce a preocupação de que a desinformação seja potencializada com aval de grandes empresas.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Caroline dos Passos é Jornalista, mestranda em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS
